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paisagens da crítica


Quando nosso boteco fecha as portas é uma bela porcaria. No bom sentido, claro. Do começo ao fim, tem tudo o que se espera de um policial: ambientes sórdidos, homens bêbados, dois mistérios cruzados, uma incrível alçada de engenho do detetive (que não explica muito bem como conseguiu chegar lá), boas pitadas de violência, meia dúzia de mortos. Sejamos claros: clichês.

 

Lawrence Block, o autor, aos sessenta e oito anos, já ganhou todos os prêmios possíveis do gênero. Seus livros dividem-se basicamente entre as aventuras de dois detetives: Bernie Rhodenbarr e Matt Scudder. Rhodenbarr é, na verdade, um ladrão sofisticado que, quase sempre, tem que investigar para que não achem que o culpado é ele. Enquanto investiga, rouba uma coisinha aqui, outra ali. Scudder foi policial e, depois de matar acidentalmente uma garotinha, saiu da polícia, abandonou a família e passou a fazer investigações informais para ajudar os amigos que, em troca, lhe pagam; regularmente bêbado, entrou para os AA e hoje só bebe água ou sucos.

 

As histórias de Rhodenbarr retomam o clássico modelo do policial inglês, com muito humor e sagacidade: é o detetive que pensa mais do que age, que planeja, nota os detalhes e enxerga o que os outros não conseguem ver. As tramas de Scudder flertam com o modelo americano: ambientes obscuros e sujos, bastante ação, cenas violentas, heróis amorais, sordidez em doses cavalares.

 

Uma vez ou outra Block ousa mais. Logo depois do atentado ao World Trade Center, escreveu Cidade pequena, uma história policial-erótica, em que os personagens tentavam reencontrar o rumo depois que o mundo, metaforizado num par de torres, caiu. Ambicioso, interessante, mas, fora as safadezas, com os mesmo clichês que usa nas histórias de Rhodenbarr ou de Scudder.

 

Quando nosso boteco fecha as portas é uma aventura de Scudder. Ou seja, a barra pesa. A edição original, de 1985, conta uma história passada dez anos antes e revela detalhes do passado de Scudder: como percebeu o alcoolismo, como se afastou da família, por que botecos passou antes que fechassem as portas. O mistério tem duas faces: a de um roubo num bar ilegal, tocado por irlandeses que recolhem dinheiro para o IRA, e a de uma extorsão ao dono de outro bar. De copo em copo desde que acorda, Scudder circula por Nova York e pinça informações que, para o leitor, são esparsas e sem significado plausível. Nosso papel, afinal, é o de Watson, não o de Holmes. Somos a cavalgadura útil que acompanha o gênio privilegiado.

 

Apesar de nada do que é dito significar qualquer coisa para nós, é fácil, na leitura, prever o final. E ele chega, previsível como um desfile de escola de samba. Tudo vai para o lugar quando Scudder faz o relato final e desencadeia nova onda de violência e de revelações porque – isso também é clichê – depois da surpresa vem outra surpresa (e essa é mais previsível ainda), para pegar o leitor no contrapé.

 

Clichê, repetições, previsibilidade. Por isso, é uma porcaria. Mas bela, pela competência com que é armada. De resto, não é fácil manejar todos esses clichês por mais que eles ecoem obviedade. É preciso saber encaixar no modelo os personagens novos, inventar passados e projetar futuro para alguns deles, localizar espacialmente, com longas descrições, o chão físico que eles pisam, conciliar tramas e tempos. E nisso Block é mestre (aliás, é grão-mestre, título que recebeu da Associação de Escritores de Mistério da América).

