Add to Technorati FavoritesTechnorati Profile paisagens da crítica - UOL Blog
paisagens da crítica


A cor do solIl colore del sole – reafirma a incrível capacidade que Andrea Camilleri tem de surpreender o leitor. É mais um romance histórico, e agora ambientado no princípio do século XVII. Mas, a bem da verdade, não é um romance histórico. Melhor: talvez sequer seja um romance. Essa é uma das muitas (e boas) confusões do livro. Há outras.

 

Por que não dá para considerar que A cor do sol seja um romance? Porque o livro é um conjunto de fragmentos de um suposto (e desconhecido) diário de Caravaggio, que chega às mãos do escritor. Não há, pelo menos aparentemente, linearidade nos trechos citados. São organizados em função do local em que foram redigidos pelo pintor: Malta, Girgenti e Licata, Siracusa, no caminho para Messina, Messina, Palermo. O próprio narrador tem dúvida se o manuscrito que leu é um diário. Prefere considerá-lo um conjunto de anotações de Caravaggio para a redação futura de um memorando de sua viagem às ilhas. Para ele, narrador, Caravaggio não era homem de escrever diário, de dar (e se dar) conta de suas andanças. Ou seja, o texto não é linear e vem de um diário que não é bem diário.

 

E sobre o narrador temos alguma certeza? A princípio, sim, e essa é outra surpresa do livro. Pela primeira vez Camilleri se faz personagem e narrador. Afinal, tudo começa numa viagem que faz a Siracusa para assistir a uma montagem teatral. É, portanto, o Camilleri-diretor de teatro, homem famoso que atrai jornalistas, pesquisadoras e um estranho e mal-cheiroso personagem, que se senta a seu lado no teatro e coloca em seu bolso um bilhete enigmático. Ele só o descobre depois, já no hotel. O bilhete lhe pede, sem maiores esclarecimentos, que telefone para um determinado número. No dia seguinte ele liga, e explica ao leitor por quê: pela curiosidade que a “deformação profissional” de escritor de narrativas policiais lhe trouxe. Logo, é o Camilleri-romancista que segue a pista misteriosa... E ela o leva, com requintes de suspense, ao suposto manuscrito de Caravaggio, que lhe permitem consultar por algumas horas. Ganha, ainda, o direito de transcrever o que desejasse, desde que se restringisse ao tempo determinado. Empolga-se e copia bastante, mas – reconhece – sem critério. Meses depois, já de volta à sua casa em Roma, retoma as anotações e, após alguma hesitação, as organiza e publica. Resumindo: o autor vira personagem, que vira copista, que vira narrador, que vira organizador, que vira editor – tudo numa corrente meio fantasmagórica, repleta de telas, personagens e livros desaparecidos ou clandestinos. O próprio Caravaggio, por sinal, teria escrito seu diário em fuga, depois da famosa condenação à morte que recebeu.

 

Essa figura híbrida de que o autor se traveste replica o hibridismo da trama, em que possuidor e redator do manuscrito se movimentam em paralelo, em que cidades desconectadas são postas em relação de continuidade, em que o não-linear passa a ser contínuo, em que o estranho e o fabuloso se tornam plausíveis, em que o não-romance ganha ares romanescos...

 

Não é a primeira vez que Andrea Camilleri simula documentos e extrai deles o clássico efeito de verossimilhança que agrada tanto aos leitores e que provoca contrastes e imbricações entre verdade e falseamento, entre presença e ausência. Em O desaparecimento de Pató (La scomparsa di Patò, de 2000 – infelizmente não traduzido no Brasil), por exemplo, toda a trama é montada a partir de documentos de inúmeras origens e tipos, que incluem personagens reais e os combinam com outros, ficcionais. Mas A cor do sol vai mais longe, ao tornar mais sucinta e fragmentária a narrativa, ao construir fios invisíveis que articulam e suportam a trama, ao deslizar para o campo da falsa ensaística e das atribuições errôneas, nos moldes borgeanos. Confirma, dessa forma, a disposição de Camilleri de rever as matrizes da própria obra e de confundir o leitor, que espera mais um de seus policiais e é assombrado por enigmas muito mais complexos do que os dos crimes: o da escrita e o da verdade, o da simulação e o da representação.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 11h49
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Fidel Castro – Biografia a duas vozes tem uma voz só – a do próprio Fidel. A outra, de Ignacio Ramonet, editor do Monde Diplomatique, é um eco, que ressoa e amplifica. E sabemos que a voz de Fidel, tradicionalmente, não prima pela capacidade de síntese: talvez por isso o livro tenha 624 páginas. É equivalente a seus famosos discursos, que chegaram a ter mais de 12 horas.

