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paisagens da crítica


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Convido-os, portanto, a visitarem:

http://paisagensdacritica.wordpress.com

 

Abraços e muitas leituras,

Júlio



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 20h25
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Morte e julgamento é fraco e previsível. Traz, porém, um mistério de difícil decifração (que você, leitor, saberá qual é no último parágrafo desse comentário) e repete a fórmula que Donna Leon emprega em seus outros livros: misturar os clichês básicos do policial com a idéia de grandes tramas que envolvem poderosos. A leitura é rápida e decepcionante, estimulada apenas pelas referências às ruas tortuosas de Veneza, onde a autora, americana, vive e dá aulas há décadas. Portanto, se você gosta de Veneza, leia. Se não tem grande interesse pela cidade, ignore. Eu, que sonho com Veneza pelo menos uma vez por mês, não perco um livro dela.

 

Curioso é que, embora Leon esteja lá há tanto tempo, vê a Itália com olhos de estrangeira e escreve sobre o país como se fosse turista – com fascínio, estranhamento e relativa incompreensão. Lembra o famoso comentário de Borges sobre a suposta ausência de camelos no Alcorão: diz ele que não há menção a camelos no livro sagrado (o que é mentira, mas isso é outra história) porque foi escrito por um árabe que não podia saber que camelos eram especialmente árabes. Ao contrário, prossegue, se o autor fosse um falsário, um turista ou um nacionalista árabe, prodigaria em camelos, caravanas de camelos a cada página. Só que Maomé, Borges conclui, estava tranqüilo: sabia que podia ser árabe sem camelos. Donna Leon não sabe que pode ser italiana sem prodigar em termos grafados em italiano e em itálico. Por isso, a cada página, sapeca um “sì” ou um “cara”. Mais que isso: sua estranheza é notável na forma distante como fala dos italianos em geral, e dos venezianos em particular. Pior é que não é apenas a boca onisciente do narrador que revela a distância. O próprio comissário Brunetti age, às vezes, como se viesse de outro país ou planeta e fosse incapaz de penetrar na especificidade local. O resultado é que o relato fica artificial, perde verossimilhança e, pior, ritmo, dado o excesso de intervenções explicativas e de digressões sugestivas da comicidade de algumas atitudes dos “nativos”.

 

Fora isso, temos o feijão-com-arroz do policial: um detetive incorruptível, um mistério ligeiramente rocambolesco, alguns ambientes sórdidos (e aqui Leon mostra, novamente, de que tradição veio: as marcas do policial duro americano se manifestam o tempo todo e prevalecem sobre o policial analítico), o desfecho revelador. E a marca registrada de Leon: a sensação de que há uma conspiração grandiosa, que imobiliza e leva a justiça a um impasse. Nesse romance, a barra pesa: pedofilia, tráfico de mulheres, drogas, corrupção dos altos escalões do governo. Tem até uma prostituta brasileira e – outra idéia clássica de americano – os criminosos acham (sei lá por quê) que o Brasil é o melhor lugar para se esconder da justiça. Talvez o livro seja uma metáfora dos anos Berlusconi (a edição original é de 1995), que tanto impacto tiveram na ficção italiana recente (aparentemente sem muita influência na consciência da sociedade, tanto que o homem está voltando), com sua combinação de mau gosto, vulgaridade e atmosfera de suspeição. Talvez seja apenas a maquinaria da imaginação de Leon, que mostra ao leitor o fracasso da verdade e a força do crime organizado. Talvez sejam as duas coisas: a primeira como desabafo, a segunda para simplificar a resolução do mistério.

 

Porque Brunetti, entre uma taça de prosecco e outra (olha aí o camelo veneziano de novo), elucida tudo, mas sua ação não tem efeito prático. Só ele, a mulher e o leitor ficam sabendo a verdade. Um único mistério persiste – e esse nem Brunetti soluciona: por que o livro se chama Morte e julgamento? Morte tem de monte: só nas três primeiras páginas, morrem umas dez pessoas. Mas julgamento não tem nenhum, literal ou metafórico. Por que será? Deve ser coisa de italiano, que Donna Leon não entendeu bem e nós, que nem vivemos em Veneza, tampouco.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 10h01
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Naquele exato momento diagnostica o mal do século XX – o desassossego. Reúne textos em geral pequenos que Dino Buzzati publicou no Corriere della Sera nos anos 1940 e 1950.

 

Buzzati é um tremendo autor. Seu O deserto dos tártaros, de 1940, é angustiante e belo. Fala do deserto e das esperanças ocas para injetar o deserto na nossa alma e as esperanças ocas na nossa inconsciência. Se o XX é o século do estranhamento, do deslocamento e da errância, poucos erraram mais que os personagens de Buzzati, mesmo quando ficavam paralisados pelo entorno. É isso que (re)encontramos nos 156 fragmentos de Naquele exato momento. Com a diferença de que Buzzati sabe que, mesmo em tempos sombrios, o lirismo é necessário; é preciso tragá-lo, nem que seja com amargura e com uma terrível desconfiança.

 

Os registros são de todos os tipos: de instantâneos quotidianos – uma visita ao médico, por exemplo – ao reconhecimento de uma Itália que nunca mais seria a mesma após os anos de guerra. A guerra, aliás, é onipresente nos textos, e não poderia ser diferente. Num dos mais vertiginosos – o que trata da festa do 25 de abril de 1945, dia da libertação – Buzzati narra lentamente os abraços e beijos efusivos de quem se encontrava pelas ruas de Milão, mas não deixa o leitor relaxar; mantém subterraneamente a descrença de que a alegria estivesse mesmo sendo partilhada. E arremata com um soco rápido no nosso estômago, ao constatar que não é mais possível ser jovem, independentemente da idade: o país emergia da tragédia envelhecido e a alegria só podia estar na superfície.

