Add to Technorati FavoritesTechnorati Profile paisagens da crítica - UOL Blog
paisagens da crítica


Um amor anarquista é um tremendo romance. E é fiel, como poucos livros o são, à epígrafe, de Joseph Brodsky: “Somos sempre modificados pelo que amamos”. Ao ficcionalizar a história da Colônia Cecília, Miguel Sanches Neto explora todos os sentidos dessa modificação que o amor provoca.

 

A trajetória da Colônia Cecília é razoavelmente conhecida. Foi fundada no final do século XIX, no Paraná, por imigrantes italianos que tentavam colocar em prática princípios anarquistas que defendiam e divulgavam: trabalho coletivo na terra, insubmissão à lógica do capital, usufruto por todos dos bens produzidos, igualdade social, disciplina de conduta, recusa de qualquer “feitor”, direito infinito à liberdade. A miséria e a inexperiência dos colonos não impediram que a tentativa fosse levada adiante e, durante certo período, parecesse bem sucedida aos olhos de seus membros. Principalmente de Giovanni Rossi, seu principal mentor e personagem central do romance.

 

Logo no início, o encontramos na defesa enfática do amor livre, símbolo de libertação de algumas das últimas regras da sociedade burguesa. Sua coerência o leva a oferecer a cama de sua companheira Adele a um dos jovens solteiros da comunidade. Porque um dos problemas que a colônia enfrenta é a falta de mulheres, principalmente solteiras. Adele, na verdade, já se divide entre Rossi e Aníbal, companheiro desde a Itália. O jovem deita-se com ela e, após a primeira noite, mostra mudanças notáveis no ânimo e na aparência: cresce, trabalha com mais vigor. O amor de uma noite o modifica. Também Adele – antes dividida entre dois, e agora entre três homens – se altera. Aníbal, mesmo conformado, sofre com a situação, e também muda.

 

Não é, porém, apenas o amor-sexo que transforma. Quando Rossi proclama a todos que Adele é retrato da nova mulher, livre de corpo e de vontade – a mulher da sociedade anarquista, a mulher sem as limitações do mundo burguês –, ele na verdade afirma uma outra metamorfose: a que o amor produz no sonho anarquista. Sanches segue a lógica dos personagens que cria: passa do plano individual ao coletivo, testando a epígrafe e avaliando seu alcance. Pois há outros amores em jogo na Colônia Cecília, e nem todos são conciliáveis. O amor dos pais pelo filho que vai nascer ou o amor que prefere seguir as regras da fidelidade conjugal. Ambos nocivos, ressalta Rossi, que espera ansiosamente o nascimento dos primeiros “filhos da Colônia”, sem “pais-feitores” definidos, portanto livres desde o nascimento. E que insiste com as demais mulheres casadas para que sigam o exemplo de Adele.

 

O amor político, no entanto, não penetra suficientemente nas consciências, nem dissolve a força do universo privado. A aflição da miséria e os valores individuais prevalecem entre as idas e vindas da Colônia, com sucessivos ingressos de imigrantes e com os esforços de Rossi pelo amor-livre (que incluem a contratação secreta de uma prostituta, Maria, um dos personagens mais interessantes do livro). E a epígrafe, em seu sentido coletivo, ganha conotação dramática. Que amor transforma quando mais de um está em jogo? Que subterrânea afeição pela regra e pela lei persiste por trás da paixão anárquica? Quanta liberdade atinge o instável terreno do sexo e das relações íntimas?

 

O desfecho da Colônia Cecília, conhecido de todos, é motivo de desânimo para Rossi, que a tantos tentou transformar depois de mudar a si mesmo. Mas Sanches Neto não esgota aí sua indagação das possibilidades abertas pela epígrafe. O próprio final do livro oferece outra leitura – lírica, porém irônica – das mudanças trazidas pelo amor: Adele, descobrimos, não se modificou para modificar a sociedade, mas para responder a um amor intenso, individual e uno: será que respondeu a um feitor introspectado? Mais: se extrapolarmos o limite da trama e olharmos todo o romance histórico de Sanches, construído na fronteira da ficção e da história, encontraremos uma narrativa que transforma a outra: a ficção não se submete às regras da história e nem esta se reduz a um pano de fundo da trama imaginada. O amor – construção que revela simultaneamente a abstração do desejo e a concretude do apetite – ocorre de fato e transforma. Não apenas pessoas, personagens ou uma trama específica; transforma a narrativa e amplia seus sentidos

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 06h02
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O presente da ausência
por Rodrigo Camargo
 
No dia 12 de agosto de 2006, o escritor e crítico argentino Ricardo Piglia, faria uma conferência em Paraty (RJ), durante a IV FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). O autor, infelizmente, teve sua participação cancelada por motivos de saúde. No entanto, apesar de sua sentida ausência, fomos contemplados, por seu editor no Brasil, com o texto escrito por Piglia para a palestra que acabou não ocorrendo.
 
"O Escritor como Leitor" foi o título dado para essa conferência fantasma. Desse modo, como sabemos, Ricardo Piglia acabou passando por lá e trouxe consigo um outro vulto: Witold Gombrowicz. Todos aqueles que tiveram a chance de ler a palestra escrita por Piglia sobre Gombrowicz são testemunhas que tais espectros foram um dos pontos altos da Festa. Afinal, em seu texto Piglia tratou de esmiuçar Gombrowicz naquilo que se tornou um famoso texto do escritor polonês radicado em Buenos Aires por mais de 20 anos: "Contra os poetas".
 
"Gombro" incluiu esse texto – inicialmente uma conferência pronunciada em castelhano numa obscura livraria portenha, na noite de 28 de agosto de 1947 – como apêndice em seu Diário argentino. Mas fica a questão: como valorizar corretamente um diário? É isso que Piglia ressalta: essa obra única é que tornará Gombrowicz conhecido. Para ele, o Diário de Gombrowicz é um exemplo da leitura dos escritores, e lá "Gombro" teria escrito seus "sentimentos entre aspas". Cito Piglia que cita Gombrowicz: "Seria mais razoável de minha parte não tratar de assuntos drásticos porque estou em posição de inferioridade. Sou um forasteiro totalmente desconhecido, careço de autoridade e meu castelhano é uma criança de pouca idade que mal sabe falar."
 
Experimentação contínua com a experiência, com a forma e com a escrita: é assim que Piglia nos mostra, segundo "Gombro", que a "disposição para ler poeticamente é o que constitui um texto como poético". Outros autores afirmaram coisa parecida, mas só agora aparece alguém que se propõe a se perguntar, outra vez, sobre tal enigma: afinal, o que faz um leitor quando lê?



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 11h24
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
Outros sites
  Centro de Estudios y Documentación Jorge Luis Borges
  The New York Review of Books
  Mario Vargas Llosa
  Virgilio Piñera Llera
  Andrea Camilleri
  Leonardo Sciascia
  A poesia de Frederico Barbosa
  Daniel Piza
  Céu acima. Para um 'tombeau' de Haroldo de Campos
  Impressões de fevereiro
  Café D'Avó
  alhos, passas & maçãs
  EntreLivros
  Miguel Sanches Neto
  Cara a tapa
Votação
  Dê uma nota para meu blog