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paisagens da crítica


O comentário abaixo, sobre As asas da esfinge,

é o centésimo texto publicado neste blog.

Obrigado a todos que acompanharam tantos livros e tantas leituras!



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 07h59
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As asas da esfinge – le ali della sfinge – não é um título belo, como parece. É vil. Mas isso o leitor só descobre no final do décimo-primeiro romance de Andrea Camilleri que tem Salvo Montalbano como protagonista.

 

E não serei eu a revelar a razão da vilania por trás da beleza: que o leitor brasileiro espere a tradução, e ela deve tardar; afinal, as edições brasileiras das aventuras de Montalbano pararam – sabe lá San Calógero por quê – no oitavo livro. Restam, portanto três antes de Le ali della sfinge, que, por sua vez, é o penúltimo da série: o próprio Camilleri já disse que escreveria doze romances com Montalbano. E Ricardito, o último, sairá ainda em 2007, provavelmente em setembro.

 

Salvo Montalbano surgiu em A forma da água, de 1994, e se tornou um sucesso primeiro na Itália, depois, no resto do mundo. Camilleri, que começou a escrever romances com mais de 60 anos de idade (atualmente tem 80), passou a ser o escritor italiano com maior vendagem dentro e fora de seu país. Antes disso, construíra uma carreira sólida como diretor de teatro.

 

O cenário das histórias de Montalbano é Vigàta, que emula Porto Empèdocle, no sul da Sicília, a cidade natal de Camilleri. Os livros são escritos numa língua híbrida, que combina italiano com dialeto siciliano e com inúmeras intromissões da língua falada. Montalbano é um detetive estupendo, recheado de manias e marcas de um sicilianidade, nos moldes da metáfora explorada por Leonardo Sciascia, um dos muitos autores que o influenciaram. Sua linguagem inclui olhares e percepções silenciosas, ele caminha dentro do mundo clandestino da Máfia, sabe das coisas e dos modos da ilha.

 

Nesse décimo-primeiro romance, o Comissário Montalbano continua com as dúvidas dos últimos cinco livros. Sente-se envelhecer, não sabe que rumo dar ao longuíssimo namoro com Livia, uma genovesa linda e cada vez mais distante. Está, sobretudo, desanimado diante de um presente que parece levar a Itália – e o mundo – abismo abaixo. Diante de um comentário irritado de seu vice-comissário Mimì Augello – que, aflito diante da podridão do entorno, diz que preferiria ser Dom Quixote –, Montalbano resume sua visão da Itália berlusconiana: “Há uma diferença substancial, Mimì. Dom Quixote acreditava que os moinhos de vento eram monstros, enquanto estes aqui são monstros de verdade e se fingem de moinhos de vento.” Filosofia simplista, claro. Mas verdadeira, sabemos bem, mesmo em terras bem distantes da Sicília.

 

Não há de fato coincidência: o desconsolo de Montalbano é datado da chegada de Berlusconi, em 2001, ao poder. As novas leis, os políticos e chefes – tudo sugere obscuridade. A perseguição e os preconceitos contra os imigrantes – principalmente, os extra-comunitários –emergem nos jornais italianos, saídos da boca de ministros, e se manifestam nas vozes dos personagens que Montalbano deplora e que o fazem descrer de qualquer futuro. Mesmo sua ação abandona aos poucos a investigação e se torna um exercício de teatro, como ele mesmo destaca em diversas passagens de Le ali della sfinge. Seus dramas de consciência também superam – a cada livro, mais – a trama policial propriamente dita. Em alguns momentos, chegam a soar melodramáticos – como quando dois Montalbano discutem dentro de sua imaginação à deriva.

 

Apesar de tudo isso – e, talvez, por tudo isso – Le ali della sfinge não é um grande livro. É inferior ao anterior – La vampa d’agosto (O calor de agosto) – e aos cinco primeiros volumes da série. Talvez até faça pouco sentido, se for lido sem o conhecimento dos livros anteriores. Ou soe excessivamente imagético, com cortes narrativos que parecem mais do mundo da televisão ou do cinema do que da literatura – não custa lembrar que os livros são transpostos para a tela e geram telefilmes de ótima qualidade e audiência impressionante.