 

O livro tem a intenção clara de ser um testamento político de Fidel. Ramonet – para usar uma metáfora ao gosto de um amigo de Fidel que mora em Brasília – levanta a bola na boca da pequena área (ou, em bom português, na zona do agrião). E Fidel não se faz de rogado, fala. Sobre todos os assuntos que você, leitor, consiga imaginar. Repassa sua vida desde a infância, analisa os rumos da política cubana, avalia o significado da revolução que liderou. Projeta o futuro de Cuba e é implacável na constatação do sucesso do governo que conduz há quase cinqüenta anos – o mais longo na história da América Latina. Também não deixa dúvidas quanto ao mundo de hoje, em que, segundo ele, “o capitalismo morreu”. Cuba, declara, é uma democracia – não no “perverso” modelo liberal, mas expressão direta da “vontade do povo” cubano, organizado “voluntariamente” dentro do único partido existente.

 

É claro que Fidel tem que dizer tudo isso. Estranho seria se, às portas dos oitenta anos (quando concedeu, por dois anos, as entrevistas), resolvesse fazer algum tipo de autocrítica. Estranho é que Ramonet, um jornalista honrado, se preste ao papel de hagiógrafo, elevando Fidel à condição de libertador social e de liderança suprema do século XX. Claro, também, que Ramonet não é o único a insistir, num tom que repete a década de 1960, numa leitura esquemática da revolução cubana e da ditadura que ela gerou. Porque nos anos 1960 e em parte dos 1970 o cenário político interno e externo à América Latina quase obrigava ao maniqueísmo: ou se estava do lado de Cuba, do socialismo soviético e de uma ilusão de transformação social, ou se estava com o “imperialismo ianque” e com os militares terríveis que controlavam os estados latino-americanos.

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, falou Camões. Mas uma parte do mundo, que inclui o Brasil, prossegue em sua lógica binária e leva pessoas sérias a (ingenuamente? Não, acho que não) defenderem tudo que se opõe (ainda que apenas na aparência) aos Estados Unidos. Mesmo se esse “tudo” for um militar que tentou chegar ao poder pela via golpista e, depois, estrangulou as instituições políticas venezuelanas. Mesmo se esse “tudo” for o Fidel que, na contramão da mensagem libertadora (que havia, sim, na revolução cubana), constituiu um regime opressivo e destruiu, entre tantas coisas, a fabulosa literatura de Lezama Lima e de Virgilio Piñera. Que perseguiu e persegue homossexuais e não tolera oposição. Lógico: Fidel nega tudo isso. Se diz marxista desde o princípio dos anos 1950, quando era militante do Partido Ortodoxo (de proposta francamente liberal) e quando participou (em 53) do famoso ataque ao quartel de Moncada, cujo manifesto não contém qualquer conceito ou categoria marxista.

 

É, os homens fazem a história como querem. E Fidel, com a entusiasmada anuência de Ramonet, faz sua própria história ou tenta fazê-la como quer. Precisaria haver uma outra voz (segunda, terceira), que pudesse contestar, contrastar. Até porque história – história mesmo – não pode ter uma voz só. Taí, tive uma idéia: por que alguém não escreve uma biografia de Fidel a duas vozes? Puxa... Acho que vou escrever para o Monde Diplomatique e ver se alguém lá não quer fazer isso!



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 18h45
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
Outros sites
  Centro de Estudios y Documentación Jorge Luis Borges
  The New York Review of Books
  Mario Vargas Llosa
  Virgilio Piñera Llera
  Andrea Camilleri
  Leonardo Sciascia
  A poesia de Frederico Barbosa
  Daniel Piza
  Céu acima. Para um 'tombeau' de Haroldo de Campos
  Impressões de fevereiro
  Café D'Avó
  alhos, passas & maçãs
  EntreLivros
  Miguel Sanches Neto
  Cara a tapa
Votação
  Dê uma nota para meu blog