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paisagens da crítica


Espinosa sem saída traz o detetive de volta. Ele continua morando no bairro do Peixoto, encravado em Copacabana. Continua apaixonado por livros. E continua desconsolado.

 

Dos sete romances policiais de Luiz Alfredo Garcia-Roza, Espinosa é protagonista de seis. Surgiu em O silêncio da chuva, de 1996, e só ficou de fora de Berenice procura, de 2005. No novo livro, ele tem 43 anos e constata que está há 20 na polícia. Tem dificuldade de entender todo esse tempo e olha seu passado como se não lhe pertencesse de fato – “a mesma geografia”, reconhece, “e histórias tão distintas”. Também estranha continuar ao lado de Irene, namorada 13 anos mais nova. Sente-se envelhecer, declinar. Diz olhar de um “mirante ao rés-do-chão” e é dessa perspectiva que se dispõe a investigar a morte de um sem-teto. Ninguém, claro, se interessa pelo caso. Não se sabe o nome da vítima ou o que fazia no alto de uma ladeira, tarde da noite, sob um temporal. Ninguém o conhece, nem parece ter motivo para matá-lo. Não há suspeitos. A única coisa que caracteriza o morto, nota Espinosa, é uma negação: ele não tem uma perna.

 

Mas Espinosa, tenaz como nos outros romances, prossegue. Seus métodos continuam a contrariar as matrizes mais conhecidas da narrativa policial: no lugar da lógica estrita que se segue à análise das pistas, Espinosa faz desenhos – aparentemente desconexos – em papéis, grava-os na memória e os joga no lixo. Prefere que as idéias se associem livremente: “raramente raciocina”. O que lhe vem à cabeça, enquanto a imaginação circula sem freios, é comparado a monstros; aceita alguns e devolve outros para as grutas e cavernas do cérebro – as mesmas de que falou Ibsen e que sugerem que há muito de loucura, irrazão, nos itinerários do pensamento e na receita do “mingau intelectual”, de seu “estado pré-pensante”.

 

E é a imaginação um tanto delirante do detetive que insiste em buscar laços entre a misteriosa morte do sem-teto e a gente moderna e chique, que autentica a rachadura social profunda do Rio de Janeiro que Garcia-Roza representa. Uma cidade de dupla personalidade, como tantos duplos que o livro traz: dois crimes (além do sem-teto, a de uma moça elegante e rica), dois nomes para um dos mortos, outros dois para uma das suspeitas, ambigüidades sexuais que opõem vertiginosos prazeres clandestinos à repetição do universo familiar. Sem contar, claro, a duplicidade do próprio detetive, cada vez mais distante do mundo em que trabalha, cada vez mais diferente das pessoas que o rodeiam. E a figura do duplo traz, em sua cauda, a óbvia inquietude: parte de cada um é conhecida, parte é estrangeira. Não são apenas os dois mundos sociais – miseráveis e endinheirados – que se percebem estranhamente familiares; a bifurcação aflige e se faz sentir também no plano das relações individuais e, lógico, no íntimo.

 

Principalmente quando a memória falha (algo que ocorre com um dos suspeitos), sentimos que o inimigo está dentro de nós e não conseguimos nos reunir com nosso passado. Faltam os vínculos, as pertenças de todas as ordens. Mais de uma vez, no decorrer do romance, Espinosa observa que o mistério que quer desvendar é esse; não se importa prioritariamente com o assassinato, mas quer entender quem são aquelas pessoas diante dele. Os duplos, assim, sugerem a presença temível do desconhecido e ainda bloqueiam a saída – daí o título do livro. Afinal, numa rua sem saída ocorreu o primeiro crime e nasceu o impasse em que Espinosa e os demais personagens se metem. Impasse, diga-se, que sugere idêntico sentido de impossibilidade de trânsito, de necessário retorno ou de paralisia. Na narrativa de Garcia-Roza, há os que voltam e os que param.

 