 

Mas é interessante notar como Camilleri deu a Montalbano a função de antena dos tempos vividos. E o mundo criminoso por onde circula reproduz, no mesmo ritmo, as tramas sórdidas dos bastidores políticos. É como se Camilleri nos lembrasse que a Sicília, que já foi da Máfia, agora é atormentada por poderes formais e legais. E isso foi, creia-se, uma piora: não se perdeu a vilania clandestina; a ela se incorporou a oficial. Não há como não viver em desconsolo.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 07h55
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Melhores contos de Domingos Pellegrini ajuda paulistas e cariocas a lembrarem que existe literatura brasileira boa – muito boa – fora das duas cidades. Claro que não é uma novidade, mas a arrogância de uns e de outros faz com que ocasionalmente esqueçam disso.

 

Trata-se de uma antologia do escritor paranaense, organizada por outro paranaense, Miguel Sanches Neto. Algo essencial no caso de Domingos Pellegrini, uma vez que vários de seus livros estão esgotados há tempos. A coletânea percorre quatorze textos e mais de vinte anos de produção literária, privilegiando, por trás das inevitáveis metamorfoses por que todo autor passa, três eixos contínuos: as metáforas da terra, a percepção das tensões, os contextos aflitivos. São preocupações sempre presentes em Domingos Pellegrini, seja na década de 1970 – quando sua militância política implicava um esforço de engajamento direto e imediato –, seja no lirismo reflexivo dos escritos mais recentes ou das reescrituras das histórias antigas.

 

Porque independentemente do tempo ou da ocasional politização da ficção, é constante, em Pellegrini, o diagnóstico de tempos difíceis, representados num realismo recheado de conflitos, de cromatismo e de terra – roxa ou vermelha como a do norte do Paraná, onde transcorre a maior parte dos contos. O conflito pode estar no ambiente doméstico, como em “Gente grande”, que mapeia a crueldade, aparentemente gratuita, das relações mesquinhas de que um casal em crise é capaz. Resta às crianças construírem cidades de mentira enquanto o mundo ao redor desaba, enquanto os pais se corroem reciprocamente. Mas o desmoronamento da família de classe média – outro tema regular em Pellegrini - não se manifesta apenas na face sombria das discussões; manifesta-se também (e principalmente) na capacidade de persistência de uma esperança infantil, ingênua, mas positiva, que Pellegrini traduz na metáfora suave dos boizinhos de miolo de pão que o filho e a filha insistem em manter em pé.

 

O mesmo contraste entre realismo brutal e delicadeza remanescente aparece em “O último porco”, história de aparência brutal. O avô descreve aos netos, detalhadamente, o ritual de matar e destrinchar um porco, sua incumbência de todos os Natais em família e que ele aprendeu nos tempos de tropeiro. Através das entranhas do porco se tece uma história de ousadia e de conquista, de desbravamento de terras e de riscos. As crianças escutam fascinadas e percebem que matar um porco pode ser mais ritualístico do que a espera do Papai Noel. O que era rude fica delicado. Mas é claro que a capacidade de concessão de Pellegrini não chega às últimas conseqüências e o final da história troca a delicadeza pela mesmice e por uma brutalidade de outra ordem: a das relações familiares frias e formais, pragmáticas e artificiais – algo que, talvez por nos ser mais costumeiro, não parece, à primeira vista, tão duro. Mas é.

 

Do mesmo jeito, são belas e terríveis as sagas dos passageiros e condutores de “A última viagem” ou dos caminhoneiros presos no “Encalhe dos 300”, talvez a história mais conhecida de Pellegrini e um de seus contos mais vertiginosos, narrado dia-a-dia, alterado da primeira versão – mais politizada – para a atual, mais (digamos) lírica. A aflição da prisão na lama se transforma, aos poucos, em confraternização, em conscientização, em carnaval (carnaval literal: quando chega por lá uma prostituta), num intervalo da vida desmistificada das estradas.

 

Nesses e nos demais contos, Pellegrini segue suas viagens por um interior que já foi pródigo, mostra um mundo que acabou e registra seu obituário com alguma descrença de que tenha sido substituído por algo melhor. É preciso lê-lo – seja você, leitor, paranaense, paulista, carioca ou qualquer outra coisa...



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 09h37
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