 

Realismo que constrange, embora necessário. Estranho é que o livro, na edição brasileira, seja apresentado como um marco do “realismo mágico italiano”. Talvez fosse a necessidade mercadológica de vender a crueza de Buzzati como algo que o leitor brasileiro já conhecia, das pragas, quer dizer, das plagas vizinhas, e consumiria melhor. Mas realismo mágico aqui, em bom português, non c’entra. É a brutalidade da vida vivida sem mistificação, mesmo que por vezes seja preciso fantasiar para suportar melhor a brutalidade do que se viveu e o imponderável do que virá.

 

Dessa combinação aguda de realismo e lirismo e amargura e um olhar angustiado perante a história é que se fazem as crônicas – sim, crônicas – desse livro publicado originalmente em 1955 e que, mais de cinqüenta anos depois, é de classificação difícil e de comparação ainda mais complicada. Porque o desassossego, esse desassossego assimilado, mas nem por isso mais tolerável, ninguém o rouba de Buzzati – e infelizmente nem de nós. A experiência pessoal, afinal, não deixa de ter valor coletivo, como sabem alguns poucos escritores brasileiros da atualidade – penso em Miguel Sanches Neto e em suas crônicas. Talvez por isso o termo consagrado por Pessoa ressoe tanto na distância e na cronologia e mantenha suas aparições prazerosas – para a leitura -, mas desagradáveis para a consciência.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 18h48
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Um pouco de férias...

A próxima publicação será logo após o Carnaval.

Até lá!

 



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 22h26
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Longe de Ramiro traz uma questão incômoda: para que serve a literatura, a leitura e antes delas – ou junto, emaranhada – a consciência? Provavelmente para nada, é a resposta que ocorre a maior parte das pessoas. Certamente para nada, na terra deserdada ocupada por homens ocos que, na paisagem espetacular – já alertaram os estudantes parisienses em maio de 1968 –, só enxergam as coisas e seu preço. Estranho é que, nesses tempos sombrios que vivemos, alguém busque, mesmo a contragosto, essa consciência, essa disposição de extrapolar o corpo, de irradiar, dele, um olhar sobre o mundo. Assim é Ramiro, personagem de Chico Mattoso em seu romance de estréia.

 

Chico Mattoso escreve uma espécie de prosa do desterro, de um personagem que se isola aos poucos, perde seu território, gasta seu rosto, anestesia seu tempo. Ao redor de Ramiro, o mundo – gentes, objetos, roupas e lugares – se dissolve, até que seu corpo também não lhe pertença mais e a consciência – aflita e desassossegada – se veja solta e, mesmo que a liberdade não se prolongue, aproveita a chance rara de rir. Entre tantas perdas e outros abandonos, Ramiro fala pouco ou nada: descarta a voz, renuncia à comunicação; resta ao narrador contar sua trajetória presente e passada numa alternância de tempos e capítulos que agita a memória. Mas o passado é visto em negativo e não há, na busca, qualquer chance de recuperação. A angústia de Ramiro é o presente – mesmo se fundada no antigo, na casa gigantesca da avó, na relação errática e banal com o irmão, na incômoda distância da namorada Tati, na morte do amigo Nestor, na previsibilidade das atitudes de outros amigos. O passado está perdido; ele é frio, é seco e, ao ser evocado, mesmo que procrie, parece um cadáver insepulto. O texto acompanha esse reconhecimento da morte por meio do distanciamento do narrador onisciente em relação a Ramiro, com seu humor sombrio e corrosivo, com a tensão que a pontuação ritmada dá à narrativa, pelas metáforas ácidas e surpreendentes, pela indistinção entre vivos e mortos.

 

No restrito e fundo universo de Ramiro, os objetos reais e irreais não se diferenciam: tudo já foi deslocado de sua função de origem – tal qual Ramiro, o desterrado. Ele já descobriu, aturdido, que “as árvores não são só árvores” e as venezianas deixaram de ser apenas venezianas; que há um código secreto e de decifração difícil; que o mundo é um espetáculo a ser visto. E Ramiro o contempla e brinca com seus absurdos, suas repetições e obviedades. Um play ground inumano e material, por onde desfilam pessoas que Ramiro arranja e rearranja, a quem atribui funções e lugares desviados. Só que tudo é ambigüidade: para escapar furtivamente do mundo, ele se confinou num quarto de hotel. A consciência – um mundo na cabeça – o aturde a ponto de ansiar pelos breves momentos de esvaziamento, por uma volta ao estado primal em que vivem aqueles homens ocos a que assiste. Afinal, Ramiro se apropria do mundo e torna-o plástico para recriá-lo em sua ficção íntima. Para representá-lo. E nenhum trabalho de criação ou representação é frio ou isento.

 

Essa talvez seja a maior tensão que Chico Mattoso mostra nos vários planos narrativos a que recorre, no jogo de amarelinha do presente com o passado, na duplicidade de histórias que compõem o romance, na experiência final de Ramiro. E a secura e a precisão de seu texto, a criteriosa e econômica escolha das palavras – correlatas do esforço detalhista e construtivo do personagem – auxiliam o leitor a percorrer com alguma aflição o itinerário simultaneamente (auto)libertador e (auto)destruidor de Ramiro. Porque o desassossego de Ramiro – esse estar em si como se estivesse fora e o estranhamento de si mesmo – é também nosso. E do mundo além do quarto de hotel de Ramiro, mundo à nossa volta, que prefere diluir sua consciência enquanto faz as contas finais para saber se a leitura e a literatura servem para alguma coisa.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 22h13
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O castelo branco é uma fábula de Orhan Pamuk. O castelo branco é uma cidadela que marca o limite da obsessão por saber a verdade sobre si mesmo e sobre os outros, por descobrir sua identidade.

