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paisagens da crítica


Corpo estranho é uma pequena obra-prima. No país do Fla-Flu – em que sempre se tem que tomar partido, em que é sempre preciso escolher um lado e rejeitar o outro, em que as pessoas que gostam de Mário, detestam Oswald e quem adora Cabral, recusa Drummond –, Corpo estranho mostra que é possível – e desejável – conciliar lirismo e rigor formal, fazer alguma experimentação narrativa e manter a legibilidade do texto, provocar a cabeça e o coração do leitor.

 

São duas histórias de mulheres que se cruzam: a de Mariana, uma senhora que cultiva plantas e as pinta com aquarela; a de Manu, vinte e poucos, fotógrafa, de saúde precária. Mariana lembra do irmão, José, morto faz vinte anos, da relação intensa com ele, das tensões vividas. Evita a casa inacabada de Paulo, amigo de José, no tripé que os uniu e depois os separou. Precisa, urgentemente, de uma cor de tinta para pintar a bromélia, que está para brotar sua única flor. Manu gosta de retratar grafites, recebe alguma atenção de Paulo – o mesmo Paulo -, se separa de Diego, quase morreu muitas vezes, vítima da hipoglicemia que a tornou dependente de um aparato de seringas. Manu leva a tinta de que Mariana precisa, se hospeda na casa inacabada de Paulo, vizinha da reclusa Mariana.

 

Duas mulheres emparedadas, Mariana e Manu. Mulheres num mundo cheio de estranhezas, de desaparecimentos, de perdas. Mulheres que esperam sem saber exatamente o quê. A evocação proustiana é patente na forma como Mariana aguarda a bromélia – está ali o mundo todo, pura memória, pronta a desabrochar como se fosse sair de uma xícara de chá de tília. Manu, por seu lado, “já vivera seu bildungsroman”, sua fase de formação, e aprendeu, na ponta da agulha, a precariedade da vida, cujo aprendizado árido Mariana também viveu. Ambas têm vidas quase anotadas à margem de outras – e essa periferia é sua angústia e a chance de recolhimento, de proteção, de mínima segurança, de sobrevivência. Também a dificuldade de se reconhecer em qualquer espelho, de se enxergar no outro, aproxima Mariana de Manu, Manu de Mariana. A fratura, a sensação de ausência, a precariedade as irmanam.

 

Há algo de romance filosófico em certas passagens de Corpo estranho. Mas há sobretudo uma construção muito cuidadosa de personagens, cujos labirintos se tornam visíveis ao leitor logo no início do livro, e cada vez mais o angustiam. O mundo agônico das relações familiares rememoradas lembra a aflição que sentimos ao ler passagens de Lúcio Cardoso – não por acaso o autor que José, irmão ausente-presente de Mariana, estudava.

 

A escrita de Adriana Lunardi – embora pudesse ser mais contida em alguns (poucos) trechos – é incomum. Dá para pensar em, no máximo, três ou quatro escritores que, no Brasil de hoje, conseguem tal intensidade narrativa e vigor, especialmente nas descrições de espaços e de estados de alma das personagens e nas cenas estáticas – que prevalecem no romance –, em que se enxerga com facilidade o mundo paralisado, de gentes paralisadas diante da estranheza do corpo, próprio e alheio, individual e coletivo.

 

Seria bom que, em vez de montar clubes que idolatram Drummond ou Cabral, como se não fosse possível conciliar nossos maiores poetas, alguns de nossos críticos lessem o precioso livro de Adriana Lunardi. Talvez daí entendessem que a ficção – boa ficção – não precisa de rótulos, nem de clubes, nem de disputas. Precisa de bons escritores e de bons livros – e isso Corpo estranho é.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 08h50
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Serpente encantadora inverte os sentidos desde o título: ela não é encantada; é venenosa. Encantados ficariam os leitores dos elogios e das maledicências que o jornalista Telmo Martino publicou em sua coluna no Jornal da Tarde entre 1975 e 1985. Porque o livro reúne exatamente essa colaboração de dez anos.

 

O Martino do JT era um crítico peculiar. Transitava numa mesma frase entre a mais refinada erudição e a total vulgaridade. Acompanhava a produção cultural em todos os níveis (teatro, cinema, literatura, jornalismo, televisão, revistas de fofocas sobre artistas) e fazia crônica social, relatando episódios da alta sociedade - principalmente em seus momentos de baixa. Conciliava elegância e extrema sensibilidade com destratos pessoais e difamações aparentemente gratuitas. Na verdade, o Martino do JT era, para o bem e para o mal, um tipo de crítico que talvez não exista mais no Brasil: o sujeito que monopolizava o debate, atirava a esmo, errava no varejo e acertava no atacado.

 

É impressionante, por exemplo, ver o balanço que faz da literatura hispano-americana na década de 1970 e reclamar da uniformidade – o “samba de uma nota só” – que o predomínio do chamado realismo mágico representava. Trinta anos depois, ninguém duvida disso. Trinta anos depois. Também é estarrecedora a precocidade com que identifica o efeito devastador que a influência de dois autores – Ignacio de Loyola Brandão e Rubem Fonseca – teria sobre o romance brasileiro. Também disso ninguém duvida, trinta anos depois. Basta ver a miríade de sub-Fonsecas e sub-Loyolas que anda por aí – a começar pelos próprios, em seus livros posteriores.

 

Os modismos nacionalistas também mexiam com seu humor e o irritavam, principalmente quando vinham sob a embalagem conveniente de “autêntico nacional” e abrigavam, na prática, a mais rematada ignorância e os escusos interesses de produtores culturais de obter vantagem aqui e ali, vender um disquinho ou um livrinho a mais e ganhar um troco polpudo. Contra isso, Martino denuncia o embuste da “música baiana” e dos padrões impostos. Trinta anos antes de Gil virar ministro, dos malfadados sertanejos e pagodeiros sitiarem nossos ouvidos e nossa paciência. Precisa, ainda, é sua caracterização de Caetano Veloso, feita muito antes de percebermos que Caetano era simultaneamente um ótimo compositor e um chato de galocha: para Martino, Caetano é o “darling dos elitistas” – definição perfeita num país que acha que idolatrar um cantor popular é sinal de status cultural.

 

Até no futebol, Martino tem tiradas proféticas. Ao falar do interesse brasileiro de organizar uma Copa do Mundo (a de 1986), pontua: o Brasil “construiu uma coleção de estádios enormes e, desde que Pelé parou, nunca mais teve futebol para ocupá-los.” Pois é.

 

Nem tudo, porém, é divertimento e espanto na leitura de Serpente encantadora. O excesso de comentários sobre televisão e sobre atores e atrizes medíocres em montagens teatrais que hoje ninguém pode conferir cansam o leitor atual e mostram que boa parte do livro, embora divertida, é datada. Além disso, o opinionismo furioso corre sempre o risco da arrogância e do fluxo de simpatias que freqüentemente desembocam em erros de crítica – daí, talvez, seus rasgados elogios a Carlos Sussekind e a recusa de Osman Lins. Em 1976, essas avaliações podiam parecer razoáveis; hoje, soa estapafúrdio colocar a genialidade de Lins abaixo da correção de Sussekind.

 

No balanço de erros e acertos, sobra uma certeza: faz falta alguém como Telmo Martino. Mesmo que uma grosseria ou outra incomodem, é melhor suportá-las do que viver na mesmice monótona da crítica cultural atual que, com raras exceções, prefere os clubismos e a bajulação, que eleva inutilidades a condições grandiosas e ignora gente muito boa.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 22h26
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