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paisagens da crítica


Era uma vez o amor mas tive que matá-lo é ruim. Ruim mesmo. Ruim de amargar, diria meu avô. E, ao mesmo tempo, é um mistério, porque vende muito bem e seu autor, o colombiano Efraim Medina Reyes, é tratado como grande escritor. Ou talvez seu sucesso nem seja tão misterioso assim, se considerarmos como a iconoclastia fútil de parte da literatura atual e sua ingênua crença num realismo cru e de cores berrantes cai bem no pretensioso gosto de uma pretensiosa elite intelectual.

 

Mas vamos por partes, como diria o esquartejador – para usar uma frase que é, simultaneamente, banal, engraçadinha e bruta, bem ao estilo do romance comentado. Medina Reyes faz parte de uma geração de escritores hispano-americanos – gente em torno de 35, 40 anos ou até um pouco mais – que já foi chamada de “realismo urbano”, para sugerir uma reação ao “realismo mágico” dos anos 1960. Uma espécie de volta à vida passada nas ruas das grandes cidades, sem mistificações e saídas fabulosas. O próprio Medina Reyes já observou que, no país dele, as pessoas voam pelos ares vítimas de bombas, e não de esconjuros, destacando ironicamente a diferença que o separa, por exemplo, de Gabriel García Márquez. García Márquez, aliás, é o bode expiatório de todos os males que Medina Reyes vê na literatura que o precede; daí chamá-lo pelo afetuoso epíteto de “García Marketing”. Para Medina, dele derivou um conjunto de representações simplificadas e diluídas que associaram, aos olhos do mundo todo, a América Latina a um universo de magias e possibilidades de ultrapassar a realidade imediata. Bem... Ele não está totalmente errado. É verdade que o realismo mágico se tornou um rótulo insuportável e um grande patrocinador de autores e de textos medíocres, disseminados pelas livrarias como uma nuvem de gafanhotos. No entanto, a culpa não é, lógico, de García Márquez, cuja obra – diferentemente da de muitos de seus seguidores – não é uma bobagem. Podemos gostar ou não de seus livros, podemos nos sentir mais ou menos próximos dos mecanismos de representação a que recorre (eu, confesso, hoje me sinto distante), mas é impossível desconsiderá-la literariamente e a tomar apenas como estratégia de marketing.

 

Mas Medina não recusa só García Márquez; rejeita toda tradição literária. Mais de uma vez, repetiu que lê pouco ou nada, que não conhece nem se importa com Shakespeare ou com Cervantes. Que aprendeu a escrever enquanto assistia à Jornada nas Estrelas e quando sentia, no coração, a traição de suas inúmeras namoradas ou, na carne, os socos que recebeu nos ringues de boxe ou as facadas que levou na rua. É quase inevitável enxergar algum ar de artificialidade nessa iconoclastia, que sugere futilidade – no mínimo – ou se assemelha a uma... estratégia de marketing. Impressão que aumenta quando notamos que seus livros não são publicados por pequenas editoras alternativas, mas por uma das maiores do mundo – ou seja, o sujeito que se pretende marginal ao capitalismo e a seus mercados está solidamente fincado no centro.

 

Nada disso teria importância, porém, se os livros fossem bons. Cada um, afinal, divulga sua obra e constrói sua persona pública como bem entende. Mas, já disse, eles são ruins. Era uma vez o amor mas tive que matá-lo é muito parecido com os anteriores, inclusive com seu maior sucesso de crítica e de público, Técnicas de masturbação entre Batman e Robin. Em todos, o emprego de frases breves e cortadas, de personagens neuróticos e abandidados, de metáforas que pretendem surpreender. Sim, quase cem anos depois das vanguardas do início do XX, ainda há quem acredite que a função da literatura é “chocar o burguês” – o mesmo burguês que estimula o filho a falar palavrão “porque homem é assim”, que vê sangue à vontade no C.S.I., violência na capa do jornal e mulheres peladas de sobra na novela. Ele se choca com Medina Reyes? Acho difícil. Ele ri, se diverte.

 

As referências insistentemente repetidas em sua obra vêm da música pop e do rock (claro que Medina Reyes tem uma banda, de que é baixista e principal compositor) e resultam numa espécie de Shrek sem graça, em que o cinismo ininterrupto, a violência própria de um ogro e os estereótipos de uma suposta “cultura jovem” fazem com que se esqueça que existe vida e história e que se tome a paródia por inevitável e como solução. Realismo?

