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paisagens da crítica


Duas praças é um dos dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom, o que é sempre um bom indicativo de qualidade. Duas praças, duas histórias: Maria, brasileira, aguarda um Manequim, com quem dialoga e para quem expõe suas fantasias medíocres, mas nem por isso menos vertiginosas; Marita, estudante e vítima da ditadura argentina, desapareceu e um colega de universidade a busca.

 

Ricardo Lísias, jovem crítico e ficcionista, montou bem a arquitetura do romance: as tramas se alternam e confluem num jogo distorcido de espelhos. A busca errática por Marita e os raciocínios difusos de Maria se assemelham, por mais que, a princípio, as histórias pareçam dissonantes. O que parece longínqüo se aproxima pela insistência do(s) narrador(es) – um em terceira, outro em primeira pessoa – de repetir estruturas e revelar ocos. A cidade – grande, excessiva – é o palco das tramas, e nela circulam personagens atormentados e paradoxais, que independentemente de seus mundos peculiares (e distantes) expõem características idênticas: acadêmicos e policiais – todos – são ambíguos no limite da esquizofrenia, são burocráticos até a medula, são autocentrados. Não importa que universidade e polícia sejam espaços e serviços públicos: já foram individualizados há muito tempo, já empenharam suas dimensões sociais e coletivas, insistem em negar o outro e o externo. Em Duas praças esse jogo perverso às vezes assume ar de caricatura, outras vezes de denúncia. Quando denúncia, aterra o leitor. Como caricatura, leva o riso – um tantinho amargo, mas prazeroso – ao canto da boca e deixa fluir a ironia meio cínica, e inevitável, do autor.

 

Porque a brutalidade prevalece quase orgulhosamente. Porque a passividade triunfa em meio a um caos que a facilita. Porque Lísias sabe que o que houve em nossas praças pôde persistir nos subterrâneos da polícia ou nas salas privadas das academias. A ruína das relações e das instituições – nas quais somos instados a viver – sugere o prosseguimento de uma força destrutiva. A mesma que faz com que Maria jamais atinja a lógica que almeja, jamais conclua linearmente uma de suas enviesadas explicações para si mesma.

 

Interessante, no romance, é que essa desordem representada contrasta com uma mecânica narrativa precisa. Lísias domina plenamente as técnicas a que recorre, explora as possibilidades que o romance oferece, fragmenta e unifica as tramas como bem entende. E o contraponto amplia o desconsolo que quer representar. O único problema é que, embora intencional e significativa para a narrativa, a exposição desse domínio técnico é um pouco acintosa demais, levando o leitor a enxergar ininterruptamente o esqueleto do livro que tem em mãos. Percebe como tudo ali foi dosado, pensado, calibrado. Que todos os ritmos estão sob a tutela rígida do autor, que todos os personagens foram esmiuçados até as entranhas antes de se tornarem texto. O desenho das duas histórias e a articulação entre elas parecem ter sido identicamente definidos em todos os detalhes; tudo foi verificado, uma e outra e uma terceira e quarta vez, antes de ir para a versão final. Ou seja, o livro se mostra como uma construção perfeita. E isso acaba por passar certa frieza para o leitor. Sugere uma máquina literária finamente azeitada, mas ainda assim uma máquina literária: algo que carece parcialmente de vida e de vibração. Lembra a destreza de Amsterdã, de Ian McEwan, com sua resolução lógica demais. Lembra uma observação que Bioy Casares, nos últimos anos, fazia sobre seu fabuloso A invenção de Morel, tão celebrado como livro de engenho, como perfeição literária; dizia Bioy que deixara de gostar de A invenção de Morel porque achava tudo tão calculado, tão preciso, que, ao relê-lo, tinha a sensação de que observava um mecanismo carente de vida, e que vida era essencial num romance.

