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paisagens da crítica


La pensione Eva não trata, ao contrário do que o nome sugere, de uma pensão. A dúvida, aliás, também apareceu na cabeça do protagonista, Nenè, que aos oito anos se perguntou que pensão era aquela, onde ninguém entrava e de onde ninguém saía à luz do dia.

 

Também La pensione Eva não foi traduzido no Brasil e provavelmente demorará para que seja. É, aliás de novo, o primeiro livro comentado nesse blog que não foi editado no Brasil. A explicação dos dois aliás é que La pensione Eva é o novo livro de Andrea Camilleri, publicado no mês passado na Itália, e basta.

 

Camilleri já é suficientemente conhecido no Brasil, principalmente pelas histórias do comissário Salvo Montalbano, que com seu estilo bastante peculiar investiga mistérios de Vigatà, cidade imaginária da Sicília verdadeira de Camilleri. Dos nove romances de Montalbano já publicados, sete foram traduzidos no Brasil.

 

E ainda que os romances históricos de Camilleri – situados predominantemente no final do XIX – tenham recebido poucas traduções por aqui, o leitor brasileiro reconhece esse “outro lado” da obra do escritor siciliano que, depois de fazer uma sólida carreira no teatro – como autor e diretor –, estreou na literatura com quase sessenta anos e se tornou o maior fenômeno de vendagem da Itália. O que para muito parece uma contradição entre termos – a idéia de um best-seller de qualidade – se realiza em Camilleri.

 

Mas La pensione Eva não é nem história de Montalbano, nem romance histórico. Passa-se durante o fascismo, à semelhança de seus dois mais recentes romances, é verdade, e o contexto, como destaca o autor na nota final, é real. Mas isso importa bem menos do que a história narrada: a vida de Nenè dos oito aos dezoito anos, um protagonista pintado com cores parcialmente autobiográficas. Camilleri alerta, porém, também na nota, para que não se tome o livro como uma autobiografia, apesar das semelhanças, inclusive do apelido (seu quando criança) colocado no protagonista. E ainda ressalta, sempre na mesma nota, que sabe que o livro é peculiar dada a diferença em relação ao resto do que escreveu. É, diz ele, “um descanso narrativo, que resolvi tirar na iminência dos oitenta anos”, completados em 2005.

 

continua...



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 08h08
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continuação...

 

Junto com a história de Nenè, transcorre a da Pensione Eva, um lupanar ou, no siciliano particular que Camilleri usa nos livros e que sugere o falar siciliano, um burdellu. Burdellu que Nenè a princípio não compreende, depois o fascina e, finalmente, lhe é acessível pelo engenho de um amigo que consegue driblar a proibição de freqüentá-lo antes dos dezoito e oferece o mesmo privilégio a dois colegas, um deles Nenè. E é claro que se o livro cruza uma trajetória pessoal - da infância à vida adulta - com a de um bordel, o que se busca é mostrar a iniciação sexual de Nenè, com todos os medos, fascínios e êxtases possíveis. Tudo agravado pelo fato de que sua infância se passa sob o fascismo e a juventude, durante a guerra. Guerra, lembremos, que devastou a Sicília.

 

Nenè descobre o sexo pelo quase alumbramento na porta da pensão, pelas brincadeiras com a prima Angela, pelo apetite de uma viúva e finalmente pelo beijo pouco profissional de uma prostituta, numa das duas únicas ocasiões em que a pensão foi, para ele, lugar de sexo. Porque na maioria das vezes, suas idas semanais permitiam que outro mundo, não tão erótico, se revelasse. Era o mundo de verdade, que extravasava os limites de Vigatà e era contado nas histórias das prostitutas. Verdade que havia uma outra fonte de acesso ao mundo, a que vinha nos barulhos dos aviões e dos bombardeios americanos e ingleses, mas essa era pior, mais trágica e provocaria o fim de tudo: aprendizado, pensão, esperança, juventude. Melhor ficar com os relatos de milagres havidos nas camas e ao seu redor. Melhor ouvir a voz das prostitutas embargada pelo vinho e, antropologicamente, perceber a diversidade da vida e dos eus que chegavam e saíam da Pensione Eva.

 

Por isso, a iniciação de Nenè não foi só sexual, mas simultaneamente literária e genericamente cultural. Tanto que, na hora que arranja uma namorada, o sexo se torna só uma rotina, o desvendamento do mundo escapa ao universo íntimo e lança Nenè na guerra e numa vida que precisaria, em breve, ser reconstruída.

 

A água da Sicília e talvez os peixes fazem seus habitantes escreverem bem, muito bem. Camilleri é mais um exemplo na terra de Vittorini, Verga, Sciascia, Pirandello, Lampedusa, Brancati, Consolo e tantos outros. Escritores que falam da ilha, de sua formação e estrutura desigual, de seus males (pensemos na Máfia...) e dialetos, de suas temperaturas e ruínas, de seu sol a pino e de suas tradições, do culto a San Calògero (que, por sinal, aparece pelado na pensione) e da incomum comunicação pelo olhar.

