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paisagens da crítica


La vampa d’agosto é tórrida. Pode traduzir vampa por chama ou por calor, mas ela se mantém tórrida no verão siciliano em que se passa o novo romance de Andrea Camilleri, o décimo que tem o comissário Salvo Montalbano como protagonista.

 

Montalbano apareceu pela primeira vez em 1994, em A forma da água. O sucesso foi instantâneo. Outros livros se seguiram; além dos romances, contos e novelas. Vieram os filmes, feitos para a TV, mas em película e com raro cuidado plástico e de roteiro. Chegaram também videogames e guias para entender o mundo de Montalbano. E, claro, os trabalhos acadêmicos que tentavam entender os motivos de tamanho sucesso.

 

Suas histórias se passam em Vigàta, cidade imaginária que se parece bastante com Agrigento, no sul da Sicília, região onde Camilleri nasceu. Montalbano reproduz várias marcas dos detetives clássicos: absoluta honradez, temperamento forte, olho tão perspicaz quanto a razão. E os policiais de Camilleri também assumem características regulares do gênero: busca de pistas e despistes, impasses investigativos, solução imprevista. Trazem ainda a evidente influência do também siciliano Leonardo Sciascia com seu desconsolo em relação à Justiça e a razoável – e racional – desconfiança no aparato de Estado.

 

De Sciascia – e da vasta tradição literária siciliana – Camilleri empresta a disposição de indagar sobre a identidade siciliana e de investigar os desvãos históricos que fizeram a Sicília perder sua autonomia diante da vitória do projeto que unificou a Itália, no final do XIX. Da mesma tradição (mas, agora, não de Sciascia), Camilleri retoma o dialeto siciliano e as marcas da oralidade que passam a pontuar seu texto que se transforma numa língua híbrida e peculiar, como peculiar é a Sicília, com seus peixes e pedras, seus gestos e olhares.

continua...



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 09h57
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continuação...

Os dez romances de Montalbano (deixemos os textos curtos para outro comentário...) são seqüenciais: acompanham casos variados do comissário e seu quotidiano, suas pequenas manias e seu envelhecimento. Aliás, a partir do sexto (e talvez o mais fraco) romance – O cheiro da noite, de 2001 –, Montalbano começa a se ressentir da idade que chega e não pára mais de afligir-se, num movimento que ocupa boa parte das páginas dos três romances subseqüentes, até o nono. A centralidade da preocupação (que, para alguns, é inevitável num autor – Camilleri – que completou 80 anos em 2005) desloca parcialmente o foco das histórias, dando-lhes uma aparente vocação psicologizante que não aparecia nos primeiros cinco romances. Para realizar a guinada psicológica, nesses quatro livros (do sexto ao nono) as tramas policiais são intencionalmente fragilizadas e a narrativa se concentra no personagem, cada vez mais esmiuçado, cada vez mais contraditório e angustiado. Claro que a Itália de 2001 a 2006 – de Berlusconi – ofereceu bastantes razões para o desconsolo e em várias ocasiões o personagem aponta os desatinos do presente como motivo do incômodo que sente: preconceitos contra imigrantes, prevalecimento da corrupção, justiça traída (para usar um termo de Sciascia).

 

Infelizmente eles não mantiveram o nível literário dos cinco primeiros e o leitor regular temeu que o personagem estivesse se esgotando ou que Camilleri tivesse optado por uma saída mais confortável, a de simplificar as narrativas. O temor era ainda maior diante da promessa de Camilleri de que o personagem duraria dez romances. Faltaria só um. E (talvez graças a San Calógero, padroeiro da Sicília) agora temos três boas notícias: haverá mais dois romances. Em outubro de 2006, será publicado o décimo-primeiro, Il campo del vasaio (O campo do oleiro), e em 2007 o décimo-segundo (e supostamente último), Riccardino. Ambos já foram entregues à editora, afastando um fantasma que assombrava Camilleri, o de morrer sem definir o destino de seu personagem.

 

A melhor notícia, porém, é a terceira, que não vem da imprensa, mas da leitura. La vampa d’agosto é ótimo, retomando o vigor literário dos primeiros e se comparando ao melhor deles, A voz do violino (número quatro). A comparação, por sinal, é inevitável ao vermos Montalbano novamente atraído por uma mulher que abala sua fidelidade à Livia, namorada genovesa de tantos anos. Mas mais inevitável quando vemos a maneira como Camilleri articula passado e presente, reflete sobre os sentidos e a história do romance policial e identifica a narrativa como o lugar em que pistas e razão podem se encontrar. Mais: Camilleri relembra seus vínculos com o teatro pela insistência das dramatizações em que insere os personagens, resgata a imperfeição do policial como gênero e como experiência vivida e politiza a discussão dos tempos difíceis sem carregar excessivamente nas tintas. E ainda leva a humanização do personagem ao extremo, expondo de forma crua e quase agressiva seus erros e limites. Para arrematar recoloca o tempo do envelhecimento de maneira aparentemente óbvia e simples (a moça que tanto mexe com seus nervos tem pouco mais de vinte anos; ele, cinqüenta e cinco) para rapidamente transmutá-la num misto mais complexo de divagação e dilema existencial. Tudo num texto fluido, que leva à leitura quase ininterrupta e faz o leitor se envolver, como se estivesse diante de um folhetim, e passar a torcer por um desfecho ou outro. O final (que, não se preocupe, não será descrito aqui) só se compara novamente ao arremate seco e preciso de A voz do violino, mas com uma pungência que a serenidade do Montalbano de então não permitia.

