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paisagens da crítica


Farinha, feijão e carne-seca: um tripé culinário no Brasil colonial traz à cabeça do leitor uma montanha de metáforas culinárias. Para que este comentário não se torne redundante ou óbvio nas figurações de linguagem que emprega, prometo que só usarei uma das tantas metáforas sugeridas: a da boa receita.

 

E o que é, em linhas gerais, uma boa receita? É aquela que usa ingredientes de primeira, sabe combiná-los com precisão e rigor – dosando o tempo e a quantidade de cada um – e produz um resultado final em que se nota associadamente a parte e o todo: percebe-se o sabor individualizado de todos eles e o efeito que a combinação pôde produzir no paladar. Se quisermos variar o campo, comparemos com uma sinfonia, em que cada som e todos os sons se ouvem em sua particularidade e nas suas relações. Não por acaso já houve quem comparasse a constituição singular das culturas na América a uma sinfonia.

 

Paula Pinto e Silva, autora do livro, prefere, metafórica e metonimicamente, comparar a sociedade brasileira a uma receita, uma boa receita. Porque combina, desde o início, uma dupla e decisiva preocupação: conciliar teoria e pesquisa – ou pensamento abstrato e observação do específico – sem discernir fronteiras entre elas e sem estabelecer hierarquias que submetam uma à outra. Já o título – Farinha, feijão e carne-seca – alude a três elementos regulares na alimentação brasileira e o subtítulo – um tripé culinário no Brasil Colonial – repõe o clássico triângulo proposto por Lévi-Strauss para compreender a semântica da cozinha. No decorrer do livro e da pesquisa que o gerou Paula associa o concreto das panelas brasileiras ao amplo do pensamento antropológico, fundindo num único esforço intelectual antropologia e história da alimentação.

 

O tríptico de Lévi-Strauss é assim traduzido nos três alimentos: cru/farinha, cozido/feijão, podre/carne-seca. Mas não se trata, obviamente, de uma aproximação mecânica. Paula esclarece, fiel à boa execução da receita e coerente com o pensamento do antropólogo francês, que o modelo, que anteriormente nasceu de um prévio esforço etnológico, só pode ser completado e ressignificado para a história brasileira a partir de outra pesquisa etnológica, e ela a faz. Cada sociedade, afinal, se enxerga nos dados de sua formação e no processo que tornou esses dados interpretáveis e permitiu que eles expressassem um conjunto plural e polifônico de significados.

 

Daí a receita de Paula incluir o que ela própria descreve como um “flerte escancarado com a história”. E essa história do Brasil – dos tempos coloniais, que os viajantes caracterizaram, ao século XIX – injeta mobilidade no conhecimento antropológico que Paula produz e coloca em circulação, ao levar a cozinha para a biblioteca, transformando em livro o que era alimento, problematizando as muitas metáforas da mistura que representa, em sua peculiaridade e em sua tensão contínua, a formação cultural da sociedade brasileira.

 

Mais de uma vez, com a perspicácia intelectual e com o estilo cuidadoso do texto, Paula observa que a comida fala muito sobre o homem e sobre os rituais que permitem o movimento histórico. Na contramão do chavão que diz que “o homem é aquilo que ele come”, lembra que o homem se constitui através do que come. Ou seja, sua identidade – fugaz e sempre provisória, incerta e inevitavelmente histórica – representa e é representada pela alimentação, num incessante jogo de relações e de espelhamentos recíprocos.

 

Um outro latino-americano, o cubano José Lezama Lima, usou e abusou das metáforas gastronômicas para constatar que o americano se realiza no imenso banquete a que concorrem, entre outros, costelames aurorais de crustáceos e deliciosas perinhas postreiras. Ao ler o livro e a boa receita de Paula é inevitável que a memória nos traga Lezama e seu esforço, igualmente peculiar, de interpretar identidades instáveis e plurais. Mas, além da sempre feliz evocação de Lezama – e ainda que o tripé brasileiro seja, digamos, menos eloqüente –, vem a prazerosa constatação de que a academia, que tantas vezes é infértil e hermética, pode produzir pesquisas e textos legíveis que, sob aparente simplicidade, colocam os problemas centrais sobre os quais a intelectualidade brasileira reflete há quase duzentos anos.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 08h53
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O animal agonizante parece um diagnóstico ou um balanço de uma geração. Mas é um epitáfio.