 

O tema da identidade é nosso velho conhecido: há pelo menos dois séculos o pensamento brasileiro e hispano-americano o visita, quase sempre por caminhos torpes e determinantes, que desembocam em caricatas definições naturalizadas e inspiram discursos políticos canhestros à direita e à esquerda. Por isso, Sérgio Buarque de Holanda alertou, setenta anos atrás, para o duplo risco de sua busca: a identificação não pode ser tão ampla, que tudo caiba nela, nem tão restrita, que só se possa enxergá-la no espelho. Por isso, tantos já alertaram que toda identidade é inventada e só existe em função de seu tempo e da comunidade imaginada por quem a construiu.

 

Só que Pamuk é turco e publicou O castelo branco, seu primeiro romance, em 1979. A Turquia já vivia, há séculos, o dilema que até hoje a envolve: desejar e desdenhar ser Europa. Como toda fábula, traz um enredo aparentemente simples: a convivência, por décadas, entre um veneziano e um turco. A história se passa no século XVII, o veneziano é um homem ilustrado e narra sua captura pelos turcos, a vida na prisão e, depois, como escravo de Hoja, o turco que queria saber dos “outros” – os europeus – e de si mesmo. São quase idênticos na aparência e juntos tentam desvendar, em embates intelectuais e filosóficos, suas semelhanças e diferenças de “essência”. Hoja, senhor, propõe uma questão que soa infantil: por que eu sou quem sou? O narrador, escravo, é forçado a descrever com detalhes seu passado e seus pecados em terras distantes, agora inacessíveis. Num dado momento, olham-se lado a lado no espelho e não gostam do que vêem.

 

O jogo, perigoso, não se restringe aos dois: envolve poderosos – paxás e sultões – a quem assessoram e temem, de quem prevêem temerariamente o futuro, para quem fabricam uma poderosa arma militar. É com o sultão que partem para uma guerra longa e errática, cujos objetivos são difusos e cujo limite é o castelo branco que, além do pântano, engole a máquina de guerra e força o desfecho da relação obsessiva.

 

Tudo é tormentoso na narrativa de Pamuk. Os duplos são incessantes e as misturas de papéis, inevitáveis. O que, afinal, cada um pode aprender sobre o outro? Qual é o limite do eu, do você, do nós? O que fazemos quando a cabeça, afligida por medos reais ou imaginários, se separa do corpo e não conseguimos entender por que estamos dentro de nós? Até a escrita, tantas vezes apresentada como saída e possível aprendizado, se torna agônica na vertigem catártica da identificação que procuram. E, assim, a autobiografia – forma aparente da narrativa – se divisa com a mentira e com a história fictícia e alheia – tema, por sinal, a que Pamuk voltaria, anos depois, no maravilhoso Istambul. Hoja quer provar uma verdade, a própria verdade, e, para tanto, chega a extremos brutais: científicos, religiosos, políticos. Descobre, afinal, que talvez seja preciso esquecer para lembrar e que o único resultado de sua busca é o desespero, o engano.

 

O castelo branco é uma fábula e as fábulas, sabemos, têm capacidade reveladora. Mas o livro – que deveria ser lido por todos, principalmente nas terras em que as gentes insistem na “revelação” de sua “identidade” – só revela o paradoxo e a inutilidade dessas buscas. Revela a complexidade, a paixão e o torpor das relações, a fluidez das fronteiras. Nos coloca no negativo e lembra que todos temos, diante de nós, um castelo branco.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 15h20
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Na multidão é mais uma história – a sétima – de Espinosa, o detetive criado em 1996 por Luiz Alfredo Garcia-Roza e, desde então, o mais importante personagem do romance policial brasileiro.

 

Espinosa continua melancólico, continua empilhando livros em seu pequeno apartamento no bairro do Peixoto, continua caminhando pelas ruas de Copacabana, continua “policial filósofo”, continua seguindo seu método dedutivo que se caracteriza, sobretudo, pela falta de método: ele pensa por associação, abiscoita algumas lembranças involuntárias, deixa-se levar pela intuição e consegue decifrar os mistérios.

 

Em sua nova aventura, o mistério, mais do que nunca, relaciona-se a ele: a seu passado, às difusas memórias da infância, à sua experiência de leitor. Afinal, o título já indica a filiação poeana da história. Hugo Breno, quase amigo de infância de Espinosa, é quase suspeito de um quase crime. E é, também, um homem da multidão. Como o personagem de Poe, só se sente bem em meio à multidão, nas ruas agitadas pelo frenesi do final da tarde. Um homem comum, que mora em uma casa comum, tem um emprego comum e passa despercebido. “Um eremita na multidão”, que torna qualquer perseguição a ele uma tarefa ingrata e inócua – como também descobriu o narrador do famoso conto de Poe.

 

Além de Poe, outra face da ficção do XIX dá o ar da graça no livro de Garcia-Roza: aquela que fala dos duplos – médicos & monstros, criadores & criaturas – e de toda sorte de estranhamentos e espelhamentos. Vânia, mulher sedutora que atormenta Espinosa, se parece muito com Irene, sua namorada. Hugo Breno se olha no espelho de Espinosa e Espinosa teme olhar-se no espelho de seu passado: o que pode encontrar lá? O crime do presente se confunde com um acidente. Mas também se mistura com outro crime, no passado, que pareceu outro acidente. Entre tantas misturas, como isolar uma parte da outra ou do todo? Como individualizar aquele que se esconde – solitário entre tantos – na multidão? Espinosa não sabe muito bem, demora a decidir e, principalmente, se horroriza com o que os labirintos do presente e do passado guardam.

