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paisagens da crítica


na linha do horizonte 3

Abaixo, em duas partes, o último comentário do ano.

Fala de um livro excelente:

Machado de Assis: um gênio brasileiro,

de Daniel Piza,

lançado na quarta-feira da semana passada.

 

Agora, férias até dia 12 de janeiro,

quando retomarei o ritmo de dois comentários semanais,

às terças e às sextas.

 

Obrigado por fecharmos 2005

com cerca de 1.400 acessos.

Bem mais do que esperava quando,

há um mês, pus o blog no ar.

 

Nesse período foram publicados dez textos:

27.12 – Machado de Assis: um gênio brasileiro, de Daniel Piza (em duas partes)

18.12 – “Haroldo francês”, por Leda Tenório da Motta (em quatro partes)

15.12 – Hamlet romance: uma reescritura, de Marici Passini

13.12 – Calentura. Novela, de Teresa Cristófani Barreto

09.12 – A louca da casa, de Rosa Montero, por Percy da Silva

06.12 – Arquitetura do arco-íris, de Cíntia Moscovich

03.12 – A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares

02.12 – Geraldo Ferraz e Patricia Galvão, de Juliana Neves

01.12 – O luar e a rainha, de Ivan Lessa

30.11 – Berenice procura, de Luiz Alfredo Garcia Roza

 

Um maravilhoso 2006 a todos, com muitas leituras!



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 12h39
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Machado - parte 1

Machado de Assis: um gênio brasileiro muitas vezes se repete. E isso é bom. Porque a repetição, no caso, acontece pela recorrência de certos temas e questões na vida e na obra de Machado. Na biografia escrita por Daniel Piza aparecem, a todo momento, os problemas de saúde que Machado enfrentou, da epilepsia à úlcera na boca, da insônia à retinite. Também aparecem, sempre, as polêmicas em que se meteu. E sua intervenção em temas de seu tempo: a Guerra do Paraguai, o abolicionismo, as críticas a políticos.

 

A edição é extremamente bem cuidada e reúne maravilhosa iconografia, para nos lembrar que uma pesquisa não se resume ao que vem escrito. O texto é limpo e de leitura ágil. Segue, discretamente, a variação de estilo da obra de Machado: no início é marcado por períodos mais longos, depois privilegia breves digressões e acentua a ironia. Biógrafo que repete o tom do biografado. E repetição, não custa lembrar, não é igualdade, não padece do pesadelo mimético; recria, refaz, ressitua. Identifica o sentido histórico e a pertinência de Machado para quem vive um século depois.

 

Aliás, a atualidade de Machado surpreende mesmo em questões prosaicas. Diante de uma resposta vaga e evasiva, dada por um político a uma acusação de desvio de verbas, Machado se irrita: “Em que país estamos? Que país é este? Pois um funcionário público, elevado às primeiras posições – não para satisfação da vaidade, mas para servir ao país -, responde daquele modo a uma intimação tão grave”. Parece hoje, mas foi em 1864.

 

Também segue viva a proposta machadiana, lançada 40 anos antes do Modernismo paulistano, de tratar do universal por meio de questões locais: cantou a aldeia do Rio para ser universal e enxergar, por exemplo, as contradições humanas num Simão Bacamarte, no pai de Janjão – da “Teoria do medalhão” –, no pragmatismo comezinho de Brás Cubas ou nos remédios milagrosos, para o físico e para a moral, que aparecem regularmente em Machado. Mais uma  repetição: a ironia machadiana frente ao clássico salvacionismo brasileiro e sua disposição de reformar o mundo ou evitar pequenos incômodos com emplastos e correlatos, com saídas políticas milagrosas. De novo, a atualidade de sua obra.

 

Afial, o “gênio brasileiro Machado, apesar das acusações que lhe foram feitas (por Mário de Andrade, por exemplo), não ignorava o tempo que vivia e em que vivia. Não se cegava, a despeito da retinite, diante dos temas urgentes. Não construiu uma obra à revelia da história que o precedia e cercava. Mesmo quando – viúvo, solitário e triste – preferiu se fechar em casa. Ou quando, quase sem enxergar e com sérias dificuldades para falar, via o mundo meio canhestro da recém-República e falava de suas incoerências e irresoluções políticas, ou do aparato cênico que Pereira Passos instaurou no Rio da Regeneração.

