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paisagens da crítica


a invenção de Morel

A invenção de Morel bem que merecia nova edição e tradução aqui no Brasil. No início de 2005 divulgou-se que em outubro sairia uma. Não saiu. Ficamos na espera.

 

O livro do argentino Adolfo Bioy Casares é de 1940 e a melhor edição brasileira, de 86, está esgotada há tempos. Mesmo em sebos, é raro encontrá-la.

 

Com uma nova edição, A invenção de Morel talvez fosse mais lida e melhor discutida. Afinal, grande parte dos comentários de leitores brasileiros (e quase não existe crítica brasileira sobre Bioy) resume-se à constatação de que a obra é um exemplo de literatura fantástica. Ou à repetição dos termos que Borges usa no famoso prólogo: “romance de engenho”, “aventura”, “tecnicamente perfeito”.

 

De fato, é um romance de engenho e de aventura e é tecnicamente perfeito. E pode até ser literatura fantástica. Mas falta destacar o diálogo com os romances policiais, texto oculto na trama, lentamente desvelada aos olhos do fugitivo que encontra na ilha sua salvação: pistas e razão articuladas, simultaneamente verdadeiras e falsas, reais e ilusórias.

 

Falta também notar a discussão sobre tecnologia que Bioy leva adiante em pleno cenário da Guerra Mundial. Morel - herdeiro de outro ilhéu, Moreau - é o inventor da fabulosa máquina que transforma pessoas em imagens. Acredita que tecnologia liberta e realiza os sonhos menos plausíveis. O narrador, anônimo, segue a trilha de Morel, mas sabe o que há de engano no mundo da tecnologia, seus limites e riscos. Mudam-se os tempos, muda-se a vontade, muda-se o ser, muda-se a esperança.

 

E falta tratar do suposto editor que assina as notas de rodapé. Leitor intermediário, interfere no texto, palpita, discorda do narrador, reforça a aura de verdade do relato, inicia uma história de leituras do relato que, depois, outros leitores (nós, por exemplo) seguirão.

 

Falta mais? Muito mais. Por exemplo, ver com mais calma os nomes dos personagens, a começar pela óbvia Faustine. Ou as múltiplas referências cifradas à América-coisa e à América-idéia (é ou não é um jogo de pistas e razão?). Ou notar o cuidadoso e instigante fechamento da narrativa, com a súplica final do narrador e com sua reivindicação de consciência, irônica e recheada de auto-comiseração, num tempo de absoluta inconsciência.

 

Todos esses temas estão na vasta fortuna crítica, sobretudo em espanhol, que o livro gerou. Mas não custa provocar esses debates por aqui.

 

Retraduzir e reeditar A invenção de Morel também será, como diria o narrador, um ato piedoso.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 23h12
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Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão são dois nomes, um casal. Foi uma dissertação de mestrado e virou um livro. O lugar e o tempo do casal vem no subtítulo: a experiência do Suplemento Literário do Diário de São Paulo, nos anos 40. Ou seja, o lugar do casal é, para a autora, Juliana Neves, um caderno literário tão importante quanto inúmeras vezes esquecido. O tempo, a década de 1940.

 

O Suplemento Literário circulou entre 1946 e 48 e foi contemporâneo da criação do Masp e do Mam, dos críticos de Clima e da chamada (talvez impropriamente) Geração 45. O Estado Novo tinha acabado e a Assembléia Constituinte, feito seu trabalho. O rádio estava em alta e a Guerra acabara. Os tempos, afinal, sugeriam mudanças.

 

O gordo dedo de Assis Chateaubriand, dono do Diário de São Paulo, criou o Suplemento e apontou Geraldo Ferraz como seu diretor. Patrícia Galvão, a Pagu, com quem Ferraz era casado havia seis anos, colaborou regularmente nos dois anos.

 

Normalmente, nas folhas da época, as discussões culturais apareciam dispersas. Geraldo Ferraz e Pagu, responsáveis de fato pelo projeto do Suplemento, as organizaram e definiram um espaço específico e organizado dentro de um jornal. Lugar de cultura, lugar de leituras.

 

Juliana Neves nota, com argúcia, que, além de definir o lugar periodístico da cultura, o casal enxergou o tempo e, num certo sentido, o construiu.

 

Afinal, em nossas histórias culturais, a década de 40 tende a ser subvalorizada. O contraste com a renovação efusiva das vanguardas dos anos 1920 nubla os 40. Outro contraste, agora com a turbulência política e cultural dos anos 60, tão (excessivamente?) incensados, também ajuda a diminuir a importância da década do Suplemento.

 

Mas onde estavam os (ex-)vanguardistas do Modernismo paulistano nessa época? E os críticos culturais, chato or not chatoboys? E como o esforço, inclusive antropofágico, avançou pelo século, vinte anos depois de sua formulação, para chegar às releituras da década de 1960?

 

No meio do caminho havia os anos 40, havia o Suplemento Literário. E a suposta obscuridade da década, lembra Juliana, na verdade foi o fio que permitiu a longevidade, com as devidas adequações, do projeto cultural e moderno brasileiro, já sem o viço, mas com mais maturidade.