 

Na multidão não é um grande livro e o excesso de citações diretas ou cifradas pode cansar um pouco o leitor. Mas é muito bem construído, é bastante superior aos demais policiais brasileiros da atualidade, sua leitura é agradável e mostra que Garcia-Roza está em melhor forma do que sugeriram seus dois romances anteriores. E que Espinosa, mesmo cansado e melancólico, precisa continuar.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 17h18
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Proust, a violência sutil do riso reage a certa visão hegemônica na crítica proustiana (há tempos transposta para o senso comum sobre o autor francês). Porque mais do que as leituras dos livros, às vezes é a leitura da crítica que se impõe à nossa interpretação de um autor, à tradução de suas referências para nosso mundo e para nossa biblioteca pessoal. Ainda mais quando se trata de uma obra clássica – que alguns lêem e relêem e outros já a conhecem sem jamais tê-la lido. É o caso de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust.

 

Na origem, o estudo foi uma tese de Leda Tenório da Mota, defendida na França sob orientação de Julia Kristeva. Mas o tempo, outras leituras e os sucessivos escritos de Leda Tenório da Motta sobre Proust refizeram algumas análises, ampliaram o eixo da discussão e resultaram no livro que agora é editado e passa a ocupar o centro da proustiana brasileira. Porque, em seu texto fluido, ele trata não apenas de Em busca do tempo perdido, mas dialoga com toda a tradição de estudos proustianos – inclusive no Brasil. Mais do que isso, considera as adaptações de Proust para outras linguagens – cinema, quadrinhos – e vê, nesse movimento de tradução e inevitável interpretação, um jogo que permite aproximações diferentes do leitor ao texto original.

 

Mas se a agilidade da escrita de Leda Tenório da Motta e sua capacidade de perceber a onipresença e as modulações da recepção de Proust são importantes, nem longinqüamente são os pontos principais do livro. Essencial é sua percepção de um humor proustiano que se funda na tradição judaica: irônico e auto-irônico, crítico e ocasionalmente cínico, profundamente racional. Essencial, também, é localizar algumas matrizes do humor de Proust em suas caricaturas precoces e na disposição de diagnosticar o ridículo de uma sociedade que obviamente o fascinava, sem, no entanto, levá-lo à mera celebração. É o mundo como farsa, notado em diálogos mais ou menos explícitos com autores como Molière e, principalmente, Baudelaire. É a refutação do realismo de Zola – que equivale a recusar, junto, todo um conjunto de certezas científicas, tão ao gosto da virada do XIX ao XX.

 

No lugar da ordem plena, Proust institui o completo esfacelamento, a divisão da consciência, a fragmentação do homem, cuja maior expressão é o narrador da obra, que percebe que a lógica do meio em que está – e que ele esmiúça – é imprecisa; que qualquer busca de nexos e de causas será sempre épica e, provavelmente, estéril; que prefere falar “sozinho, desfiando suas intermináveis suposições, e atingindo o coração mesmo da narração com essa sua sinfonia inacabada.” A tão propalada tagarelice do narrador, lembra Leda, é pura angústia. E a angústia se divisa com a melancolia, e a melancolia com o riso – riso peculiar, que – já disse Benjamin – tem o travo da lágrima e o sabor da morte.

 

Por isso Leda desafia a crítica proustiana e o senso comum sobre Proust; por isso recusa a propalada imagem de que a obra revela uma odisséia bem sucedida de recuperação do passado, com seus mecanismos supostamente reveladores e a capacidade fundadora da memória. Num exemplo: a célebre passagem da madalena molhada no chá de tília, capaz de evocar experiências e tempos até então soterrados, fazendo cidade e jardins brotarem subitamente, não traz apenas a felicidade do reencontro. Implica também “uma espécie de intoxicação, algo que vem de fora para dentro, daí ser tão difusa, fugidia, parcial.” Na contramão do Proust lido na perspectiva redentora do cristianismo, um Proust percebido na tensão interna do judaísmo: o Proust que defendeu Dreyfuss, que expressou seguidamente seu desassossego, mas não o fez na chave da autocomplacência, e sim na do riso. Porque o riso, em sua entonação ocasional de comédia e de burla, “faz tremerem os sensatos”; é um riso predador.

 

A reviravolta crítica que Proust: a violência sutil do riso provoca é maior do que no âmbito – nada pequeno – da proustiana. O que está em jogo nesse ensaio relativamente breve é um conjunto de questões que move (ou deveria mover) a crítica: os sentidos do romance – e dos romances que encerra –; o lugar do leitor que lida com os inúmeros intérpretes que o antecedem, numa cadeia que parte do autor e dos precursores que inventa e desemboca na miríade de exercícios críticos expressos nas páginas de jornais e revistas e na conversação literária; a perigosa e complexa relação entre ficção e história; a condição do crítico e sua capacidade de instigar o leitor a buscar a obra de que trata e enxergar o que ela oferece.

 

Afinal, quando a crítica é leitura – e resultado de leituras – ela provoca o leitor e o faz pensar; não se impõe a ele pela arrogância ou pelo conforto da posição superior que os críticos gostam, tantas vezes, de assumir. E Leda Tenório da Motta mostra, em Proust: a violência sutil do riso, que é crítica-leitora, multi-leitora: aquela que mostra caminhos e sugere, com erudição e delicadeza analítica, como o leitor pode trilhá-los.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 15h48
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A Revista EntreLivros acabou. Nos próximos dias chega às bancas o número 32 – e último.