As três partes do livro, inclusive, se iniciam com retornos ao passado, breves cenas originais que antecipam o desfecho e ajudam o leitor a compreender, pela voz do narrador onisciente, a gênese da loucura por trás dos crimes. Para o delegado Espinosa, porém, que, para sua aflição, não consegue ler quase nada durante todo o período da investigação, a lógica da realidade é dificilmente penetrável. Isso não implica, no entanto, qualquer tipo de alheamento. Ao contrário, o torna parente de outros detetives da literatura que também deixaram de defender valores abstratos de justiça e de verdade e passaram a reconhecer seu caráter conjuntural. Detetives como Pepe Carvalho, de Manuel Vázquez Montalbán, ou Salvo Montalbano, de Andrea Camilleri, miram a linha do horizonte e contribuem para que a narrativa policial não possa ser vista como uma mera defesa dos valores e da ordem da sociedade burguesa que inventou a polícia e seus procedimentos técnicos de investigação. Espinosa ilustra a linha tantas vezes defendida pelo argentino Ricardo Piglia: a de que a narrativa policial é, sobretudo, uma crônica e uma denúncia social. Talvez por isso, Garcia-Roza se preocupe em associar, pela boca de Espinosa, a realidade à ficção. Tenta, dessa forma, atribuir sentido ao que não dispõe de relações e ordenamentos. Afinal, a construção de sentidos é bem mais fácil na ficção.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 05h12
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Histórias fantásticas traz à lembrança um caso divertido. Um leitor brasileiro perguntou, certa vez, ao argentino Adolfo Bioy Casares se seu interesse pelo fantástico se devia a um episódio da infância que narra em suas Memórias. O episódio é curioso: Bioy conta que, quando pequeno, queria muito ter um cãozinho, mas seus pais não permitiam. Uma noite, num parque de diversões, ganhou um filhote cor de chá. Levou-o para casa, tratou-o e o colocou para dormir. Na manhã seguinte, levantou correndo e foi vê-lo, mas não o encontrou. Perguntou à mãe e ela, candidamente, lhe respondeu que ele não ganhara cão algum: tudo havia sido um sonho.

 

Na análise do leitor que lançou a questão, a vida informava diretamente a ficção e justificava uma obra repleta de situações incomuns. Bioy, com sua habitual elegância, ouviu a longa explicação que o leitor lhe dava e limitou a resposta a um seriíssimo “provavelmente”. O público que assistia à cena desatou a rir, em parte pela pergunta, mas mais pelo improvável da resposta. Mas a cena não foi incomum: para muitas pessoas, o fantástico efetivamente se liga a experiências de vida extravagantes e a imaginação é o espaço fértil que permite sua transposição para o texto. As criações de Bioy – reconhecido como escritor de histórias fantásticas – seriam então determinadas por uma peculiar e igualmente fantástica visão de mundo, desviada da razão.

 

A publicação dessas Histórias fantásticas certamente ajudará, e muito, a dissipar esse equívoco e a fazer o leitor brasileiro compreender um pouco mais a literatura fantástica, principalmente a produzida pelo escritor argentino. Porque Adolfo Bioy Casares (1940-1999) ainda é pouco lido por aqui. Mesmo habituais leitores de ficção hispano-americana às vezes desconhecem sua obra ou resumem seu conhecimento ao fabuloso A invenção de Morel, o que é compreensível se considerarmos que, até o início desse ano, apenas cinco livros de Bioy haviam sido traduzidos no Brasil (um em colaboração com Borges) e a maioria se encontrava esgotada. Em 2006, tivemos uma nova tradução e edição de A invenção de Morel e, agora, essas Histórias fantásticas, que iniciam uma pequena coleção dedicada a Bioy. A partir de 2007, serão também lançadas as obras em colaboração de Bioy e Borges. Ou seja, antes tarde do que nunca, o leitor brasileiro poderá conhecer parte significativa de sua obra.

 

continua...



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 14h20
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continuação...

 

Histórias fantásticas reúne quatorze contos, extraídos de livros diferentes e que percorrem vinte anos da obra de Bioy. “Em memória de Paulina”, “A trama celeste” e “O perjúrio da neve” vêm de La trama celeste, de 1948. “História prodigiosa” e “A serva alheia” são de História prodigiosa, de 1956. “O lado da sombra”, “O calamar opta por sua tinta” e “Os entusiasmos” aparecem em El lado de la sombra (1962). “O grande serafim” é do livro homônimo, de 1967, do qual também saíram “Os milagres não se recuperam” e “O atalho”. “Moscas e aranhas” (1958), “Um leão no bosque de Palermo” (1961) e “A passageira de primeira classe” (1969), originalmente publicados em jornais ou revistas, foram reunidos em coletâneas. Junto com os contos, a bela edição traz algumas bonitas fotos e, nas páginas finais, inclui levantamento bibliográfico criterioso e breves comentários sobre os textos reunidos.

 

Os três contos da década de 1940 mostram um Bioy parecido com o que encontramos em A invenção de Morel: as tramas são fortes e bem constituídas, o desenvolvimento narrativo é rigidamente controlado e marcado pela lógica estrita e peculiar que percorre todo o texto. Lembram a célebre observação de Borges, que viu Bioy como um autor de histórias “de engenho”, orgânicas e criteriosamente construídas. Os temas fantásticos se associam a indagações científicas e a problemas metafísicos, sem que isso leve o autor a endossar qualquer teoria que comenta. A “teoria da pluralidade dos mundos” (manifesta por Louis-Auguste Blanqui, em “A trama celeste”) e o mito do eterno retorno e da circularidade temporal – que deixam a morte em suspenso em “O perjúrio da neve” – são bons exemplos: Bioy explora as possibilidades literárias que as teorias sugerem, desenvolvendo-as para que seus personagens circulem com agilidade por temporalidades e espaços diferentes e assombrosos. As circulações entre tempos, aliás, são regulares na obra de Bioy e assumem muitos significados. Já houve quem enxergasse nelas uma preocupação de aludir às mudanças por que a cidade de Buenos Aires passara algumas décadas antes e que geraram o convívio entre espaços assincrônicos, às vezes separados por uma rua ou galeria: de um lado, o século XX e seu frenesi moderno; de outro, a tradição oitocentista. Há também quem insista que a principal intenção de Bioy, ao provocar essas passagens de uma realidade à outra, foi reforçar a variedade dos focos narrativos, dando maior complexidade ao relato e esvaziando a possibilidade de uma lógica una ou linear que o justificasse. Ou que pretendeu investigar o caráter paródico que a narrativa pode assumir, o que ocorre, por exemplo, em “Os entusiasmos”, em que a literatura de celebração maquínica do final do XIX é satirizada ao mesmo tempo que um dos personagens postula outra imortalidade, a do pensamento.

