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paisagens da crítica


No dia 1º de setembro,

quatro dias antes do blog completar nove meses,

passamos de 10 mil acessos.

 

Para comemorar,

um comentário mais longo e

sobre um livro excelente:

Travessuras da menina má, de Mario Vargas Llosa.

Obrigado pelos acessos e pelas leituras!



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 10h12
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Travessuras da menina má é um romance ou um livro de contos? Aparentemente um romance, mas, cumprindo o que já prometera há anos, Mario Vargas Llosa explorou as possibilidades das narrativas curtas e escreveu um romance cujos capítulos têm alguma autonomia. E esse é o primeiro prazer que a leitura traz: percorrer a tensão entre as partes e o todo e identificar os confrontos e as aproximações entre os dois tipos de narrativa.

 

Do conto, Vargas Llosa garantiu a coesão de cada história, o rigor do texto breve e o caráter sucinto da trama. A presença de personagens exclusivos de cada capítulo e sua ambientação distinta reforçam a relativa independência. A identidade da menina má – la niña mala – também varia e a reencontramos diferente a cada parte do livro. No capítulo 1, a história se passa em Lima, os personagens secundários são os amigos de infância do narrador Ricardo Somocurcio e a menina má é Lily, la chilenita. No capítulo 2, estamos em Paris, o principal personagem – fora Ricardo e la niña, que primeiro se torna a guerrilheira Arlete, e depois a Mme. Arnoux – é Paúl, amigo reencontrado. Londres é o cenário do terceiro capítulo, a niña é Mrs. Richardson e o personagem principal é outro antigo amigo, também transplantado: Juan Barreto. O quarto capítulo leva Ricardo a Tóquio, seguindo os passos de Salomón Loredano e da menina, que se tornou Kuriko, a sra. Fukuda. Retornamos a Paris para o capítulo V, com o casal Gravoski e seu filho Yilal ajudando Ricardo a cuidar de quem todos chamam de niña mala mesmo, que está em colapso emocional e físico, cercada de passaportes falsos, de identidades incertas. O retorno de Ricardo à Lima, no sexto capítulo, traz ao plano principal o tio Ataúlfo e um inesperado personagem, Arquímedes, o “fazedor de quebra-mar”, que lhe fala de Otilia, primeiro nome da menina que, por sua vez, prossegue em Paris como Lucy, a sra. Somocurcio. No capítulo 7 e último, Madri é o cenário e na cena central está Marcella, nova mulher de Ricardo; nas últimas linhas vamos para o sul da França e a niña mala é... a niña mala.

 

Sete capítulos, sete histórias. Cidades que interferem diretamente na trama e na feição dos personagens, com seus rituais próprios. Cidades que alteram o ritmo da narrativa, mais acelerado em Londres do que em Tóquio, mais contido em Paris do que em Madri. Os personagens secundários também se modulam conforme o espaço físico. Qualquer das histórias pode ser lida isoladamente e, nelas, o leitor encontrará aquilo que Ricardo Piglia identificou, em suas “teses sobre o conto”, como a marca principal da narrativa curta: a coexistência de duas histórias contadas em paralelo e que se alternam em importância; às vezes a história principal prevalece, às vezes a história subterrânea – quase sussurrada pelo contista – é o centro da narrativa. Também seu encadeamento varia, da absoluta explicitação à quase total diluição. Em As travessuras da menina má, Vargas Llosa obtém esse efeito nos vários capítulos. Ainda que seja quase inevitável que o leitor prorize, nas partes, a trajetória de Ricardo e sua relação com a menina má, ninguém fica alheio aos temas políticos e ao balanço cultural e geracional que é continuamente feito. Ou à candente história de Yilal, que, embora tenha origem política, é sobretudo um contido e lírico drama pessoal. Sete contos com fios claros de ligação, que nos permitem enxergar o romance que alinhavam.

 

continua...



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 10h02
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continuação...

 

A primeira e óbvia articulação é dada pelo narrador uno e em primeira pessoa, Ricardo Somocurcio. A simbologia de seu trabalho não deixa dúvidas: tradutor e intérprete, fala pelos outros, esvazia-se para deixar passar o que outros querem e dizem. Nas duras e impopulares palavras de Salomón Toledano, seu colega de profissão: “Se, de repente, percebemos que vamos morrer e nos perguntamos: que traços deixamos de nossa passagem?, a resposta honrada seria: nenhum, não fizemos nada, a não ser falar pelos outros. O que significa, fora isso, ter traduzido milhões de palavras e não recordarmos sequer uma, porque nenhuma mereceria ser lembrada?” Ricardo tem apenas um sonho, desde pequeno: sair do Peru e morar em Paris. E o realiza com alguma facilidade: muda-se para lá e lá passa quase sua vida inteira. Objetivo medíocre, acusa a menina má; única saída para um peruano, resume seu tio Ataúlfo após sucessivas decepções políticas. A trajetória pessoal do narrador unifica as partes porque apresenta um núcleo temático comum a elas, que avança cronologicamente da infância limenha dos anos 1950 ao umbral dos 60 anos a que chega no final do livro. Também faz parte desse núcleo o amor pela menina. Pelo menos é de amor que ele fala o tempo todo, e é nesse amor que a divulgação do livro insistiu, destacando-o como a preocupação central do romance.