 

Fui leitor de EntreLivros desde o primeiro número, quase três anos atrás. Na época, tinha fome de uma revista literária brasileira. Lia a Magazine Littéraire, o New York Review of Books e lastimava a ausência de algo semelhante. Por isso, quando vi a primeira EntreLivros na banca, comprei logo e li rapidamente.

 

Depois, por uma dessas manias que nunca conseguimos explicar, não a comprava logo que saía. Adiava a compra, adiava quase até o lançamento do número seguinte. Talvez preferisse guardar para a última hora. Talvez infantilmente quisesse retardar o desvendamento do mistério – das reportagens, das resenhas, da crítica. A crítica – um tipo de crítica – que não havia no Brasil desde que a Cult perdeu a editoria lúcida de Manuel da Costa Pinto e trocou a literatura pelo entretenimento e pela filosofia. Desde – bem antes – quando os suplementos culturais perderam o rumo e elegeram o público acadêmico como interlocutor, ignorando um sujeito simples e existente: o leitor comum.

 

Foi assim até o número 14, de junho de 2006. Nesse número, pela primeira vez, escrevi para EntreLivros e virei colaborador, sem deixar de ser leitor. De lá para cá, colaborei quase todo mês. E mais do que antes, esmiuçava a revista texto a texto, linha a linha, para, em seguida, escrever à Josélia Aguiar, então sub-editora, palpitando sobre tudo, reclamando de uma coisa ou outra, discordando, elogiando. Era minha análise da análise, minha insistência em reiterar meu lugar de leitor, que outro melhor não há.

 

Quando Josélia assumiu a editoria, no começo de 2007, a revista ganhou vigor. Claro que o tinha sob o comando de Oscar Pillagalo, mas EntreLivros agora parecia mais vivaz, mais disposta a correr riscos. E os belos números se sucederam. E a coluna de Milton Hatoum – há quase vinte anos o melhor de nossos escritores – surpreendia com sua capacidade de girar a perspectiva da crítica para a ficção, para a crônica, para o memorial. E as resenhas assinadas por brasileiros eram melhores do que as reproduzidas do New York Times Review of Books. E o Brasil parecia um pouco mais letrado, um pouco mais interessado na palavra escrita.

 

Mas isso não bastou para que EntreLivros virasse mais um ano e emplacasse 2008. No país de Renan e de Lula, dos bacharéis e da auto-ajuda, da música sertaneja e do pagode, os leitores (muitos leitores, sempre lembra Hatoum) perderam EntreLivros. Por quê? Difícil dizer de fora, de longe. Concorrência? Obviamente não: não há outra revista literária. Falta de interesse? Parece improvável: tanta gente a lia! Problema de administração e do abstrato e pau-para-toda-obra mercado? Pode ser, mas a essa caixa preta os leitores nunca têm acesso.

 

Não sei. Sei que olhar o número 32 dá um pouco de tristeza. Corrói a ilusão de que é viável falar de livros. Impõe a verdade – amarga verdade, diria Danton – de que a leitura parece ser supérflua entre nós, um bem de luxo, abaixo do imprescindível celular (trocado anualmente), das duas horas diárias de televisão, da roupa de grife. Dá tristeza.

 

A derrota que o fim da revista representa é muito maior – e, por isso, mais preocupante – do que pode parecer. É a derrota do pensamento, da leitura. É um sintoma triste dos tempos sombrios que vivemos. É um indicativo da nossa miséria e da nossa aspereza.

 

Resta torcer para que, um dia, EntreLivros volte ou seja substituída por outra revista inteligente. Resta agradecer à Josélia, ao Milton e a todo o pessoal que viveu, talvez dura e prazerosamente, a aventura da edição. Resta a satisfação de ter sido, por 32 números, leitor.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 16h36
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As viúvas das quintas-feiras mostra mulheres à beira de um ataque de nervos, fechadas num condomínio de luxo, cercado por um cinturão de miséria. Elas são vazias, fúteis e vivem em meio a uma atmosfera sombria e algumas mortes. É um Desperate Housewives com pretensões literárias e preocupações sociais.

 

Claudia Piñeiro – que foi premiada pelo livro e recebeu críticas bastante elogiosas, inclusive no Brasil – traça um painel da alta burguesia de Buenos Aires durante a crise de 2001. Refugiadas num condomínio cercado de grades e com um impressionante sistema de segurança, as famílias se protegem do mundo lá fora, matriculam os filhos numa escola inglesa, jogam tênis e golfe, conversam e ostentam, consomem e se entediam. As amizades são falsas e a hierarquia interna é rapidamente estabelecida em função da riqueza de cada um.

 

A consciência da realidade é precária. Só o noticiário traz informações sobre a derrocada econômica da Argentina, a instabilidade política, os movimentos sociais. As donas de casa se preocupam com os pobres que vivem ao redor do condomínio e realizam bazares e eventos de assistência social – a sombra de Evita combinada com a das atuais ongs as espreita. Assim, sentem-se bem e diminuem os riscos de morar tão perto da pobreza e de recorrer aos serviços de quem vem desse outro mundo – desde que devidamente identificado pelos porteiros.

 

Mas é claro que, uma hora, a realidade pula o muro e os moradores se vêem às voltas com mortes. Impossível se isolar da crise, ensina o livro. E ele, de fato, é bem eficaz como denúncia do artificialismo e da inconsciência de muita gente que vive em Buenos Aires, no Rio, em São Paulo, em quase toda parte. Mais do que um diagnóstico da esquizofrenia social que nos assola, As viúvas das quintas-feiras traça uma caricatura competente, cruel e eficaz desses universos segregados.