 

continua...



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 14h20
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continuação...

 

Na verdade, todas essas explicações são plausíveis, assim como muitas outras que a crítica propôs. Até a sugestão de narrativa psicológica, que Juan José Saer encontrou em alguns textos de Bioy e que provavelmente horrorizou o próprio. Trata-se, afinal, de ficção e, na ficção, nenhum cenário ou tempo é fixo, nenhuma explicação é exclusiva, ainda mais quando se trata do original universo de alegorias e citações que Bioy construiu. Mais do que isso: é nesses confrontos temporais e deslocamentos que o fantástico da obra de Bioy se caracteriza mais nitidamente, com o privilégio dado às reações que o evento extraordinário provoca, e não ao esforço de desvendamento. É como se os personagens, cada um com sua voz, aceitassem o sentido assombroso do que ocorre e se dispusessem a agir em meio a ele. Em “O grande serafim”, os estranhos fenômenos naturais associados ao mar, que ocorrem num balneário à beira do Atlântico, demoram a ser reconhecidos como indícios do fim do mundo. O fabuloso não oferece espetáculo: prevalece a banalidade da vida dos moradores em contraste com o sentido transcendente da catástrofe. O mesmo se passa no contundente “O calamar opta por sua tinta”, em que a rotina insignificante reage ao extraordinário, representado pela chegada de um extraterrestre, e o elimina para manter o que há de patético e banal. Ou nas ridículas relações pessoais abordadas em “Moscas e aranhas” e em “Um leão no bosque de Palermo”. A dimensão existencial também se sobressai à estranheza em “Os milagres não se recuperam”: os percalços amorosos – tema recorrente no Bioy dos anos 1960 em diante – e a dificuldade de diálogo entre as pessoas se impõem à ambientação fantástica. De forma semelhante, a mistura entre cinema, literatura e realidade de “O lado da sombra” gera um clima de artificialismo e de irrealidade, e nele se desenrola uma história de amor, narrada em tom simultaneamente conradiano e proustiano. O fantástico se traduz, assim, em paródia de outros gêneros ou estruturas narrativas: a do conto de fada, por exemplo, é retomada em “A serva alheia”, a da crônica de costumes, em “A passageira de primeira classe” e a do relato político, em “O atalho”.

 

O alvo de Bioy – independentemente do caminho que escolha e das variações que produza no fantástico – é sempre a literatura. A imaginação, eixo da construção ficcional, atua para responder ao desacerto do mundo, que é pintado com cores ilusórias. Só que a resposta também é enganosa e desconcertante, constituída muitas vezes por meio de diálogos de Bioy com outros autores ou textos. Além dos já mencionados Conrad e Proust e da óbvia proximidade com Borges, os contos de Histórias fantásticas citam, entre tantos outros, Robert Browning, Jung, Cícero, Robert Louis Stevenson, Oscar Wilde, Somerset Maugham. As quatorze histórias também conversam entre si, com a permuta de personagens e de cenários. A ironia do narrador frente ao pedantismo caricato do personagem-escritor de “Histórias prodigiosas”, tão empenhado em impor seu mundo, reafirma o lugar da literatura e alerta os leitores ingênuos para que não acreditem que o que lêem é real ou que vêm necessária ou diretamente da experiência vivida.

 

Por isso, após ler essa coletânea, não é possível supor que foi o cãozinho cor de chá que justificou a presença do fantástico na obra de Bioy. Foi sua imensa erudição e seu interesse contínuo por temas científicos, por pesquisas e inventos, reais ou imaginários. Foi seu repertório literário que, afinal, fundou o universo que suporta sua obra. Foi o engenho por trás de cada uma de suas criações que, não custa lembrar, são ficção, e não transposição direta da realidade. São, como já destacou Octavio Paz, “uma possibilidade de percepção, lúcida e total, não apenas da irrealidade do mundo, senão da nossa: corremos atrás de sombras, mas nós também somos sombras”. Sombras de um mundo fantástico, que é repleto de razão e de um radical cerebralismo.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 14h19
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