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paisagens da crítica


Paisagens da Crítica ultrapassou, ontem, a marca dos 20 mil acessos.

Obrigado, sempre.

E agora uma semana de recesso:

a próxima publicação será na terça, dia 10 de abril.

Até lá.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 09h46
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O sol se põe em São Paulo deixa várias questões difíceis de responder. Não apenas as que o livro suscita com seus jogos literários, mas também outras, derivadas da leitura e, digamos, um tanto digressivas. A primeira – e talvez mais inquietante – é por que exigimos de um ótimo autor que seja sempre um ótimo autor, de um bom autor que seja sempre um bom autor e, ao mesmo tempo, somos capazes de celebrar um livro mediano de um autor por quem não dávamos nada? Ou, em termos mais concretos e exemplares, por que García Márquez não teria direito de escrever uma narrativa diluída e repetitiva como Memórias de minhas putas tristes? Por ter escrito, antes, um livro vertiginoso como O amor nos tempos do cólera? Por que Bernardo Carvalho, autor de O sol se põe em São Paulo, não pode escrever um livro tão inferior a Nove noites ou a Mongólia? Por que dele se cobrará sempre um nível que nunca se pedirá, digamos, a Marçal Aquino ou – exemplo radical – a Marcelo Rubens Paiva?

 

A questão pode, à primeira vista, parecer vaga e meramente retórica. Não é. Ela trata dos critérios e do estranho relativismo que nos leva a dosar as críticas e balanceá-las conforme as possibilidades e as qualidades antes mostradas. Ela indaga se é justo estabelecermos uma hierarquia enrijecida, colocarmos certos autores e livros em degraus altos e, depois, exigirmos que eles se mantenham no lugar que, de forma um tanto arbitrária, mas (espera-se) criteriosa, lhes atribuímos. Porque O sol se põe em São Paulo não é ruim – se eu o escrevesse me orgulharia do feito por toda a vida –, mas é tão difícil compará-lo a Mongólia que a reação imediata do leitor é a de rechaçá-lo.

 

Talvez o dilema, afinal, não seja assim complexo e a resposta mereça maior contextualização. Talvez valesse mencionar que a ficção brasileira anda mal das pernas. Há bons autores, claro, mas eles se perdem em meio a uma miríade de narradores banais, de livros inexpressivos, recheados de arrogância acadêmica ou jornalística, de clubismos e amizades influentes, de falsas polêmicas e de oportunismos de várias cores, ideologias e financiamentos. Nesse meio – que para o leitor é hostil – um livro de autor sério e qualificado, com bons antecedentes, causa expectativa. É isso que nos faz contar os dias que faltam para o lançamento do próximo romance de Milton Hatoum, por exemplo. É isso que nos faz aguardar com ansiedade um livro de Bernardo Carvalho. Ou seja, não se trata apenas de uma exigência genérica, mas de uma necessidade conjuntural.

 

E O sol se põe em São Paulo decepciona. Sua proposta é ambiciosa, apesar de partir de um lugar-comum (ou exatamente por isso: parte de um lugar-comum com a ambição de superá-lo): o do personagem-narrador-escritor que fala da escritura do próprio livro, num exercício meta-tudo, que constata que no princípio (ou na primeira frase) era o verbo e que o mundo (ou o que nele se imagina) foi feito para acabar em livro – para contar, após vários giros do cristal narrativo, a sua mesma e única história. A essa trama auto-referente acrescentam-se outros procedimentos inevitáveis: a citação insistente de inúmeras obras e incontáveis autores e a ambientação soturna, referência de suspense mais cinematográfico do que livresco, em que os fios da narrativa literária se cruzam com outros, ampliando o tecido. O recurso intencional aos clichês – a começar pelo contrastante Japão de tecnologia e tradições, trágico e farsesco - também acentua a artificialidade do jogo histórico e ficcional proposto: passado e presente se combinam e divergem, se reúnem e contrastam, ameaçam e consolam. Tudo é farsa, indica Carvalho, ao circular pelo teatro japonês ou pela mitologia de cidades insalubres.

 

Com o cuidado e o critério de quem sabe escrever um romance, ele coordena todos os fios do mosaico cujo instável pano de fundo é São Paulo, representada mais na ausência (afinal, pelo acúmulo de identidades chega-se ao vazio identitário) do que pela presença. Tudo é calculado para que não nenhuma peça falte ou sobre, nem pareça deslocada. Calculado milimétrica e excessivamente, sugerindo que a demonstração do repertório e o domínio técnico da narrativa prevaleçam sobre a história em si, que é esvaziada - talvez para remeter a um mundo de homens ocos, de vidas fracassadas, de passados dissolvidos, de futuros impalpáveis. Artifício da razão que poderia evocar Poe e Borges ou, para ficar numa referência mais próxima ao livro (e explícita), Sebald. Mas, à diferença de Borges, de Poe ou de Sebald, esse artificialismo parece carecer de vida, de intensidade, de vigor – quase de imaginação.

 

É claro que, ainda assim, é um livro superior à maioria do que se produz na ficção brasileira atual, menos ilustrada, sofisticada e complexa do que o jogo de aparências esculpido por Bernardo Carvalho desde a sonoridade bonita e exageradamente explícita do título. Mas – e essa é uma resposta à pergunta inicial desse comentário – nós, leitores de Mongólia, podemos e devemos exigir mais.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 09h43
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