 

No entanto, um livro não pode se resumir a uma denúncia. E, caso se disponha a isso, não deve se estender por duzentas e cinqüenta páginas, nem incorporar uma quantidade imensa de personagens. É por isso que As viúvas das quintas-feiras perde o fôlego depois dos primeiros capítulos. A narrativa se ressente desse prolongamento excessivo: a autora aos poucos abandona a criteriosa e geométrica variação de narradores e discursos do início. Deixa de oscilar entre a voz privilegiada de Virginia Guevara – misto de dona de casa e de corretora de imóveis – e outros narradores não identificados, deixa de passar do discurso direto ao indireto e ao indireto livre. Dessa forma, o cuidado literário sucumbe ao conteúdo e à intenção da denúncia.

 

Sem as amarras de uma narração bem feita, a entonação novelesca passa para o primeiro plano e se arrasta capítulo a capítulo apenas à espera de um desfecho capaz de articular os vários personagens, elucidar o motivo das mortes e, finalmente, deixar clara a impossibilidade do isolamento e da segurança. Até o clima de medo, construído com precisão no início, se desfaz no emaranhado de pequenas e fluidas histórias que parecem só pretender confirmar que o artificialismo do condomínio é correlato do artificialismo nas relações pessoais e sociais para ampliar a caricatura de que é impossível ser rico e viver protegido e feliz.

 

Derrotado pelo esforço de ideologização da narrativa, As viúvas das quintas-feiras perde a chance de ser um bom (e bem mais curto) livro, mas mostra uma autora, Claudia Piñeiro, que conhece o ofício e pode se tornar muito boa. Basta manter o rigor do início no resto do livro.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 12h21
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Espiral de Artilharia é um romance de Ignacio Padilla. Isso já basta para você, leitor, sair correndo para comprá-lo e lê-lo – se possível, antes do almoço. Padilla tem cerca de quarenta anos, é diplomata, bastante erudito e foi um dos signatários do “Manifesto Crack” (crack, de quebrar), que, em 1996, acompanhou o lançamento de livros de novos escritores mexicanos. Sim, Padilla é mexicano, embora dificilmente o leitor perceba isso em qualquer livro seu. Porque, na contramão da literatura hispano-americana dos anos 1960, empenhada em ostentar identidades, a ficção de Padilla reconhece o primado borgeano de que “nosso patrimônio é o universo”.

 

Na verdade, os participantes do Manifesto Crack já declaravam isso em alto e bom som, onze anos atrás: era hora de encerrar o longo predomínio do chamado realismo mágico na literatura hispano-americana, com tudo o que isso significava – compromissos políticos diretos, crença otimista na redenção social, busca de identidades e espelhos enterrados, de magias e de maravilhas, de explicações para os processos de formação nacional e para a modernização precária na América Latina. Padilla lembrou, em vários entrevistas, que grandes autores como Gabriel García Márquez ou Carlos Fuentes – e é indubitável que foram grandes – escreveram para seu tempo, para uma América empolgada com a revolução Cubana de 1959, e não para a América que vê Fidel de agasalho esportivo à frente da mais longeva ditadura do continente. Ou seja, o que era novo ficou velho, muito velho, e os anos 1960 finalmente acabaram. Não fazia sentido continuar repetindo a velha fórmula do realismo mágico.

 

A efetiva proposta literária de Padilla, porém, não veio em manifestos ou entrevistas; veio na ficção. Em 2000, publicou Amphitryon (a edição brasileira é de 2006), seu sexto livro, uma narrativa impressionante, polifônica, que privilegia o insólito e exacerba o subjetivismo peculiar, irônico e cínico de narradores cercados de traidores e impostores, itinerantes no tempo e no espaço. Três anos depois, lançou Espiral de artilharia – que agora chega ao Brasil – e confirmou sua posição central na ficção hispano-americana atual, ao lado do chileno Roberto Bolaño ou do argentino Ricardo Piglia.

 

Espiral de artilharia retoma o tema inicial de Amphitryon: a impostura e a precária identidade de todos nós. Só que confina seu ambíguo protagonista-narrador na prisão de uma ditadura – sem nome, tempo ou lugar. É um médico, viciado, que, da fortaleza, acompanha o desenrolar gradual de uma trama policial, à qual se sente pertencente, embora não entenda como. Confessa o que lhe pedem, mas desconhece se é verdade. Não se sabe culpado ou inocente e não entende bem o que pretendem dele tanto os pérfidos asseclas da ditadura quanto os suspeitos revolucionários que tentam derrubá-la. Isolado, revisita o passado. Aflito, passa da cela a um labirinto de memórias e de enganos. O suspense se acentua enquanto o passado emerge conflituoso, esquivo, impermeável. Nenhum tempo oferece segurança – descobre – muito menos a memória e seus jogos de espelhismos e de duplos, de lembranças confusas e não-lineares de todos aqueles que fomos. Essa, aliás, é uma constatação dura a que o médico chega: eu, que tantos fui, só não fui aquele que de fato queria ser. O eco de Borges é evidente: não há limites para as indagações filosóficas, mas elas se fazem no interior da ficção, submetidas ao rigor e à precisão da narrativa. Não há limites geográficos ou cronológicos, porque qualquer tempo ou espaço pode ser digerido no exercício de leitura que funda a escrita. Não há obrigação com a história porque a história ocupa todos os lugares, molda os sentidos e a percepção do mundo – ou seja, não é preciso mencioná-la porque ela está em todas as partes, move os homens, que por sua vez a alteram, mas sem um programa fixo e autoritário de ações e de resultados perfeitos a serem obtidos. Afinal, o heroísmo – outro tema constante de Padilla – pode equivaler à traição.