 

O pior é que Medina não é o único, nem na América Latina, nem no mundo. Pensemos no celebradíssimo francês Michel Houellebecq e em tantos brasileiros que vendem feito água – e que fazem uma ficção aguada. E então percebemos que não há mesmo mistério em seu sucesso: nada melhor, afinal, do que um entretenimento a que a crítica tantas vezes festiva e ignorante considera, digamos, “cult”. E que permite que escapemos da realidade e nos refugiemos num mundo de chavões e de códigos pré-estabelecidos ao mesmo tempo em que criamos a ilusão – para os outros e para nós mesmos – de que a estamos encarando de frente. Tristes tempos, tristes livros, tristes leitores.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 09h05
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Borges mostra que Adolfo Bioy Casares, além de grande escritor, era um homem meticuloso. Mantinha um diário e nele anotava seus encontros literários e as conversas com amigos. O maior e mais conhecido desses amigos era Jorge Luis Borges. Exatamente as anotações relativas a Borges no diário foram reunidas e editadas num volume que assusta pelo tamanho: quase 1.700 páginas. O responsável pela edição é Daniel Martino, que as apresenta num breve prefácio e ainda inclui uma cronologia da relação literária entre os dois maiores escritores argentinos do século XX.

 

São 68 anos de anotações, entre 1931 e 1989. O maior volume, porém, é do período 1956-66, época em que se encontravam quase diariamente. Borges morreu em 86, mas Bioy dedicou comentários a ele por mais três anos: boas lembranças, dúvidas sobre seu desejo de ser sepultado fora da Argentina, lamentos pelo relativo afastamento nos últimos tempos.

 

O diário mostra algo da gênese dos textos escritos em parceria, desde os mais celebrados – os casos de Don Isidro Parodi, publicados originalmente sob o pseudônimo de Honorio Bustos Domecq – até os menos conhecidos, como os roteiros El paraíso de los creyentes e Los orilleros. Era sobretudo por divertimento que Bioy e Borges se fechavam no escritório e riam às gargalhadas enquanto escreviam, mas isso não impediu que saíssem histórias fabulosas.

 

Também é muito interessante acompanhar as leituras que ambos – às vezes com outras companhias, além da óbvia presença de Silvina Ocampo, mulher de Bioy – faziam juntos, em voz alta, seja pela cegueira gradativa de Borges, seja pelo prazer do desfrute conjunto. Circulavam, pelas noites da casa de Bioy, autores clássicos, sobretudo da literatura em língua inglesa, e recentes. Bioy e Borges liam e reliam os originais das antologias que juntos editavam: narrativas fantásticas, policiais, gauchescas. Toda leitura, anota Bioy, era seguida de comentários dos presentes – quase sempre em tom de brincadeira ou ironia.

 

Os julgamentos literários que faziam eram implacáveis e, deles, emerge um Borges que muitas vezes soa agressivo; em outras, prevalece seu humor: duas faces que o leitor normalmente desconhece. A agressividade quase obsessiva de Borges contra alguns escritores ou contra certos estilos dificilmente transpôs o espaço da intimidade. Quando Borges criticou por escrito, o fez com a habitual sobriedade e com argumentação que podia até ser insólita, mas jamais era deselegante ou irracional. Aqui, no mundo (quase) doméstico, ele deixava a fera falar. Também é raro vermos imagens risonhas de Borges, mas o riso lhe era muitíssimo habitual. Nos diários de Bioy sue riso corre solto, ainda que embalado, ocasionalmente, pela angústia de tempos sombrios públicos (o peronismo, claro, é o maior exemplo) ou privados (como a turbulenta separação judicial).

 

Bioy anota também algum ciúme de Silvina em relação a Borges e as tensões – que se transformariam, depois, em intrigas de parte a parte – em torno de María Kodama, secretária e futura mulher de Borges. Revela, ainda, seu desprezo por outros parceiros literários de Borges e as relações ocasionalmente tormentosas com os editores nacionais e estrangeiros que publicavam seus livros.

 

Mais do que os desconfortos, porém, em todas as páginas vê-se o testemunho privado de uma intensa amizade literária e pessoal. Nós, leitores na espreita, aproveitamos a chance e espiamos pela fechadura da confortável casa dos Bioy para nos deliciarmos com as inconfidências e com o fascínio da intimidade elegantemente revelada.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 07h59
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