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paisagens da crítica


Agora, recesso de final de ano.

A próxima publicação será no dia 10 de janeiro de 2007.

Até lá e muita alegria nesse tempo de festas!



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 15h35
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Vidas secas foi publicado em 1938 – quase setenta anos atrás. Não sei quantas vezes o li. Mas sei que fazia bem uns dez anos que não o pegava, não o abria. A bem da verdade, sempre que penso em Graciliano Ramos, o primeiro livro que me vem à cabeça é Angústia, meu preferido. Mas algumas coisas me fizeram reler Vidas secas e a escrever esse comentário que é – previna-se, leitor – um tanto pessoal.

 

Primeiro foi uma edição da Entrelivros, de novembro, que celebrou Graciliano. Depois, uma mesa redonda de que participei, também em novembro, em que me perguntaram qual autor do XX eu previa que virasse um clássico. Surpreendido pela pergunta, respondi quase sem pensar: Graciliano. E me dei conta de que talvez seja mesmo meu preferido. Finalmente, uma conversa sobre a cachorra Baleia. Foi com minha filha, que adora cachorras e baleias. Resolvi então ler para ela o capítulo da morte da Baleia, já quase no fim do livro. E Lia, um pouco assustada com o delírio da cachorra, reagiu com a sensibilidade de leitora que lhe é característica: “É, pai, é muito triste, mas é muito bonito”.

 

Achei, então, que estava na hora de reler Vidas secas. Busquei o livro na estante. Herdado de meu pai, edição da Martins, de 1964, com desenho de Clóvis Graciano na capa. Sentei-me na sala, com outra cachorra ao lado – que, uma pena, não se chama Baleia. E, de página em página, cheguei a constatações óbvias. Graciliano é fabuloso, Graciliano é mesmo um clássico, Graciliano foi nosso maior autor do XX. Era tanta obviedade que quase dava uma resenha para a Folha: só precisaria de umas pitadas de prepotência intelectual e algum palavreado hermético extraído de críticos franceses.

 

Mas era melhor deixar a prepotência e o hermetismo de lado e escrever para o blog. Deixar, também, qualquer pretensão de comentar de fato o livro, que já recebeu inúmeras análises de ótima qualidade, escritas por estudiosos de Graciliano. Restava, então, falar da leitura em si: da experiência do desfrute, do prazer do gesto, da angústia de cada página. Falar da economia fabulosa de palavras, da precisão de cada ponto e de cada vírgula, do ritmo preciso, da secura da trama – para que as vidas se refletissem nela.

 

Restava comparar com a prosa de ficção brasileira de hoje e lamentar quão longe estamos disso. Não, leitor, não é puro passadismo, nostalgia de tempos idos. É o reconhecimento de que, exceto por honrosas exceções, o romance brasileiro seguiu trilhas narcísicas – olha-se e só fala de si e do universo, geralmente restrito, em que circula.

 

Graciliano, não. Graciliano segue a máxima já meio batida de Octavio Paz: para ser universal, canta tua aldeia. Uma aldeia pequena, a de Graciliano. Num português despojado de invenções, constituído nos limites estritos da norma – a mesma que ele cobrava, de forma mal-humorada, dos textos de que era revisor. E aqui, leitor, não é defesa olímpica da norma culta, mas lembrança de que as palavras – já notava Aristófanes – pesam. E seu peso é imediatamente proporcional ao efeito que provocam, à concisão das estruturas frasais, à quase impossibilidade de troca por outras, mesmo que sinônimas das empregadas. E essa aldeia pequena, representada no texto essencial de Graciliano, ganha a universalidade da literatura que tem que ser lida por prazer e para ensinamento.

 

Por isso, leitor, o conclamo a deixar de lado o que já tinha reservado para ler nessas férias e buscar Graciliano. Não esquecerá mais desse janeiro. Uma pena que isso não passe pela cabeça de nossos jovens ficcionistas (e de muitos críticos): eles vão reler os próprios livros e os dos amigos; depois, vão escrever resenhas reciprocamente elogiosas, dizendo que nunca houve prosa tão incisiva. A Folha vai publicá-las, ao lado da lista dos melhores livros do ano, em que estarão todos representados. Mas você, leitor, saberá que eles devem ser perdoados, porque não sabem o que fazem, nem o que escrevem. Graciliano, nosso maior romancista do XX, sabia.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 15h34
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Os olhos de Saramago

a propósito de Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago

 

por Solange Mayumi Lemos

 

Um homem perde a visão em meio ao trânsito de uma cidade qualquer. Poucas horas depois, uma outra pessoa é tomada por uma espécie de “cegueira branca”. Depois outra. E mais outra.

