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paisagens da crítica


As sementes de Flowerville lembra a história de um arquiteto brasileiro que foi, há muitos anos, convidado a projetar uma cidade na Índia. Aceitou o trabalho, mas não quis conhecer o lugar da construção. No seu sonho racional, o planejamento independia das circunstâncias que a vida (clima, relevo e tudo mais) traz. Na sua ilusão lógica, a intencionalidade sempre abole o acaso. Talvez Peçanha, de As sementes de Flowerville, pensasse assim. Ele construiu um majestoso condomínio – Flowerville – que se impôs à cidade (que virou “Cidade Velha”) e que é dirigido por ele mesmo com mão de ferro e, principalmente, olho de lince, para que nada escape à utopia vigiada que concebeu, para que o acaso não interfira no quotidiano repetitivo de uma classe média enfastiada diante da realidade e temerosa dos perigos de uma vida exposta.

 

Peçanha é um empreendedor. Self made man (para usar o inglês que ele adora salpicar no meio das frases) convicto e vaidoso, foi, na juventude, um jogador inveterado e um tremendo mulherengo. Agora, com terno e cabelos brancos, continua mulherengo. Tanto que mantém adolescentes em seu escritório caso bata a vontade de um sexo oral – e bate toda hora. Não freqüenta mais as mesas de carteado, mas manteve o hábito do jogo: suas ações atingem a todos, a política emula o pôquer. Peçanha adora riscos, principalmente quando a cabeça a prêmio é a alheia. Daí o trocadilho: Peçonha.

 

Seu único fracasso, admite, foi Nova Esplanada, que fica além dos muros de Flowerville e logo depois do ferro-velho. Era para ser um conjunto de casas agradável e arborizado, mas o solo infértil e a interferência do real (com um dos traços que mais desagradam a Peçanha: os pobres) impediu. Só sobraram duas casas habitadas. Numa delas moram Neumani e Nora; na outra, Mirândola, que conheceu Peçanha desde pequeno. Sabe que sua ascensão foi temerária e corrupta, contando com o apoio de militares de alto coturno, quando eles eram poderosos – ecos de um passado militar. Peçanha ofereceu o pouco que tinha – um local para tortura – e ganhou tudo que queria.

 

Neumani detesta Peçanha, mas não resiste a uma peçonhenta oferta de emprego: criar uma fórmula matemática para a “democracia ideal”, a ser implantada em Flowerville para garantir que os votos não tenham o mesmo peso; pessoas melhores valeriam mais do que as insignificantes. Mais um sonho racional de Peçanha: medir a diferença humana para que o futuro, espera Peçanha, seja melhor ainda. Só que, a bem da verdade, ninguém se preocupa muito com ele. Sinistro e nebuloso, como nas mais sombrias utopias que o cinema e a literatura já produziram, esse futuro é recheado de fantasmas passados. Cada um tem o seu. Inclusive Boaventura, general-de-pijama e agora chefia o sistema de vigilância e informação de Flowerville  e ainda procura a guerrilheira que um dia torturou e por quem, no outro, se apaixonou. Nem Mirândola, que não esquece o corpo cruelmente torturado no subterrâneo do posto de gasolina de que era sócio. Nem Nora, que diariamente escreve sobre Teodoro, filho que, anos atrás, morreu no sétimo mês de gestação e nunca a abandonou. Muito menos Neumani que viu sua vida se esfarelar como o solo da Nova Esplanada.

 

Para todos, o futuro é um “fiapo de ficção”, o passado é outro. A suntuosidade vulgar da torre de onde Peçanha vigia pode até parecer real, mas real mesmo é a indigência de quem mora na Cidade Velha, no ferro-velho, na Nova Esplanada. Por isso o passado atormenta e o futuro se esvazia. Por isso Peçanha não quer ter filhos: não quer deixar a ninguém o legado de sua peçonha.

 

Mas um lance de dados – alguém já disse isso – jamais abolirá o acaso. A geometria modernista e precisa de Flowerville, tampouco. Ninguém sabe o que nascerá de suas sementes, anunciadas por um anjo-garotão e que conseguem escapar da lógica tirânica do futuro regrado, do panóptico de Peçanha, do triste racionalismo moderno. Pode ser pouco, mas faz com que lembremos que, a despeito do sonho da razão querer produzir monstros, ainda existe a vida real, sem mistificação e com resíduos de liberdade.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 08h33
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