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paisagens da crítica


Alguns dias de recesso.

A próxima publicação será na terça, 6 de fevereiro.

Até lá!



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 18h36
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Impurezas amorosas explora as possibilidades e os sentidos da crônica. Só por isso já merece uma leitura atenta.

 

Não faz muito tempo, a crônica estava presente nos jornais, nas revistas, assinada por Rubem Braga ou Paulo Mendes Campos, por Drummond ou Sabino. Hoje, quase não se escreve crônica, a não ser para falar de si mesmo, do último passeio com o filho ou de mais uma viagem à cidade natal. Claro que a crônica implica uma intromissão no narrador, mas o que importa nela é a capacidade de explorar o quotidiano, de imergir no presente – nos diversos presentes que freqüentamos. Fica a meio caminho entre o relato quase acidental e o lirismo que contamina – às vezes sem que percebamos – nosso dia-a-dia.

 

Talvez por isso Miguel Sanches Neto apresente essas Impurezas amorosas com a constatação de que a crônica fica “parede-e-meia com a poesia, o conto, a crítica e o aforismo”, que ela é uma experimentação da escrita, um “ponto de chegada” de sua literatura. E não é pouco. Sanches Neto, afinal, é um dos melhores escritores brasileiros da atualidade; não por acaso, esse blog já comentou três livros seus: a poesia de Venho de um país obscuro e os romances Um amor anarquista e Chove sobre minha infância. Um escritor desse nível, quando reconhece a universalidade da crônica, procura, na prática, resgatá-la do limbo em que foi posta nos últimos tempos e até da condição secundária que teve antes, em seus tempos áureos, quando era vista como gênero inferior, mesmo se saída da pena de Drummond ou Braga. Depreciação que levou o ótimo cronista Luiz Martins a lamentar, há mais de trinta anos, que fosse visto como escritor menor. Na contramão, Miguel resume: “Nela [na crônica], sou tudo (poeta, crítico, ensaísta, ficcionista) e ao mesmo tempo sou nada. Eis o cronista”, aquele que tira lirismo de pedra, descansa escrevendo, encontra o amigo.

 

E são muitos os encontros nessas Impurezas amorosas. Com o traço discreto e delicado – sem deixar de ser incisivo e ativo na interpretação da escrita – das ilustrações de Thaís Linhares, que acompanham cada texto e que justificam o subtítulo do livro: Crônicas ilustradas. Com o prazer da leitura e o mundo às vezes aflitivo dos livros que chegam pelo correio e se acumulam na biblioteca. Com o repertório de leitor, que permite revisar as afinidades eletivas de Goethe e reencontrar o lugar da fidelidade no reforço dos laços pessoais (“Fidelidade”). Com os pequenos episódios íntimos, que ganham conotação mais ampla quando situados cognitivamente (“38”, “Gente feliz”, “Dupla devoção”, “A outra jardinagem”). Com os rituais sociais, ironicamente mapeados, e seus significados um tanto obscuros (“Legião”, “Prolongando a praia”, “Visões do Paraíso”).

 

Há também a ironia, quase indignação, diante dos desvãos públicos e privados que provocam alterações, às vezes esdrúxulas, nas lógicas sociais (“Roubo de motos”, “A pequena arte”, “A revolução dos pêlos”, “Cardápio corrupto”). E se a crônica também exerce função crítica – uma crítica solta, mas não menos rigorosa, e sem vícios acadêmicos –, a corrosão de alguns comentários atinge o peito do leitor para que ele perceba que, nos dias presentes, muitas vezes “o curso universitário virou assistência social” ou que a sociedade se esgarçou tanto que a “Quadrilha” de Drummond se desdobrou de forma mesquinha.

 

Claro que podemos sair da leitura com um gosto meio amargo, provocado pelo tom nostálgico e decepcionado que as Impurezas amorosas muitas vezes revelam. Mas isso não nos impedirá de reconhecer que é porque a crônica nos fez pensar: recusou ser descartável. E que ela pode ser o lugar de chegada também para os leitores, que, nesses breves textos de Miguel Sanches Neto, encontram sua poesia e sua ficção, seu ensaísmo e seu romance.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 18h31
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