 

Dois nomes que inventaram um lugar e inventaram um tempo. Um Suplemento que serviu para bem mais do que embrulhar peixe no dia seguinte. E permitiu, assim, que outros nomes, antes inventados, pudessem prosseguir em suas inovações.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 05h24
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o luar e a rainha

O luar e a rainha é o título de uma das muitas pequenas crônicas que Ivan Lessa reuniu em seu novo livro, com esse nome. Nela, Lessa não fala do luar lírico dos apaixonados, mas do protesto contra a monarquia que levou algumas pessoas a “to moon”: mostrar o bumbum desnudo à rainha.

 

Escritor profissional que quase não publica livros, Lessa destrincha o ato e percebe que o adulto (leia-se: possuidor de alguma rara maturidade) que lê os jornais hoje só pode se tornar cínico. Esperança política, nos nossos tempos bicudos, só podem ter os bebês, donos de outros bumbuns, mais róseos.

 

No Brasil de hoje, em vez de mostrar o luar aos poderosos, talvez as pessoas prefiram sapecar um par de bengaladas neles. Mas o sentido é o mesmo: o inevitável cinismo de quem vê que a saída nesse país, como aliás já se disse, está nos aeroportos.

 

E foi por um deles que Ivan Lessa saiu, uns trinta anos atrás, e nunca mais voltou, diz ele, nem para passar férias. O Brasil de suas crônicas, que publica no site (ou, como ele prefere, sítio) da BBC Brasil e seleciona nesse livro, é visto de longe. Com a agudeza devida e, claro, com cinismo. O mesmo, aliás, utilizado para ridicularizar pequenas manias dos ingleses.

 

Um fato é que temos poucos, pouquíssimos, bons escritores brasileiros (vivos). Outro fato é que menos ainda têm olho suficiente (e, não esqueçamos, todo bom olho tem passado) para enxergar e falar do país. Lessa tem.

 

E, por tê-lo, se tornou cínico. Melhor para o leitor, que pode rir (com angústia? constrangimento? Mas sem auto-piedade, por favor) ao percorrer as crônicas miúdas e sentir que, afinal de contas, apesar de nossos poderosos (que, diga-se, merecem bengaladas e luares), existe vida inteligente com passaporte brasileiro. E sua bandeira política é o cinismo.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 09h14
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Berenice procura é o sexto romance policial de Luiz Alfredo Garcia-Roza. As matérias de divulgação publicadas em jornais e revistas têm destacado o fato de ser o primeiro sem o detetive Espinosa. Mas há mais coisa diferente, e nem toda diferença, no caso, é boa.

 

No lugar de Espinosa, a taxista-detetive Berenice é quem “procura”: fica incomodada com um crime que a polícia desconsidera, segue pessoas, identifica pistas, inventa lógicas, tenta decifrar.

 

À semelhança dos outros romances de Garcia-Roza, o Rio é o palco e sua topografia é descrita com minúcia e com o conhecimento a que só uma personagem taxista poderia obrigar. E aqui outra diferença: também os subterrâneos – galerias de esgoto e túneis abandonados do metrô – são lugares de ação e de investigação, são descritos detalhadamente.

 

O mundo em que Berenice procura, afinal, é o sub-mundo carioca: do travesti e do menino de rua mortos à vagabundagem jornalístico-policial do ex-marido de Berenice, à vida em caverna do sem-teto que fascina e atrai a taxista.

 

Outra coincidência com os cinco primeiros livros: a investigação e os crimes têm caráter acidental, mais do que anunciam uma razão estrita que os preside.

 

Mas todo o romance – personagens, trama, linguagem, estratégias narrativas, desfecho – sugere um artificialismo que não aparecia nas histórias de Espinosa. Ou talvez aparecesse, mas colaborava para que Garcia-Roza jogasse com as regras do policial e as subvertesse. Aqui não. As regras podem até ser subvertidas uma vez ou outra pelos caminhos arbitrários e inverossímeis, mas a sensação de artificialismo que acompanha a leitura não vem daí.

 

Vem da improbabilidade dos perfis dos personagens: a linda e atraente taxista e seus motivos insabidos para seguir a investigação, o sem-teto capaz de reflexões sobre comportamentos sociais de machões. Vem ainda dos clichês repetidos no texto (e, de novo, não é jogo com as regras do policial), das descrições exageradas de ambientes subterrâneos, em contraste com a elipse na única passagem sensual  do livro. Vem do cruzamento de situações e pessoas que nem o acaso de um lance de dados permitiria na realidade.

 

Mesmo o recurso de migração do narrador em terceira pessoa, que acompanha ora um, ora outro personagem, empregado com sucesso nos outros romances, soa artificial. Forma de manter unidade, sob a fragmentação narrativa, acaba como um espetáculo construído por um regente que ostenta a arquitetura narrativa. Tira, assim, do leitor o sabor da descoberta e revela, precocemente, a solução do enigma.

 

Tantas mudanças para pior não impedem que o sexto policial de Garcia-Roza, assim como os anteriores, tenha leitura fluida e rápida. Mas tira o gosto de ver o único bom autor brasileiro, vivo, de policiais em plena forma.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 14h58
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paisagens da crítica

Ante todo, el paisage nos lleva a la adquisición del punto de mira,

del campo óptico y del contorno.

Que la atención o una saetilla misteriosa se disparen sobre nosotros,

que la mirada suelte sus guerreros en defensa de su territorio,

y el contorno enarque sus empalizadas

frente a zonas indiferentes o gengiskanesca barbarie. (...)

Paisage es siempre diálogo.

José Lezama Lima



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 07h40
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