 

É isso que Daniel Piza nos mostra ao biografar esse Machado, que, por incrível que pareça, teve que esperar cem anos para ser conhecido pela maior parte das pessoas. Inclusive por aquelas que lêem seus livros. E que depois dessa biografia vão querer reler.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 12h30
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Machado - parte 2

Machado de Assis: um gênio brasileiro apresenta o escritor aos leitores. Mas o mais interessante do livro é conseguir captar a historicidade de sua obra.

 

É uma biografia e, como se sabe, biografias devem articular vida e obra. No entanto, o Brasil não tem, até hoje, uma tradição de biografar seus grandes nomes à altura deles. Pior: a historiografia brasileira nunca valorizou o gênero biográfico, depreciando-o em relação às grandes interpretações sistêmicas. O resultado é que a maioria das boas biografias, sobretudo nas últimas três décadas, saiu da pena de jornalistas: o Garrincha e a Carmen Miranda de Ruy Castro, a Olga e o Chatô de Fernando Morais, para ficarmos nos exemplos mais conhecidos.

 

Historiadores, claro, tendem a virar o nariz: acusam a falta de rigor e a escassez de referências às fontes. Mas são essas biografias, independentemente de suas fragilidades, que nos permitem enxergar as tensões e o contexto amplo – cultural, comportamental, sobretudo – com que esses personagens dialogaram.

 

Daniel Piza faz exatamente isso, mas sua tarefa é mais difícil. Precisa interpretar a história e a literatura, narrativas aparentados mas distintos. Por isso, procura diálogos e percebe que nem sempre eles são harmoniosos. O que revela o sucesso da biografia é que, em seu livro, a vida e o tempo de Machado não “saem da obra”, como recentemente um historiador pretendeu mostrar. A vida, o tempo e a obra de Machado, para Daniel, se cruzam e se auto-referem ininterruptamente, mas o movimento, por ser complexo, não é fácil de ser apreendido. Logo no início, o autor observa que “[Machado] não raro fala de um por meio dos outros, (...) usa o não-dito para sugerir os comportamentos”. Duas páginas depois, reitera: “o momento histórico reaparece, da maneira oblíqua que caracteriza a prosa de Machado”.

 

É nas suas ruminações, lembradas na epígrafe da biografia, que Machado apresenta seu tempo e seu lugar nele. E tudo está lá, no “teatro de sua época”: o ambiente da Corte e o cenário intelectual da segunda metade do XIX, a recorrência temática nas crônicas, na contística, no epistolário e nos romances, o diálogo entre as representações iconográficas da época e as que saem dos escritos de Machado.

 

Diálogos oblíqüos, não-ditos, contaminações. Essa, afinal, é a forma como a história e a literatura se aproximam. O que produz a liga entre elas, já lembrou Sérgio Buarque, é a atitude crítica, compromisso primeiro e definitivo de quem estuda história. Por isso, ao falar de Machado, Daniel traz questões conceituais e teóricas da história. Ao recusar, por exemplo, a idéia – tantas vezes repetida – de que Memórias Póstumas de Brás Cubas represente uma virada súbita na obra de Machado. A biografia sustenta, em seu exercício crítico – simultaneamente histórico e literário –, que as propostas reveladas em Memórias Póstumas foram se construindo de forma lenta e subterrânea, manifestaram-se tenuemente num conto, numa crônica, na passagem de um romance e no livro de 1881 ganharam a cena principal.

 

Assim se define a historicidade de um livro e de um projeto estético e intelectual. Assim é possível enxergar Machado no seu tempo e o tempo de Machado em seus textos. E, o melhor de tudo, é possível perceber que a História, do mesmo jeito que a história do defunto autor, é “descontínua, mas não desconexa; fragmentária, mas não fraudulenta”.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 12h29
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