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paisagens da crítica


Fundos para dias de chuva é um longo título de um livro breve. Mas incisivo. As cinqüenta páginas revelam uma poesia densa, cuidadosa e espantosamente suave. Suave porque Annita Costa Malufe consegue conciliar o peso das palavras com a delicadeza do ritmo e da fluência de seus versos.

 

As epígrafes – de Edmond Jabès e de Ana Cristina Cesar – anunciam, de saída, uma concepção de poesia: algo que não é seco, que não é estranho nem externo ao poeta. Uma vontade de “fiar” o passado e o quotidiano sem a arrogância equívoca de explicá-los, mas com ânsia de refletir. Já na “Introdução” Annita se pergunta: “que história vou contar?” E talvez não responda diretamente, mas deixa pistas quando diz que segue “catando as horas/como quem rasga papéis antigos/como quem verte um copo de groselha/na toalha de linho branco da avó.” Um toque de prosaico, outro de metáfora tinta, um terceiro de passado latente: as histórias podem não ser contadas, mas estão ali, vibrantes, confundidas na neblina da memória: “Nos dias de chuva fina/cabe ficar desfiando lembranças opacas/dessas meio disformes”.

 

E há mais vibração na sua poesia. A da esperança, por exemplo, que não tem medo de se manifestar. Annita esclarece: “Preciso acreditar na minha casa,/ou o risco se torna maior”. Afinal, insiste, “prefiro solfejar/mesmo que o dia caia/antes do fim da música/prossigo senhora de meus interrogatórios/as luzes ainda apagadas/e vejo tornar-se rosa/o vitral da cozinha”. Logo depois, arremata: “Minha voz/é curta e seca/só dá forma ao necessário./Sei que é preciso seguir/antes que a mata me cubra/de negro/e as águas afoguem/de vez/a sede.” Não há ingenuidade na esperança, mas tampouco há o ceticismo fácil e vulgar de parte da poesia brasileira atual, que supõe que inconformismo se conjuga com negatividade.

 

Por isso, Annita prossegue em sua colagem de resíduos: “já vivo sem você/costuro cavalgo comungo/só não sei/como partir inteira/retomar pedaços/fatias/de um corpo que foi meu”. A voz fraturada percorre os fragmentos da memória – “bagagem densa/onde usamos guardar álbuns, souvenirs” –, percebe o incômodo do passado que insiste em irromper e interromper o presente, mas não perde a fluidez da dicção poética. Daí talvez venha a maior força da poesia de Annita: do contraste contínuo na intimidade. De um lado, a tensão que não cessa – como em Ana Cristina Cesar. Do outro, a ausência de tirania nesse universo íntimo; ele é sinônimo de acolhimento e de hábito, o que faz lembrar Drummond.

 

Ana C. e Drummond: duas das leituras que compõem a poética de Annita, poeta de muitas leituras e, sobretudo, de leituras bem feitas, daquelas que não estão no livro apenas para ostentar o repertório de quem escreve. São leituras que movem a poesia, que lhe permitem deslocar-se para dentro e para fora do eu-poeta, que animam o ritmo e que celebram o verso enquanto Annita “persegue este mistério” em seu primeiro e delicioso livro.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 18h35
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Uma semana de recesso.

A próxima publicação será no dia 20 de junho.

Até lá!

 



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 17h24
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