 

A geração é aquela que rompeu regras e se libertou nos anos 1960. Quem redige o epitáfio – próprio e geracional – é David Kepesh, narrador e personagem principal deste livro e de outros de Philip Roth. Mais de trinta anos depois de O seio, romance em que apareceu, reencontramos Kepesh, agora com mais de 60 anos. Seus fascínios prosseguem os mesmos. E não por acaso são os seios de sua aluna Consuela – quase quarenta anos mais nova que ele – que lhe chamam a atenção no princípio do livro. Seios que, cento e vinte páginas depois, são o foco da doença que pode matá-la.

 

Kepesh está velho. Pior: sente-se e sabe-se velho porque, explica, percebe que continua vivo. Mas a velhice não lhe tirou o hábito de manter, sempre ao final do período letivo, casos com suas alunas. Sexo e divertimento: expressão do animal vivo e vibrante. No realismo forte e objetivo de Roth, as constatações de Kepesh são lições de vida que não têm preço. As relações humanas e seus desequilíbrios estão ali, expostas. As hierarquias nas relações sociais e sexuais são mapeadas com a agudeza de quem já viveu tudo e optou por não se envolver além do físico. A razão lhe serve apenas para impedir que entre em enrascadas; fora isso, prevalece o instinto. Kepesh está velho e é um velho cínico, tão diferente do ancião lírico que provoca, no recente romance de García Márquez – Memórias de minhas putas tristes –, a complacência e até o encanto do leitor. Roth não é García Márquez nem no estilo nem nas crenças e ilusões políticas e sociais. Logo no início do livro, Kepesh constata, numa espécie de síntese antecipada do livro, que “tudo está escondido e nada está oculto”. É o epitáfio da geração que acreditou, entre outras coisas, na revolução cubana e na possibilidade de se libertar. Talvez por isso a diagnose que Roth faz da velhice seja tão crua, tão destituída da ingenuidade política, e em certo sentido literária, do último García Márquez.

 

Revolução cubana, aliás, que é personagem de O animal agonizante. É de Cuba que vem a família de Consuela, é para lá que ela queria ir, é para Cuba que ela – também agonizante, só que em outro sentido –, sabe que não voltará. Consuela irrompe na vida de Kepesh como, antes dela, tantas outras alunas. Um caso que passaria: sexo e nada mais. Mas Consuela não passa; fica. E Kepesh se dilacera gradualmente. Sabe-se velho, lembremos, e gradualmente mais, ao saber de seu ciúme, de sua dependência. Nem de tudo se libertou, percebe, nem de tudo nos libertamos. O relato, agônico como diz o título, flutua no tempo e nos conta a história de Consuela, que altera sua percepção do passado. Que ensina que, na paixão, na atração e principalmente no sexo, as hierarquias se fazem e refazem, os papéis se transformam e podemos, sem querer, ficar à deriva. O relato é para tentar compreender o que houve, para se compreender, para exorcizar e achar o significado da experiência. Das experiências que tanto vivemos, dos significados que tanto perdemos.

 

A agonia é pela falta de controle sobre o outro, sobre si. Pela falta de controle que as mulheres que passaram pela vida de Kepesh revelam em suas vidas – próprias? – de libertas. Da falta de controle de uma geração sobre o corpo que conquistou, sobre os corpos que gerou. Os dos filhos, por exemplo, que não precisavam ter-se perdido no torvelinho das intimidades ou no furacão do egocentrismo e do individualismo dos pais.

 

Depois de perder Consuela, de perder seu melhor – e único - amigo, de perder outras tantas mulheres, de perder-se, labiríntico, dentro de si, Kepesh, aos sessenta e tantos, caminha consciente para o fim. Opta por ele porque a autodestruição talvez seja melhor que a agonia a que nos levam os instintos, finalmente vitoriosos sobre a razão. Um animal, afinal, agonizante, que revela muito sobre a tão celebrada geração dos anos 1960. Que lembra a causticidade de “Os sonhadores”, de Bertolucci, mas sem a visão positiva que o diretor italiano combinou com a crítica. Kepesh é só amargura, depois que até seu cinismo sucumbe e só resta uma imagem terrível, a de si mesmo e a dos outros. Um epitáfio.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 09h41
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