 

Na espiral alucinada do médico, só uma coisa não há: o esquecimento. Mas isso, que para tantos pode parecer salvação, é apenas um caminho rápido para a degradação e para a demência, para a diluição definitiva da fronteira que – gostamos de acreditar – separa a verdade da mentira, o bem do mal.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 06h20
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Maruzza Musumeci é uma fábula de sereias. Se é fábula tem que ter uma moral – explicou-me minha filha quando lhe falei do livro. Mas é difícil discernir a moral por trás dessa nova história de Andrea Camilleri.

 

Tudo – ou quase tudo – se passa na Sicília, onde Gnazio Manisco nasceu e para onde voltou em 1895, com quarenta e cinco anos de idade e após trinta de América. Gnazio comprou terra num lugar peculiar: uma língua sobre o mar do sul da ilha que, diziam, os antigos, flutuava sobre a água marinha. Logo Gnazio, a quem o mar afligia. Tanto que cuidou para que de sua casa, a poucos passos da praia, nem se visse o mar. Porta e janelas eram voltadas para a oliveira, em terra, que Gnazio contemplava. Sob a oliveira, também comia, às vezes dormia, e descansava nos momentos em que não trabalhava.

 

Um dia resolveu se casar e, com a ajuda de uma velha curandeira, achou a mulher ideal, Maruzza. Linda a ponto de levá-lo ao desmaio quando a contemplou nua, delicada, cuidadosa, maravilhosa cantora. Apenas um problema, detalhou a casamenteira: Maruzza se dizia sereia, e precisava do mar. Gnazio, arrebatado pela beleza, fez o que era necessário para que ela vivesse voltada para o mar e ele se mantivesse preso à terra. Casaram-se e do casamento nasceram dois filhos e duas filhas. O mais velho adorava as estrelas, a mais velha se identificava à mãe.

 

Passaram-se os anos como ondas, todos envelheceram, uns ficaram, outros partiram. Por quase cinqüenta anos viveram a alegria de uma família plena, em que os diferentes se aceitam e o afeto é partilhado sem limite. O mundo mudou ao redor e Gnazio, Maruzza e seus filhos tiveram de adequar-se – até ao estorvo dos bombardeios aliados e alemães sobre a ilha. O destino de todos estava dado e cada um cumpriu o seu sem que qualquer dos filhos ou dos pais se angustiasse por isso; afinal, para eles, a vida prosseguia bela na terra ou no mar.

 

Difícil discernir a moral. Mas fácil é perceber que a obra de Camilleri, cada vez mais variada, recusa qualquer definição ou julgamento apressado. Num recente livro de entrevistas e análises críticas, Gianni Bonina, um dos maiores estudiosos da obra do siciliano, baixa as armas e reconhece: o único que entende Camilleri é o leitor, porque a crítica não consegue ainda avaliar o peso do que escreveu. Nem é possível (ou devido) submetê-lo a esquematizações ou a divisões que separam o “entretenimento” da “literatura” em sua obra. Verdade é que Maruzza Musumeci mostra um Camilleri em plena forma em seu 46º livro (o 47º saiu junto com este, em outubro, e trata da Máfia, tema raro nos quarenta e seis anteriores). Um Camilleri que encanta e que maneja com incrível destreza a língua peculiar que criou, na mescla entre o italiano culto, os dialetos e a língua falada. Um Camilleri que escapa da realidade para, numa fábula, contar a história e os mitos da Sicília.

 

Essa, aliás, talvez seja a moral de Maruzza Musumeci: não é preciso fechar os olhos ao mundo para enxergá-lo, mas quando eles estão fechados por vezes se enxerga bem melhor. Não é preciso tentar mimetizar a realidade para acompanhar o tempo vivido; é na capacidade reveladora da narrativa ficcional que a experiência vivida ganha corpo e fôlego – de homem ou sereia.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 21h20
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Fez dois anos, ontem, que nasceu Paisagens da Crítica.

 

Nasceu da vontade de comentar o que leio,

de saber o que outros lêem,

de conversar sobre livros.

 

Dois anos.

Quase 38 mil acessos.

Média atual de 1.700 por mês.

154 textos publicados:

25 de colaboradores, 129 meus.

Obrigado, sempre, a quem colaborou.

E muito obrigado, claro, a quem leu.

 

Abaixo, dois índices. Por data e por autor.

 

Abraços a todos!

Começa agora o ano 3 de Paisagens da Crítica.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 11h42
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Índice por data de publicação

(em vermelho, textos dos colaboradores)

 

2007

 

26.11 – Vale tudo, de Nelson Motta

22.11 – Contemporâneo de mim, de Daniel Piza

19. 11 – “Monstrerói”, por Domingos Pellegrini

13.11 – O romance morreu, de Rubem Fonseca

08.11 – Literatura nos jornais, de Cláudia Nina

05.11 – Antes que anoiteça, de Reinaldo Arenas

01.11 – La pista di sabbia, de Andrea Camilleri

 

29.10 – Marley & eu, de John Grogan

25.10 – A voz do morto, de Rex Stout

22.10 – Raimundo e a menor banda do mundo, de Sergio Serrano

12.10 – O ladrão no armário, de Lawrence Block

07.10 – Segunda-feira o Rabino viajou, de Harry Kemelman, por Giselda Gastaldi

 

30.09 – Homem comum, de Philip Roth

24.09 – O filho eterno, de Cristovão Tezza

12.09 – Um homem: Klaus Klump, de Gonçalo M. Tavares

05.09 - Homens e não, de Elio Vittorini

 