 

No despretensioso La pensione Eva, Camilleri fala de tudo isso, como de hábito. Mas fala também, e sobretudo, da vida que quer nascer e renascer, mesmo quando tudo está contra ela. Fala com humor e uma pitada de incômodo diante passado regional. Tudo bem siciliano, e basta.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 08h08
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Georges Perec e sua Lógica do Não-Todo

 

por Rodrigo Ferraz de Camargo

 

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman em um livro recente, Modernidade Líquida (Jorge Zahar, 2001), anuncia que nessa modernidade fluida em que entramos e nos encontramos é preciso abandonar qualquer esperança de totalidade, tanto futura como passada, afinal, “o que foi separado não pode ser colado novamente”. Há, portanto, o Real que nos interroga, mais do que nós o interrogamos, pois, conforme Paul Valéry, a interrupção, a incoerência e a surpresa passaram a ser as condições comuns de nossa vida.

 

Ainda segundo Bauman, teria havido, anteriormente a esta modernidade fluida, uma modernidade sólida e pesada, uma “época de moldar a realidade como na arquitetura ou na jardinagem”. Era “a realidade adequada aos veredictos da razão, deveria ser ‘construída’ sob estrito controle de qualidade e conforme rígidas regras de procedimento”. E, nessa sua pesada solidez, a realidade foi projetada antes de sua própria construção, na qual pranchetas, mapas, gráficos e tabelas projetaram e ergueram, por decreto, o território social “até o nível de lucidez e lógica” de que só eles são capazes.

 

Enfim, de dentro daquela modernidade pesada “a escolha se dava, em outras palavras, entre a verdade fadada à impotência e a potência fadada a ser infiel à verdade”. Era uma época em que se impôs a razão à realidade. De fato, segundo ele, “uma questão de vida ou morte”.

 

O escritor francês Georges Perec, referência quente nessa temperatura dos tempos modernos, talvez nessa incandescente passagem de uma modernidade sólida e pesada para uma modernidade líqüida e fluida, escrevia e finalizava em alto grau, no ano de 1978, um romance que fazia história: A Vida Modo de Usar (Companhia das Letras, 1991).

 

A Vida Modo de Usar traça diversas narrativas não-lineares, em que os intervalos de leitura são seccionados pela passagem dos capítulos amarrados um ao outro através de um trajeto arquitetonicamente elaborado e esquecido. Não se pensa aqui simplesmente em um romance. O livro gira em torno de alguns segundos que se passam num edifício imaginário em Paris, no dia 23 de junho de 1975, por volta das oito horas da noite. São janelas vazias que se preenchem, indo de cômodo em cômodo, apartamento em apartamento, atravessando todo um tabuleiro de opções narrativas. Cada capítulo é escrito de um modo. Cada lugar tem o nome de um morador. Cada morador tem a sua história. Temas vão se sucedendo, histórias vão se entrelaçando, descrições vão esgotando aquele típico lugar parisiense.

 

continua...



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 15h23
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continuação...

 

Foi preciso que Perec mostrasse seus planos, exibisse seus truques de linguagem, publicasse parte de seus manuscritos, apresentando, por exemplo, no final de seu livro a planta do edifício, além de índices remissivos, uma cronologia dos fatos e acontecimentos, para que o leitor pudesse perceber que não se tratava apenas de histórias paralelas, mas, ao contrário, enodadas minuciosamente numa rede de contraintes e protocolos de procedimento.

 

São textos que exibem imagens e enfrentam a estranha passagem imposta ao olhar pelos cômodos daquele peculiar prédio situado na rua Simon-Crubeiller, n.º 11. Não somente cada capítulo implica um novo itinerário de leitura, mas toda a progressão da leitura significa correr o risco de mudar o trajeto, perder o ponto de partida e um redirecionamento do olhar que segue os caminhos de leitura preparados na obra. O avanço por um percurso previamente selecionado desvia-se de um caminho tradicional disposto em torno de um centro fixo; afinal, há em cada capítulo um centro que muda sempre, numa instabilidade perpétua.

 

Os infinitos romances contidos em A Vida Modo de Usar funcionam como nódulos numa rede finita de histórias. Trata-se de um jogo de enigmas giratórios, uma máquina de escrita combinatória inventada por Perec e seus camaradas, poetas e matemáticos do OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentiel), uma espécie de canteiro de obras de literatura potencial.

 

Escrito entre 1969 e 1978, não se pode pensar o lugar desse livro na história da literatura sem pensarmos numa determinada leitura de mundo e no horizonte imaginário de uma época. E uma certa descostura é necessária. O desnodamento de uma certa modernidade rompeu os últimos fios que a mantinha compacta e sólida. Nesse hiper-romance que é A Vida Modo de Usar somos colocados diante de uma nova e original perspectiva acerca de um assujeitamento mundano.

 

Em A Vida Modo de Usar não há propriamente um “sujeito”, ele está fora da cena, desrealizado, há um não acontecido. No entanto, quando se toma parte numa das inúmeras remessas descontínuas de sentido é que a história “ganha” alguma realidade e se compõe de alguma fisionomia. Num só lugar, num só dia, em um instante, um só fato acontecido manteve até o fim toda uma cena plena, agora aberta para um não-todo, onde a última peça não se encaixará. Mas que veremos só-depois: après-coup.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 15h22
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