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paisagens da crítica


Agora, uma semana de recesso...

A próxima publicação será no dia 20 de outubro.

Até lá e boas leituras!



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 08h04
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Chove sobre minha infância rasga o coração. E é com a garganta ainda raspada que escrevo este comentário. Não será, leitor, como os habituais. Não haverá aqui, provavelmente, qualquer consideração objetiva sobre o livro, nem análise, crítica ou interpretação. Apenas o registro da leitura que foi adiada semanas pelo que me haviam falado dele. Livro que encheu os olhos de água na segunda página – e eles estiveram molhados pelo menos durante a metade das 254 que tem o romance. Pararam para desaguar na 32 e depois, mais enxutos, resistiram até o penúltimo capítulo, quando foi preciso novamente secá-los e tomar fôlego para o último.

 

Se este não é um comentário habitual, não faz sentido dizer que o romance evoca O som e a fúria, em sua variação inicial de vozes, na apresentação da mãe do narrador. Também não é preciso dizer que se trata de um romance de formação em que a inflexão autobiográfica é tão forte que quase sempre esquecemos que é ficção – e isso nos faz pensar em Sebald ou em Naipaul. Finalmente, e sempre pelo mesmo motivo, me sinto dispensado de apresentar o autor, Miguel Sanches Neto: ele se mostra com toda a crueza no livro, expõe o próprio esqueleto e o do mundo da infância – o suposto Brasil profundo que políticos brandem em campanhas e que é duro, áspero e ignóbil em seus rituais de reciprocidade e de celebração arrogante da ignorância, em seu culto de valores que não se refazem nem se repensam.

 

Tampouco valeria a pena dizer que Sanches Neto reinsere, de forma brutal, um lirismo que anda em desuso e que faz o leitor lembrar que literatura não é apenas jogo, não é simplesmente tramada em gabinetes frios de subsolos acadêmicos ou financiada por prêmios elegantes e bolsas pagas com dinheiro público. Não. Em Chove sobre minha infância, tudo é conseguido tão a duras penas e é de tal forma improvável, que a realidade invade a ficção como se o livro tivesse sido escrito numa das paisagens devastadas e rurais do interior do Paraná, onde a trama – e a infância – se passa. Onde não há lugar para o diferente, o “outro”, figura celebrada em teses e dissertações acadêmicas, em longos e brilhantes ensaios, e que nunca aparece à nossa porta. Ou aparece, e nem nos damos conta.

 

Sanches Neto, autor-narrador-personagem, é tão gauche na vida (um Drummond rural?) e no trabalho do campo – e isso nos parece (urbanos e leitores que somos) natural –, que só tardiamente, e por uma escrita que não é sua, percebemos que a verdade não estava apenas de seu lado, nem o erro – se o termo cabe – era só do padrasto, figura que atormenta sua infância e aflige o leitor. Porque o leitor se embrenha em sua lógica e a segue rigidamente; busca paralelos e se enxerga aqui e ali. Esquece se tratar, afinal, de ficção, mesmo que totalmente dissolvida nesse tecido íntimo, que mais uma vez mostra como a memória é território que mistura, tensamente, o passado – uma terra estrangeira – e o presente. Mostra que a memória é a zona difusa em que história e ficção se enredam.

 

Por tudo isso, não há análise, interpretação ou crítica neste comentário. Há apenas a vontade de dizer a você, leitor, da forma mais vigorosa possível, para ir à livraria mais próxima, comprar e ler o livro. Entenderá a vertigem de que falo. E tanto melhor se perceber que ela não é dada apenas pela força do itinerário pessoal narrado (terrível e banal; terrível, porque banal). É também a precisão do narrador que não faz questão de ostentar sua técnica refinada. Mas ela está ali, firme e precisa, a serviço da emoção que, junto com a reflexão, a leitura pode, sim, provocar.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 07h58
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