 

A epidemia de cegueira que acomete a cidade (que está mais para Lisboa – ou outra metrópole qualquer – que a província de Ribatejo, onde Saramago nasceu) é o tema da obra, que vai além do mero fato e se constitui praticamente em uma parábola sobre os sentidos e as relações humanas.

 

Ficar cego é uma forma de tornar a ver, ou ver com os olhos da alma. Ver com os outros sentidos, ou, ainda, reaprender a sentir.  Como Paulo, de cujos olhos, após ter cegado no caminho de Damasco, caíram escamas. Ou, ainda, como Miguilim, o protagonista de Campo geral, que, num dos lances mais poéticos da prosa roseana, tem o seu reolhar o mundo – com as dores e perdas de um rito de passagem particular – simbolizado por um par de óculos que lhes são postos por um senhor (também) de passagem pelo Mutum. Significativamente, é alguém “de fora” que o ajuda a ver, ou ver de novo modo.

 

De outro lado, não ver o outro é dessignificá-lo. E o outro, sabendo-se não visto, cessa de envergonhar-se por seus maus-feitos e reifica o seu próximo, tornado distante porque não há mais a ligá-los o espelho dos olhos de um e de outro. Como nada significam um para o outro, sequer nomeiam-se mutuamente.

 

E por que o fariam? Porque nomear é uma forma de compreender, de apreender. Dito de outro modo, de ter sob controle. As personagens permanecem sem nome como se fôssemos convidados a conhecê-las por outras marcas que não as da distinção nominal, do título. Não há a protegê-las o bastião de um nome, de uma história, de uma herança; cobre-as apenas uma cegueira branca, que ilumina, como uma segunda chance. A própria cegueira é uma idéia revista – não lança em trevas: revela.

 

continua...



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 14h31
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continuação...

 

Somente uma mulher continua a ver, no sentido físico do termo. Por isso, passa a guiar os outros, vendo por eles, ao mesmo tempo em que assiste à miséria humana de pessoas reduzidas aos seus mais baixos instintos.

 

Contudo, a mulher não vê que lidera uma revolução, tão ocupada está em doar-se aos outros. Doa-se, junto com outras mulheres, para a sobrevivência de todos. Mesmo violada, não permite que algo se quebre dentro dela. Caminha em sua integridade no meio do inferno. Deixando de olhar para si, não se vê mais como indivíduo, como alguém com uma história particular; olhando para os outros, vê-se a si mesma como parte da humanidade inteira. Integra-a. Pertence-lhe.

 

Em alguns momentos, porém, a mulher terá preferido cegar como os outros, para não ser testemunha de tanta iniqüidade. Os outros, de seu lado, podem enxergá-la. Não é apenas uma voz – ela é esteio, a mão que guia, aquela que orienta, a que vê, a que antevê. Nunca foi tão bela, diz, como quem crê, uma outra que, no entanto, nunca a vira.

 

Quando a visão volta a todos, é ela agora quem vê um céu branco. Talvez por ter exercitado ao limite o postar-se no lugar do outro, talvez por ela mesma ser, ao fim de uma experiência tão singular, “iluminada”. Mas o temor da cegueira dura um momento: a cidade continua ali, diante dos seus olhos, como prova de uma existência que prossegue.

 

Embora não se perceba à primeira vista, certamente não é mais a mesma cidade, porque não são as mesmas pessoas a habitá-la. Viveu-se ali apenas com a essência das coisas – mesmo tendo sido algo passageiro, um alumbramento, sempre existem, para vivê-lo e vê-lo de novo (em que pese o paradoxo da afirmação, numa obra em que as personagens cegam quase todas), sempre existem, dizia, o déjà-vu, a memória. E os outros.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 14h31
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