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paisagens da crítica


Sob o sol da Toscana, de Frances Mayes

por Giselda Gastaldi

 

Já que o assunto andou pairando pela gastronomia, pensei em indicar um livro adorável: Sob o sol da Toscana, de Frances Mayes, que é crítica gastronômica e professora de Redação Criativa em São Francisco, Califórnia. Não considerem o filme, levemente inspirado no livro, mas tremendamente açucarado.

 

Bom mesmo é mergulhar na leitura e apreciar a viagem de Frances à Toscana, partilhar de sua paixão pelo “paese” (como dizem os italianos) a ponto de comprar uma casa antiga e reformá-la durante alguns anos.

 

Dotada de extremo bom senso e, ao mesmo tempo, de grande sensibilidade, ela descreve todos os percalços da reforma, dadas as peculiaridades dos trabalhadores italianos, o pouco tempo de que dispõe para administrar a obra e a distância dos Estados Unidos.

 

O respeito que demonstra aos costumes locais e ao palazzo para recuperar suas características originais é encantador. Mais encantadora e deliciosa ainda é a maneira como descreve a riqueza de cores e sabores do verão toscano.

 

Que vontade dá de provar os legumes e frutas da estação, com direito inclusive a receitas. Que inveja dá de percorrer a região de Montalcino em busca do melhor brunello de mesa ou achar quem prense suas olivas e depois ter seu próprio azeite! Não deve ser demais?

 

O fato é que é boa literatura. Acima de tudo, Frances Mayes é boa escritora ou não passaria tantas emoções e sensações.

 

E o livro é muito agradável: leitura deliciosa e, se me permitem, gustativa...



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 07h31
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Ninguém me verá chorar nos leva ao poço, bem fundo. É a história da procura da mulher amada, ex-prostituta e louca, no México das primeiras décadas do XX. Quem procura é um fotógrafo, Joaquín; a procurada é Matilda Burgos e a autora do livro, Cristina Rivera Garza.

 

Joaquín é um fotógrafo da morte ou, pior, de situações extremas, da degradação humana: assassinos de olhos devastados, alienados, bêbados em delirium tremens. O cenário é especialmente adequado: o México da revolução de 1910. Joaquín vive solitário, à deriva. Procura outras cartografias que substituam a que o país perdia e não conseguia restaurar.

 

No rosto de uma interna do sanatório, Joaquín enxerga uma mulher que amou. E passa a investigar seu passado, desenhar sua história. Descobre, aos poucos, que Matilda cruzou o México até perder-se de todos e de si mesma. Até viver, também ela, à deriva. Num país que, além de celebrar a morte, colecionava mortes, Matilda gira – Joaquín atrás – em meio à violência extrema e à absoluta falta de rumo. É o México da Revolução que, diria Octavio Paz, a todos envolve em sua embriagante festa de morte, na busca de um passado e de um futuro, ambos ideais e relativos, a que ninguém chega e que a todos devasta.

 

Cristina Rivera Garza sabe do que fala. Antes do romance, escreveu um doutorado sobre o universo das ruas e as instituições de controle social no México, do porfiriato à década de 1930. Ou seja, do pré ao pós revolução; do informal ao institucional. Entre os itinerários difusos que pesquisou, estava o de Matilda Burgos e daí partiu a ficção. O resultado é que a construção do mundo em que a história se desenrola é precisa. Ou seja, não é apenas um romance na revolução, é também – e principalmente – um romance da revolução.

 

Não é o primeiro, tampouco o melhor (no caso, não deve haver dúvidas: o melhor é A morte de Artêmio Cruz, de Carlos Fuentes). Mas é excelente e não tem os compromissos com o engajamento presente que o livro de Fuentes teve. Em Ninguém me verá chorar, a cartografia do passado é construída por um narrador em terceira pessoa, onisciente, mas que mantém cuidadosa distãncia dos personagens e é regularmente substituído pela documentação que Joaquín encontra e transcreve. Uma vontade de objetividade no lugar do vigor subjetivo e datado de Fuentes.

 

Nem o excesso de adjetivos, nem a aparição aqui e ali de alguma metáfora desnecessária e baldia tiram o rumo do romance. O leitor se envolve com Joaquín e Matilda e os segue até perceber sua condição simbólica. Aliás, o excesso ostensivo de adjetivos – e também de advérbios – desloca a narrativa para uma zona de indeterminação, lá onde circulam os mexicanos da revolução.

 

E a cartografia resulta imprecisa, mas intensa. Cartografia da morte e do amor, que nos faz pensar no conhecido comentário que Borges fez dos velórios: que lá as pessoas não vêem o morto, mas a morte. Ninguém me verá chorar nos leva ao poço bem fundo – o do humano – porque olha para a amada e para os mortos com a intenção clara de nos mostrar a incômoda semelhança entre as anatomias abstratas do amor e da morte.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 20h26
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