 

A tensão e o relaxamento se alternam e a trama flui com incrível facilidade. Os personagens vão com você para o banho, para a cama, para a rua, ao volante do carro. Alguns dias depois você esquece deles e dali a poucas semanas mistura a história desse livro com as de outros. Mas naqueles momentos em que você está com o livro, ele o envolve totalmente. Daí fica a questão: vale a pena ler um bela porcaria? Quando é bem escrita, você tem tempo livre e vontade de admirar o trabalho de narrar, vale. É por isso que, assim que sair o próximo livro de Block, vou comprá-lo e lê-lo. E até escrevo um comentário aqui no blog, dizendo que é outra bela porcaria.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 00h09
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Memória de minhas putas tristes é um livro de Gabriel García Márquez. Isso já diz muita coisa.

 

Diz, por exemplo, que é um romance muito bem escrito, cujos personagens, sempre singulares, são construídos e apresentados com extremo cuidado. Diz também que encontraremos uma discussão sobre a especificidade da experiência cultural colombiana ou, mais amplamente, latino-americana. Ou que a trama, os ambientes e as relações pessoais e sociais são narradas com ritmo firme e são articuladas com a facilidade que só os grandes autores conseguem aparentar.

 

Sabemos de tudo isso porque conhecemos o autor por seus outros livros. E todos conhecem. Prova é a tiragem fabulosa, na casa dos milhões de exemplares, que o livro teve em seu lançamento, em 2004. Ou o fato de que, antes de chegar às livrarias, era possível encontrá-lo em barracas de camelôs, em Bogotá ou Medellín, em cópias piratas.

 

Exatamente por sabermos de tudo isso é que o livro decepciona. Porque, ao lê-lo, encontramos tudo que esperávamos encontrar. Nem mais, nem menos. E do jeito que imaginávamos: o nonagenário narrador ecoa outros velhos personagens de García Márquez; o cenário nos faz pensar em tantos que já freqüentamos nas leituras anteriores. A trama nos é bastante familiar, se lembrarmos de outras que ele já escreveu. Tudo revela a regularidade do autor ou, se quisermos abrir mão de eufemismos e falar às claras, sua repetição.

 

Ou seja, é quase (quase, bem entendido?) um livro dispensável, o que não tira absolutamente nenhum de seus méritos literários. Se um de nós escrevesse um livro como este, de técnica tão precisa, passaria o resto da vida deitado nos louros. Mas García Márquez já escreveu dois livros impressionantes: Cem anos de solidão e O amor nos tempos do cólera. E isso nos permite esperar mais, muito mais.

 

Faz algum tempo que ele se tornou o bode expiatório de parte das novas gerações literárias latino-americanas. Criticá-lo virou uma prática comezinha, que sempre rende espaço na mídia: Efraim Medina Reyes e Alberto Fuguet sabem disso. Afinal, o realismo mágico esgotou-se junto com os sonhos de uma geração de revolucionários latino-americanos, nos estertores dos anos 1960.

 

Diferentemente de seus diluidores, o próprio García Márquez percebeu e, há muito, não faz nenhum personagem explodir vítima de um esconjuro. Renovou-se, mostrando que a maior parte das críticas é equivocada e oportunista (como já afirmaram dois dos melhores escritores das novas gerações: Jorge Volpi e Ignacio Padilla), mas sem voltar à força que duas vezes alcançou e longe da qualidade mesmo de romances como O general em seu labirinto. Nesse ponto, foi ultrapassado, de longe, por seu ex-amigo e hoje desafeto político, Mario Vargas Llosa, que escreve com uma qualidade extrema e regular.

 

Significa, então, que não devemos perder tempo com seu mais recente romance? Claro que não. Temos que ler e, passado algum tempo, reler (como fiz antes de escrever esse comentário, para ver se mudava a impressão deixada pela leitura; não mudou). Porque poucos escrevem como ele, ainda que nem ele mais escreva como ele. Talvez por isso a divulgação (oficial ou não) do livro tenha destacado seus aspectos polêmicos (nesses tempos de estultices politicamente corretas, falou-se até em estímulo à pedofilia!), e não seu desenvolvimento literário.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 20h59
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