 

E talvez possamos mesmo falar em amor, mas naquele sentido que Octavio Paz, amigo de Vargas Llosa, apontou em A dupla chama. Uma construção cultural ocidental e historicamente datada, claro, mas uma construção que assume conotação metamórfica em dois sentidos: nos contextos cognitivos em que é inserida e na peculiar leitura que cada indivíduo faz dela ao assumi-la como valor mais ou menos universalizável. Porque o amor de Ricardo guarda sentidos aguçados: é obsessivo, daí sua persistência no decorrer de quase meio século; é ideal, por isso sua crença na linearidade, seu desrespeito à história da relação que teve com a niña mala, seu alheamento da realidade; é fetichista, pelos objetos – sempre banalidades – que acumula e cultua na ausência da amada; é servil, o que é explicitado pela sujeição contínua à menina; é pleno e irredutível, quase infinito na intensidade e na longevidade; é romântico, e sua expressão retórica é sempre rebuscada e carregada metaforicamente. Já a niña mala, objeto e contraponto desse amor, é pragmática e tem também um só objetivo na vida: ocultar e afugentar o passado miserável para ascender socialmente. O corpo, a habilidade de encontrar saídas, o olhar incisivo e a absoluta falta de escrúpulos são seus instrumentos. E também a facilidade de imitar falas e línguas, ponto de aproximação aparente com o tradutor que a ama. Mas só aparente, pois Ricardo, sempre concentrado e voltado a seu ideal, é um estudioso, às vezes à exaustão, das línguas, e a menina, ativa e atuante, privilegia a entonação cativante enquanto atropela a norma culta do francês ao japonês, do inglês ao próprio espanhol, com suas variações regionais.

 

continua...



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 10h02
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continuação...

 

O narrador e seu amor, juntamente com a onipresente niña mala, não são os únicos elementos que dão organicidade ao romance. Certos temas recorrentes na obra de Vargas Llosa – e a própria relação desse romance com o restante dela – atuam decisivamente na construção da unidade. Em primeiro lugar, a sugestão autobiográfica, que nos faz lembrar A cidade e os cachorros, A casa verde ou Tia Julia e o escrevinhador. Em segundo lugar, a discussão política que aparece com força em alguns momentos, equivalente às de Conversa na Catedral, A guerra do fim do mundo, Lituma nos Andes ou A festa do bode. Em terceiro, a ironia corrosiva, as pequenas tiranias, o humor sombrio e os labirintos da sexualidade de Pantaleón e as visitadoras, Os cadernos de Dom Rigoberto ou do belo e intenso O paraíso na outra esquina. Outras questões regulares de Vargas Llosa percorrem subterraneamente esses três temas, fundem-se a eles e os articulam. Em meio aos registros autobiográficos e à revisitação do romance de formação, a análise autoirônica de uma geração que se quis revolucionária e que, em alguns casos, pagou caro por suas conquistas. Geração que foi fazer a revolução latino-americana em Paris e acabou incorporada à pequena-burguesia européia. Por trás da discussão política, um balanço cru e desesperançado do Peru e da América Latina dos anos 1960 em diante, com seus modismos e surtos de ingenuidade política e de ditaduras terríveis e burras, que devastaram as economias nacionais e decompuseram os laços sociais. Em outras palavras, junto com as ironias e o sexo, um mapeamento cru dos estranhos perfis pessoais, de suas ambigüidades e seu repertório de erros.

 

Ou seja, o novo romance é coerente com o conjunto da obra e repõe, atualizados, alguns de seus temas mais densos. Não há mais tantas interpolações narrativas nem flutuação de voz e mesclagem de diálogos como nos romances das décadas de 1960 e 70, o que reforça uma tendência manifesta desde A festa do bode, em que a força excessiva da trama bloqueava a experimentação ou a variação narrativa. Não é tampouco um romance que resulte de exaustivas pesquisas históricas, como A guerra do fim do mundo ou O paraíso na outra esquina, para ficar nos mais notáveis exemplos do esforço de pesquisa que caracterizou parte importante de sua obra. Mas é o livro de um autor que, nos setenta anos, mantém uma disciplina e um vigor narrativos incomparáveis, além de uma produtividade impressionante.

 

Talvez a forma corrosiva como se refere a certos episódios passados ou a crueza de suas análises provoque insatisfação em alguns leitores. Só que se compararmos a qualidade – altísssima e regular – da obra de Vargas Llosa, não haverá dúvida: ele é, há algumas décadas, o melhor romancista latino-americano, um dos melhores do mundo, e, pelo visto, não será ultrapassado tão cedo. Resta que a academia sueca, que já fez a estultice de não premiar Borges (para não falar do absurdo de alguns prêmios concedidos a outros, inclusive latino-americanos), reconheça isso logo e lhe dê o tão aguardado – e para lá de merecido – Nobel de Literatura.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 10h02
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