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paisagens da crítica


A verdadeira história do Paraíso deveria ser leitura obrigatória em cursos de história das religiões. Também as aulas de catecismo poderiam recorrer a ela para substituir o material hoje utilizado, e talvez obsoleto.

 

Porque Millôr Fernandes apresenta, em A verdadeira história do Paraíso, uma outra versão da criação do mundo, e bem mais verossímil do que a que corre por aí. O texto e suas ilustrações não são novos: foram feitos no final dos anos 1950 e publicados na revista O Cruzeiro em 1963. O Brasil profundo – profundamente carola – indignou-se e a redação da revista foi tomada por 36 cartas de protesto. O editor, num gesto de bravura, publicou um dos mais estapafúrdios editoriais da história da imprensa: desculpava-se com os leitores, se defendia, espinafrava Millôr e sustentava que o material (dez páginas em quatro cores) fora publicado sem o aval da redação, da secretaria e da própria editoria. Ou seja, dizia desconhecer tudo que corria sob seus olhos e, portanto, eximia-se de qualquer responsabilidade. Algo, de resto, muito provável: acontece diariamente nas redações e nos governos nacionais.

 

Só que a estultice sempre provoca reações, e choveram manifestações de apoio a Millôr. Nenhuma, frisa ele, de qualquer pessoa ligada à Igreja Católica. Nem dos chamados, na estranha e paradoxal expressão, “padres progressistas”. Millôr ainda ganhou a ação judicial que moveu contra a revista, provando, segundo ele, que “a justiça farda, mas não talha”.

 

Agora, 43 anos depois, A verdadeira história do Paraíso reaparece numa bela edição em papel couché de gramatura 150, pronta para a difusão proposta no primeiro parágrafo desse comentário. Mostra, passo a passo, tudo o que aconteceu desde que o Altíssimo resolveu botar a mão na massa (no caso de Adão, no barro) e criar o Universo, com tudo que isso implica. Millôr mostra Sua pressa (para encerrar o expediente no meio-dia do sábado), as dificuldades (a estrutura grande demais da Pedra Fundamental ou o fato de iniciar o trabalho no escuro – depois do “Fiat Lux” foi tudo bem mais fácil), os primeiros críticos (anjos e arcanjos intrometidos que O fizeram desistir da idéia inicial de criar muitos sóis), os dilemas (folha de figueira ou de videira: com que cobrir as vergonhas de Adão?), os erros de projeto e de cálculo (a girafa, por exemplo). Revela, ainda, fatos insuspeitos, como a Via Láctea ter sido formada por um resto de leite de cabra ou a preocupação em economizar, que levou o Todo-Poderoso a optar por elementos baratos na criação de algo que seria muito consumido: o dessedentador (posteriormente chamado de água, ganhou fama quase equivalente à da Coca-Cola). Nota, ainda, a surpresa divina ao descobrir a sombra (não, Ele não a criou) e como a sombra inspirou futuros projetos, inclusive o pior deles: o homem. Pondera, finalmente, sobre a precedência da criação masculina em relação à feminina e chega mesmo a sugerir duas explicações bastante plausíveis: Ele precisava treinar antes de criar a mulher, forma bem melhor acabada, e, se fosse criada antes, inevitavelmente a mulher palpitaria nas demais criações e atrapalharia Seu trabalho.

 

Daí para frente, a história é razoavelmente bem conhecida: Adão batiza as coisas e demonstra até alguma originalidade (ao nomear o hipopótamo, por exemplo), cria a metáfora (o que foi fundamental para que depois tivéssemos políticos que preferem as futebolísticas), perde uma costela e ganha uma mulher. Sedutora, Eva quase conquista o próprio Altíssimo, que escapa na hora h (Millôr observa que essa passagem é dada em primeira mão, pois não consta sequer da Bíblia, órgão oficial de divulgação do “Todo”, forma carinhosa com que Eva O chamava). Já Adão não resiste, vem a conseqüente expulsão do Paraíso, com serpente & maçã. Também é sabida a história da família que ambos constituíram e as brigas entre os filhos. O que não sabíamos – e aprendemos com essa versão da criação – é como Caim também se tornou um grande inventor e adquiriu importância central no mundo posterior.

 

Entre tantas revelações, porém, a mais candente é a da última página (não se preocupe: não a contarei aqui, leitor). Mas o melhor do livro está nas dúvidas que inculca: por que a pressa divina (se podia fazer mais devagar, e melhor)? Por que a serpente (se, afinal, era um Paraíso)? Por que a maçã (e não um fruto mais suculento, com os possíveis efeitos posteriores – não apenas simbólicos)? Se Ele era onisciente, como não previu o pecado que Adão e Eva cometeriam? Como a insensatez daqueles dias se vincula com a de hoje? Como texto e ilustração se associam com tamanha profundidade? Por que o leitor não consegue deixar de girar os olhos de um para outra, ininterruptamente? Por que a doce heresia em escala industrial que o livro pratica nos provoca e nos diverte tanto?