 

É essa a impressão que fica de Duas praças: um livro inteligente e extremamente bem escrito – algo muito raro na atual ficção brasileira – ao qual parece faltar vida. Talvez o descarte completo do lirismo e a opção radicalmente cerebral de Lísias é que gere tal efeito. Mas não necessariamente: Borges era um autor cerebral e passava vibração em seus textos. Resta aguardar os próximos livros de Lísias. E, claro, ler este. Porque note, leitor, o calibre das comparações: McEwan, Bioy, Borges... Ou seja, a despeito das ressalvas, Duas praças é excelente. O que não quer dizer que não se espere mais dos futuros romances de Lísias, que talvez não vença o Portugal Telecom de 2006, mas que, nesse ritmo, um dia vencerá este e outros prêmios. E, mais importante, produzirá narrativas notáveis.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 08h00
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A casa de papel parte de uma boa idéia e é interessante. Vale cada segundo dos vinte e poucos minutos que gastamos com sua leitura. O argentino Carlos María Domínguez criou uma história de livros emparedados, de mortes provocadas por livros, de aflições que o excesso de livros provoca. Livros, livros, livros. Domínguez deu um sutil tom de mistério à trama e a desenvolveu de forma divertida, fazendo com que o narrador seguisse a pista deixada por um livro coberto de cimento, que sua colega Bluma recebera pelo correio – Bluma morrera poucos dias antes, atropelada enquanto lia.

 

A investigação tem pouco do ritmo ou dos sentidos de uma história policial: a verdadeira inquietação que a move é o incômodo que os livros podem causar, que as leituras impõem. Reconhece uma espécie de mundo livresco, no qual os leitores se deslocam e cujos paralelos e meridianos são as obras que nos influenciaram até a medula, até não conseguirmos mais nos livrar delas.

 

Ainda que o desfecho seja previsível – não na forma, mas no sentido –, A casa de papel mantém o leitor atento mesmo quando há algum excesso e artificialismo nas citações que faz e no esforço de ecoar O nome da rosa para identificar o perigo. E aí está a imprevisibilidade da trama, que escapa à rotineira e óbvia celebração da leitura e de seu valor. Claro que o narrador não discorda dela, mas está tão entranhado no mundo dos livros que não faz sentido destacá-lo: é uma outra natureza, um contexto cognitivo e real em que nos enfurnamos por algumas (ou muitas) horas por dia. Melhor que essa inversão de expectativa só a sugestão inicial, sua melhor idéia: o caráter soturno da mudança que os livros provocam na vida das pessoas.

 

E nesse ponto, leitor, deixamos o A casa de papel de lado e passamos a sondar hipóteses. Diga lá: que livro o mudou? Mas, antes, pense bem: foi para melhor, como sugere o senso comum? Ou houve leituras que nos atingiram tão frontalmente que saímos delas como melhores leitores, mas piores pessoas? Será que você, leitor, atravessou Crime e castigo e, depois, ainda viu os homens com os mesmos olhos isentos e esperançosos que tinha antes? Ou acompanhou Julien Sorel e mesmo assim manteve a crença de que o mundo pudesse ser decifrado sem nuanças ou gradações? Ou ouviu a terrível constatação de Charles Swann de que desperdiçara os melhores anos de sua vida por uma mulher que nem era seu tipo e, apesar disso, continuou a acreditar no amor e nas formas derramadas que ele assumiu tantas vezes na literatura e, por que não?, no quotidiano?

 

Provavelmente não. A leitura nos traz problemas, problemas graves. Tornamo-nos totalmente cínicos após lermos Dom Casmurro ou Brás Cubas; duvidosos quanto à condição humana depois de Conrad; desconsolados pelas páginas de Coetzee; cruelmente realistas com Graciliano. Ficamos um tantinho cínicos com Borges, Naipaul ou Vargas Llosa, e inquietos com Bernardo Soares. Nos reconhecemos ambígüos com Shakespeare e sofremos, quase na pele, o terror do século XX com Primo Levi ou com Céline.

 

Livros melhoram as pessoas? Não, constata o narrador de A casa de papel e, junto com ele, alguns personagens. Livros podem até matar. Um deles matou Bluma de forma prosaica, ao provocar um atropelamento. Outros são mais cruéis e mais lentos: torturam o leitor até que ele finalmente sucumba. Madame Bovary que o diga. Livros libertam, como diz o velho chavão que tantos políticos apregoam? Também não: na maior parte das vezes, os livros nos aprisionam, nem que seja na consciência. Deve ser por isso que esses mesmo políticos evitam tanto ler, certos de que melhor é relembrar sua origem inculta e sapecar uma metáfora futebolística.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 08h18
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