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paisagens da crítica


Istambul entra na nossa veia, circula por todo o corpo e nos entorpece. Nos sentimos na cidade que já foi Constantinopla, que esteve no centro do mundo. Nos sentimos na pele turca de Orhan Pamuk. Nos orgulhamos de um passado suntuoso e vivemos a dura sensação de que tudo que era não é mais.

 

Se um livro nos oferece tudo isso – essa capacidade de circular no tempo e no espaço, de se vestir do corpo do autor – do que mais precisamos?

 

Istambul é a autobiografia de Pamuk, que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 2006. Mas Istambul, como o próprio autor define, não é exatamente uma autobiografia. Ele recupera sua infância e formação escolar, as relações familiares e o quotidiano passado. Mas há uma hora, lembra Pamuk, em que a porosidade da memória dramatiza em excesso e não deixa que afirmemos que de fato vivemos o que pensamos que vivemos. Quanto do que recordamos – esse verbo que tem cor, coração, no centro – foi mesmo real? Ainda mais quando o narrador se sente imerso numa cidade que é quase só passado, que vive da glória antiga e na extinção do presente?

 

Em Istambul – o livro – tudo desaparece: o pai some de vez em quando, a mãe se ausenta sem explicações, o próprio menino-autor se perde. Em Istambul – a cidade – tudo se desfaz, tudo é ruína. Resta só, e sempre, a “melancolia compartilhada”, sensação saturnina, segregada pela bílis negra que o baço produz e contamina o corpo do narrador, corpo humano & urbano.

 

E a memória pessoal perde sua concretude (se em algum momento a teve) e especificidade para evocar o passado coletivo, para traduzir – obviamente com engano – a memória dos outros, a memória que exagera feitos de outrora, a memória que se vale do efeito de real, mas é toda ficção, levada acima e abaixo pelo movimento contínuo do Bósforo.

 

O esplendor imperial da Istambul anterior à Primeira Guerra se perdeu. O Edifício Pamuk, onde o autor passou a infância e mora, se deteriorou. O Bósforo prossegue. Porque Pamuk percebe, depois de tanta lembrança, que toda a tristeza da cidade e a sua própria estão no estreito – esse rio heraclitiano que, como o passado, vira, mexe, transforma, transtorna e é sempre diferente sem deixar de ser o mesmo Bósforo representado nas fotos em preto-e-branco, que aludem ao velho, que se prestam à introspecção, ao ensimesmamento, à necessidade de reinventar a cidade para inventar-se no presente e cumprir os rituais dificultosos de pertença e contigüidade.

 

Istambul em Istambul é um retrato na parede, uma foto no álbum, uma paisagem desbotada na janela – mas como dói. Fala de uma ausência assimilada, diria Drummond, e essa ausência, ninguém a rouba mais de Pamuk. Nem do Bósforo.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 16h54
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Territórios dispersos é uma dissertação de mestrado. Isto quer dizer que é um estudo com pretensão à objetividade, à frieza analítica e – por que não? – eivado do orgulho e da arrogância tão próprios do nosso mundo acadêmico, certo? Não, errado. Bem errado.

 

Não há, nas quase duzentas páginas do livro de Annita Costa Malufe, nenhum traço do ascético distanciamento crítico que enche as prateleiras dos bancos de teses e as páginas da maioria dos suplementos culturais de nossos jornais. Por isso, pode despir-se, leitor, de seus preconceitos – mesmo se eles forem razoavelmente justificados por 90% do que se faz na universidade brasileira.

 

Porque Territórios dispersos é o inverso de tudo isso. Seu texto é quente, emocionado. A poética de Ana Cristina Cesar é mais do que o objeto de estudo. É um calor que contamina a escrita de Annita e a move. Claro que, ao abrir seu texto para a influência da autora que estuda, Annita correu o risco de perder o rigor intelectual e a precisão de leitora. Poderia ter desandado para uma celebração ilúcida da poeta, cuja vida e obra quase inevitavelmente atordoam o leitor. Mas Annita se equilibrou no fio tênue do exercício intelectual rigoroso e da assimilação da dicção aflita, tensionada, de Ana C.

 

Para completar o exercício crítico, Annita fez uma opção ainda mais temerária, a de enredar-se na filosofia desconstruidora de Deleuze e de Guattari, autores que normalmente provocam calafrios nos leitores comuns por seu hermetismo e alguma tendência à esterilização teórica. Mas também aí Annita não se perdeu, nem provocou curto-circuito crítico. Ao contrário, assimilou mais esse repertório, conciliou à sua própria fala, o fez apoiar a reeleição de afinidades literárias e teóricas em Ana C.

 

A pergunta que você, leitor, talvez se faça – e que eu me fiz, página a página, na leitura de Territórios dispersos – é como essa combinação deu certo. Li, reli, revirei o livro e demorei a encontrar a resposta. Demorei, acho, porque a resposta era óbvia. Mas era simples e complexa como a poética de Ana C. Deu certo porque Annita é excelente leitora, daquelas leitoras que lêem pela primeira vez como se já tivessem lido cem vezes. E lêem pela centésima vez como se fosse a primeira, operando, a cada leitura, um repertório teórico e crítico mais amplo, mais denso, sem que isso implique impor, ao texto diante dos olhos, qualquer esquema ou pressuposto. E deu certo porque Annita é excelente escritora, daquelas escritores que transpõem a reflexão conceitual rigorosa para um texto que desconcerta pela força, leveza e fluidez.

 

O resultado não é uma crítica da poesia, mas uma crítica feita com a poesia, como poesia. Não é uma teoria que pensa a poesia, mas uma teoria pensada como poesia, em que até o dilaceramento pessoal e literário de Ana C se traduz em delicadeza. A leitura, afinal, é a prova dos nove – a boa leitura que, como sempre, compreende tudo porque sua função interpretativa é inigualável.

 

O leitor de Territórios dispersos sai correndo para reler Ana C. E melhor: relembra que diálogo intelectual pode se divisar – e se confundir – com a sensação acolhedora de uma paixão desmedida.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 18h23
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