 

Enfim, somos forçados a pensar, algo que normalmente é dispensado nas leituras usuais da história do Paraíso. Por isso é um livro tão útil e que merecia maior divulgação. Taí, bateu uma idéia: o governo (que tal por meio da Secom?) poderia reproduzi-lo e distribuir nas portas das igrejas evangélicas, ao final do culto. Alguém, por favor, passe a sugestão ao Gushiken: uns dois milhões de exemplares, por exemplo. Só que dessa vez com fim nobre.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 08h30
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Vestido para morrer traz, em certo momento, uma observação curiosa: a de que os italianos sempre acham que, por trás das aparências, há uma conspiração – uma grande conspiração – em curso. Essa espécie de paranóia nacional talvez tenha contaminado este e outros livros de Donna Leon.

 

É o terceiro romance policial da autora (que, por sinal, não é italiana, mas vive e trabalha em Veneza há vinte e cinco anos) publicado no Brasil, após Morte no Teatro La Fenice (2000) e Morte em terra estrangeira (2004). Na verdade, os livros chegaram aqui na ordem certa, mas com cerca de uma década de atraso em relação às publicações originais, que são de 1992, 93 e 94.

 

Porque, à semelhança dos dois anteriores – e principalmente do segundo –, o desenvolvimento da trama de Vestido para morrer extrapola o espaço do indivíduo, usualmente central nas histórias policiais, e identifica por trás de cada ação a marca de uma... conspiração. No caso, a sordidez vem pelas mãos de interesses imobiliários de advogados e de defensores da moralidade e dos bons costumes, dotados do peculiar hábito de freqüentar travestis. As influências políticas e as relações dos suspeitos com a alta sociedade veneziana aumentam o tamanho do complô, que ameaça inclusive o corretíssimo e silencioso comissário Guido Brunetti, personagem central dos romances de Donna Leon.

 

Brunetti enxerga mais do que os outros, algo que se espera de um investigador. Abnegado, sacrifica suas férias para investigar um crime que nem ocorreu na área de seu comissariado, mas na vizinha cidade de Mestre. Isso também se espera de um investigador para que se desenhe o molde básico do detetive de história policial. E Brunetti sabe, ainda, que muitas coisas se perdem e se esquecem no quotidiano e nos bastidores dos jogos políticos. Por isso desconfia das conclusões apressadas de seus chefes e dos preconceitos dos colegas. Encontra, porém, auxiliares dispostos a segui-lo na cruzada e, aos poucos, desfia a trama.

 

Ao extrapolar o espaço do indivíduo como foco do policial, Donna Leon, de alguma forma, repõe uma marca – e peculiaridade – do romance de investigação italiano. Basta lembrarmos de Leonardo Sciascia e seus “policiais-não-policiais”, expressão criada por Italo Calvino para caracterizar tramas em que não havia salvação após o crime, pois quem estava por trás dele era uma assustadora combinação de Máfia, Estado e Igreja. Também é interessante como ela mistura duas outras tradições do policial: o cerebralismo da vertente inglesa (ou, mais genericamente, européia) com a ambientação sórdida e a violência explícita do viés americano.

 

Por tudo isso, Vestido para morrer não é um mau livro. Mas tampouco é bom. Porque as preocupações com as modulações do gênero acabam por sucumbir face a alguns vícios da narrativa. O narrador, em terceira pessoa, segue os passos e, quase sempre, as idéias, vontades e palavras – mesmo as não-ditas – de Guido Brunetti. Mas isso não impede que constantemente o leitor seja informado do que um determinado personagem pensou ou do que outro quis fazer e não fez. Tal onisciência do narrador, levada ao plano da imaginação de personagens, permite soluções fáceis, eximindo o texto de construir caminhos mais complexos ou de sugerir, de forma não tão óbvia, o que o dado personagem supunha e a ninguém revelava. Em muitos momentos, também, o texto gira e constrói situações ou personagens com o único intuito de entreter o leitor, criando falsas expectativas. O despiste, claro, é uma estratégia regular na história policial, mas deve ser trabalhado e cuidadosamente relacionado com a trama para que não pareça apenas uma falta de empenho, de técnica ou de planejamento do escritor e resulte em algo estéril, que amplia sem necessidade as páginas do livro e deixa o leitor com a sensação ruim de ter sido enganado.

 

Vale a pena, então, ler Vestido para morrer? Vale, porque é um bom entretenimento e porque é interessante ver o diálogo que a autora estabelece com outros romances policiais. Vale também para passear, ainda que imaginariamente, por Veneza, cidade mais linda do mundo. E, finalmente, vale para refletir se os italianos têm mesmo tendência a acreditar que há sempre uma conspiração em curso. Ou se são americanos, como Donna Leon, que se espelham neles.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 07h57
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