29.08 – O passado, de Alan Pauls

24.08 – Asas da loucura. A extraordinária vida de Santos-Dumont, de Paul Hoffman

21.08 - Alguma prosa, org. por Giovanna Dealtry, Masé Lemos e Stefania Chiarelli

17.08 – Cinco livros

14.08 – Câmara Cascudo, Dona Nazaré de Souza & Cia., de Marcos Silva

10.08 - Herdando uma biblioteca, de Miguel Sanches Neto

07.08 – Meu mundo caiu. A bossa e a fossa de Maysa, de Eduardo Logullo

03.08 – Corpo estranho, de Adriana Lunardi

 

31.07 – Serpente encantadora, de Telmo Martino

27.07 – A história dos ossos, de Alberto Martins

23.07 – Os sapatos de Orfeu. Biografia de Carlos Drummond de Andrade, de José Maria Cançado

10.07 – Na praia, de Ian McEwan

04.07 – Istambul, de Orhan Pamuk

01.07 – Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar, de Annita Costa Malufe

 

27.06 – O barril mágico, de Bernard Malamud

18.06 – “O silêncio da Sicília” - ensaio

09.06 - Anna O. e outras novelas, de Ricardo Lísias

04.06 - De repente nas profundezas do bosque, de Amós Oz, por Percy da Silva

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 11h40
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31.05 – Jóia de família, de Zulmira Ribeiro Tavares, por Stefania Chiarelli

27.05 - Palomar, de Ítalo Calvino, por Renato Prelorentzou

22.05 - Contos de amor do século XIX, org. Alberto Manguel

17.05 – Cem anos de solidão. Edição comemorativa, de Gabriel García Márquez

14.05 - Dez livros sobre o roteiro das especiarias

07.05 - Vidas em trânsito, de Stefania Chiarelli e Arquitetura da memória, org. por Maria da Luz Pinheiro de Cristo

03.05 - A cor do sol, de Andrea Camilleri

 

29.04 – Fidel Castro – Biografia a duas vozes, de Ignacio Ramonet

25.04 - As sementes de Flowerville, de Sérgio Rodrigues

19.04 - O homem de gelo. Confissões de um matador da Máfia, de Philip Carlo

16.04 - A política da nostalgia, de Marcos Piason Natali

12.04 - Era uma vez o amor mas tive que matá-lo, de Efraim Medina Reyes

09.04 - Borges, de Adolfo Bioy Casares

03.04 - O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho

 

29.03 – Jonas e as cores, de Regina Berlim

26.03 - Viagens no Scriptorium, de Paul Auster

21.03 – O que aprendi com Bruna Surfistinha, de Raquel Pacheco

14.03 - O homem dos círculos azuis, O homem do avesso e Fuja logo e demore para voltar, de Fred Vargas

09.03 - O túnel, de Ernesto Sabato, por Fabiana Fredrigo

06.03 - “Ode à Curitiba ou elegia ao Tempo”, por Alberto Luiz Schneider

02.03 – Le ali della sfinge, de Andrea Camilleri

 

26.02 – Melhores contos de Domingos Pellegrini, de Domingos Pellegrini (org. M. Sanches Neto)

21.02 – Milênio, de Manuel Vázquez Montalbán

15.02 – Os Amigos do Crime Perfeito, de Andrés Trapiello

12.02 – O Diário de Florença, de Rainer Maria Rilke

07.02 – A hora futurista que passou, de Mário Guastini (org. Nelson Schapochnik)

04.02 – Meus queridos estranhos, de Livia Garcia-Roza

 

23.01 – Impurezas amorosas, de Miguel Sanches Neto

18.01 – Rua do Ouvidor 110, de Lucila Soares

15.01 – Domingo o Rabino ficou em casa, de Harry Kemelman

11.01 – Os emigrantes, de W. G. Sebald, por Teresa Chaves

09.01 – O mundo acabou!, de Alberto Villas

 

2006

 

22.12 – Vidas secas, de Graciliano Ramos

19.12 – Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, por Solange Mayumi Lemos

15.12 – Espinosa sem saída, de Luiz Alfredo Garcia-Roza

10.12 – Histórias fantásticas, de Adolfo Bioy Casares

04.12 – O cavalo perdido e outras histórias, de Felisberto Hernández

 

30.11 – texto: um ano de blog + índice

24.11 – Este é meu credo, de Carlos Fuentes

21.11 – Harpo fala... de Nova York, de Harpo Marx

17.11 – Gilberto Freyre: um vitoriano nos trópicos, de Maria Lúcia Pallares-Burke, por Alberto Luiz Schneider

14.11 – O homem duplicado, de José Saramago, por Solange Mayumi Lemos

10.11 – As raízes e o labirinto da América Latina, de Silviano Santiago

07.11 – Seqüestro em Copacabana, de Oliver Dell’Anno

 

31.10 – A parte mais tenra e Conforte-me com maçãs, de Ruth Reichl

27.10 – Duas praças, de Ricardo Lísias

23.10 – A casa de papel, de Carlos María Domínguez

20.10 – Febeapá 1, 2 e 3, de Stanislaw Ponte Preta

10.10 – Chove sobre minha infância, de Miguel Sanches Neto

06.10 – Fragilidade absoluta, de Giovanna Bartucci

03.10 – Um ganso em Toulouse, de Mort Rosenblum

 

29.09 – A verdadeira história do Paraíso, de Millôr Fernandes

26.09 – Vestido para morrer, de Donna Leon

21.09 – Averno, de Louise Glück

18.09 – Cultura e resistência, de Edward Said

12.09 – Travessuras da menina má, de Mario Vargas Llosa

08.09 – Como cozinhar um lobo, de MFK Fisher, por Giselda Gastaldi

05.09 – A possibilidade de uma ilha, de Michel Houellebecq

01.09 – Um amor anarquista, de Miguel Sanches Neto



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 11h38
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