Ou seja, sob o sol de agosto (que o faz suar terrivelmente) e ao calor de Adriana (a outra chama, para lembrar Octavio Paz), Montalbano prossegue vivo e tenso, e Camilleri continua provando que histórias policiais são espaços de boa literatura.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 09h56
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A rosa de Alexandria trata de muitas coisas, mas talvez sua maior preocupação seja dar uma lição, a de que o passado não volta e muito menos pode ser refeito, sobretudo quando se trata de uma história de amor. Portanto, leitor, se você se dispuser a ler este livro de Manuel Vázquez Montalbán e ainda mantiver alguma esperança de reencontrar sua paixão de vinte ou quarenta anos atrás e com ela (ou ele) viver o idílio com que sonhou nesse tempo, desista.

 

Por isso, o outro tema privilegiado do livro é a desesperança, o desconsolo. Tema, aliás, comum em Vázquez Montalbán e característica principal de Pepe Carvalho, detetive e protagonista do livro. São muitos os desconsolos que o livro traz, em seu itinerário que liga a ilha de Trinidad à Barcelona, na virada de 1983 para 84. É a história de um crime terrível. Encarnación (Encarna para os íntimos) é morta e seu corpo, despedaçado. Moça bem sucedida numa família de vidas mal sucedidas, Encarna se casara, vinte e tantos anos antes, com um jovem rico e fútil de Albacete e para lá fôra, para poucas vezes voltar à Águila, sua cidade natal. Tampouco sua família ficou em Águila: migrou para Barcelona em busca de melhores chances. As chances não vieram, mas eles ficaram por lá e são agora surpreendidos pelo assassinato de Encarna na própria capital catalã.

 

Carvalho é chamado a investigar e tenta achar os rastros de Encarna, de seu marido, de sua morte. Seus passos se revezam, na narrativa do livro, com as andanças de um marinheiro, Ginés, que primeiro se refugia em Trinidad para passar um reveillon medíocre e depois volta para o navio de onde fugira, o “Rosa de Alexandria”, que voltava para Barcelona. O livro transcorre nos dois cenários: as ramblas da cidade de Pepe Carvalho e o Atlântico, por onde o navio segue e a angústia de Ginés cresce em milhas náuticas. Sabe que tem que voltar, sonha com Encarna e se desespera silenciosamente.

 

No início do livro, Vázquez Montalbán privilegia longas descrições de lugares e faz digressões, em alguns casos absolutamente vazias e bem mais adjetivas e metafóricas que o comum em seus livros. Prepara – com o preço de desanimar o leitor – o desenvolvimento e desenlace pungentes e melancólicos. Porque, afinal de contas, a trama é simples. Encarna e Ginés foram adolescentes apaixonados um pelo outro. Mas a chance de subir na vida a fez se casar com o riquinho de Albacete, filho da família que mandava no lugar. E deixou Ginés, que nunca a esqueceu e a reencontrou casualmente, tanto tempo depois, numa das ramblas de Barcelona, iniciando aí o idílio que o tempo adiara. Mas, como já se falou no primeiro parágrafo desse comentário, a história não se refaz e os amores dificilmente podem ser guardados em conserva. Resta o desconsolo, porque a memória, como bem observa uma das personagens, é destrutível e a única lembrança consistente que temos é a dos que morreram.

 

Desconsolado em todos os sentidos, inclusive politicamente, é também Pepe Carvalho, que já foi comunista, já foi agente da CIA e hoje é um detetive que descrê de tudo e troca qualquer ilusão por um bom prato da cozinha espanhola, andaluza, catalã ou seja o que for. Republicano, porém cético, cínico e desleixado, Pepe sabe que há outro tipo de resíduo do passado: na Espanha democratizada, os personagens do franquismo ainda circulam, as famílias tradicionais (aliadas do franquismo) mantêm sua força, a despeito da inevitável derrocada, e, pior, surgiram novos personagens, como o lastimável “autodidata”, que contrata Carvalho em seu jogo de vaidade e auto-proteção. O autodidata chama-se explicitamente Narcís, versão catalã de quem se só admira a si mesmo, ainda que professe aqui e ali uma suposta vontade política. É um intelectual dos novos tempos: vulgar, oco e irônico. Ocupa o lugar que tantos intelectuais querem, na Catalunha ou no Brasil: o de observadores alheios e autônomos. Arrogante em sua suposição de superioridade, usa e despreza os outros. Autocentrado, supõe-se inatingível e prega idéias que, quando falidas, não o levam à autocrítica (se você, leitor, reconheceu algum intelectual local nesse perfil, saiba que não é mera coincidência). Esse é o país por onde circula Carvalho, é o país que Vázquez Montalbán retratou em seus romances policiais que, como já observou Ricardo Piglia, são o melhor sismógrafo da sociedade em que vivemos. Aliás, Vázquez Montalbán chega a dar nome a um dos intelectuais-bois a quem se refere, ao representá-lo de forma cáustica: Carlos Fuentes.

 

Mas a trama não se resume ao desconsolo do apaixonado Ginés ou ao cinismo de Pepe Carvalho. É a história que não oferece guarida: tanto a que se passou na Espanha quanto a do crime em questão. O verdadeiro culpado pelo esquartejamento jamais será punido ou conhecido (no caso, de ninguém mesmo: nem de Pepe). A melhor opção para todos os que sabem de algo é silenciar porque qualquer manifestação lhes causará problemas. Quem comanda, afinal, é ridículo e grotesco. Já a democracia espanhola não consegue extirpar o franquismo, sobretudo, nas palavras de Carvalho, o “franquismo que já havia antes de Franco”. Até a honradez de Ginés não é o que parece; é eivada de ingenuidade e estupidez. Resta o ceticismo, resta a denúncia corrosiva que Vázquez Montalbán faz de tudo e de todos. Resta a beleza da rosa de Alexandria que, diz o mito, é branca de dia e vermelha à noite, uma belle de jour às avessas e que caminha, como Encarna, para a morte.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 15h57
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