Add to Technorati FavoritesTechnorati Profile paisagens da crítica - UOL Blog
paisagens da crítica


para Antonio,

que nasceu agora e

crescerá numa biblioteca

 

Herdando uma biblioteca é uma celebração do mundo dos livros. Uma celebração bastante pessoal, mas que não deixa de ter sentido universal, de valer para tantos outros leitores.

 

O livro reúne vinte crônicas que falam de leituras, das bibliotecas que herdamos e que deixamos de herança, daquelas que existem na realidade e das outras, às vezes melhores, que só persistem em nossa imaginação.

 

Num certo sentido, Herdando uma biblioteca é uma continuação – ou desdobramento – do romance autobiográfico de Miguel Sanches Neto, Chove sobre minha infância. Os temas que lá estão reaparecem aqui e o diálogo entre as duas obras é notável a cada passagem. Miguel lembra de saída que, órfão precoce de pai analfabeto, não poderia ter herdado livros. Restava então desvelá-los no quotidiano precário da Peabiru da infância, da banca de jornais que vendia alguns poucos volumes, na descoberta espantosa de livrarias e sebos em outras cidades.

 

Para além das revelações pessoais – que nunca perdem seu teor ficcional -, os livros e as leituras são captados por uma lente singular: a que sabe de sua consistência pluriforme: são objetos sagrados e profanos, são cultuados, mas também apropriados pelos leitores, que os rabiscam com o lápis que está à mão, que os garimpam pelas prateleiras dos sebos. E esse conhecimento dos livros só o tem quem convive com eles numa intensidade quase obcecada, quem teme sobretudo a ausência deles – que traz a “pobreza de palavras” e a solidão.

 

Ao percorrer seu itinerário de leituras, Miguel descobre seus ancestrais em autores e em possuidores de livros que caem em suas mãos, repete rituais e inventa espaços de leitura, constata que comprar livros é “montar o quebra-cabeça” que somos e que sempre precisará de uma peça a mais. O leitor, ele nota, é também um inquisidor e suas escolhas e seus descartes, sua rotina associada aos livros o explicam para quem o queira ler. Por isso a leitura não pode ser sempre mitificada, nem tornada um valor em si, calculado pela quantidade ou pela assiduidade com que a fazemos. Por isso, também, muitos dos chavões sobre o ato de ler são inócuos – a começar, lembra Miguel, pela idéia tão repetida de que a leitura liberta; não, ela nos aprisiona, porque depois de um livro é necessário buscar outro, outro, outro. E nós, ao invadirmos sua biblioteca pessoal e imaginária, o seguimos com cautela, mas também nos lembramos de cada passo que demos em nossa formação de leitores: do Tistu, recebido da professora da quarta série, ao James Joyce que, já disse um poeta, não era um caubói.

 

Borges uma vez falou, lembrando sua infância, que nunca se perdera fora da biblioteca de seu pai. Miguel Sanches Neto, você, leitor, eu e tantos outros, talvez possamos endossar a afirmação, ampliando-a. Em nosso mundo, não é possível se perder fora de bibliotecas. Mas é impossível não nos perdermos dentro delas.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 07h54
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Meu mundo caiu prova que devemos confiar no que diz a introdução de um livro. Logo nas primeiras páginas, Eduardo Logullo, o autor, nos alerta: é uma “jornada interpretativa” em torno da vida da cantora Maysa. E é exatamente isso. Teimoso fui eu, que resolvi prosseguir na “jornada”, em vez de fechá-lo e devolvê-lo à estante.

 

Logo no primeiro capítulo, a “biografia” conta detalhadamente tudo que a cantora pensou enquanto dirigia seu carro pela ponte Rio-Niterói, rumo à morte. Ela estava sozinha e não há nenhum indício de que a biografia se baseie em algum tipo de epistemologia kardecista. Inferências do biógrafo, possibilidades. Não importa, no caso, o grau de verossimilhança do narrado; simplesmente é difícil seguir um livro que mostra pensamentos de alguém. Já é complicado num personagem de ficção, o que dizer numa biografia? Mas, sempre teimoso (diria minha amiga astróloga: coisa de taurino), segui em frente.

 

Afinal, sempre fui – e continuo – apaixonado pelo canto de Maysa, uma cantora rara. E o livro é bonito, muito bonito e bem editado. Tem boa iconografia, que inclui reproduções das capas de discos, fac-símiles de reportagens de jornal, muitas fotos. Uma beleza. O problema é que quase nenhuma fonte é mencionada e o descompromisso com a verdade, assumido. Sim, leitor, sei que a verdade – já nos explicou Noel Rosa e, antes dele, Pôncio Pilatos – mora num poço. Mas se a verdade completa é inacessível, podemos ao menos buscar a verdade possível, conjuntural, relativa ao de que dispomos. É assim que fazem os historiadores, não é?

 

E os biógrafos? Talvez aí esteja a origem dos incômodos que o livro provoca num leitor interessado em escarafunchar a vida de alguém e que gosta de acreditar que aquilo que lê de fato ocorreu. O Brasil é um país complicado no que tange a biografias. Não tem tradição. Há alguns heróis, em geral jornalistas – Ruy Castro, Fernando Morais – que são regularmente espinafrados pela academia. Os acadêmicos criticam, neles, e com alguma razão, a falta de rigor, mas na verdade depreciam o gênero, permanecem em seu inacessível Olimpo e não oferecem alternativa aos exercícios jornalísticos – em alguns casos, de primeiríssima linha (basta ler o Garrincha ou a Carmen, de Ruy Castro, e lembrar que Fernando Morais praticamente resgatou Olga do esquecimento).

 

Só que o que Meu mundo caiu traz não é a pesquisa criteriosa de Morais ou de Castro. É um livro de fã, feito num texto entrecortado com exagerado esforço poético e trocadilhos sonoros e colagem de trechos de músicas e de outros textos. A leitura é rápida e fácil: menos de uma hora. E quinze minutos depois, você já esqueceu tudo. Quem não entra no embalo do texto (meu caso) se irrita com as interferências constantes e com a repetição de marcas, como “break”, “pimba”, que devem ter a intenção de tornar o texto mais ágil e dar-lhe um certo ar moderno, informal, íntimo, ritmado. Na prática apenas o sujam. Pimba.

 

Da história da vida de Maysa, tudo sai fragmentado, impreciso, vago. Serve para fãs que queiram saber uma curiosidade ou outra, sem qualquer aprofundamento, problematização, reflexão. Fãs que não queiram conhecer de verdade – sim, de verdade – a complexa e interessante personagem que Maysa foi. Break. Mas o livro é honesto: avisa isso logo no começo. Resta acreditar.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 09h12
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
Outros sites
  Centro de Estudios y Documentación Jorge Luis Borges
  The New York Review of Books
  Mario Vargas Llosa
  Virgilio Piñera Llera
  Andrea Camilleri
  Leonardo Sciascia
  A poesia de Frederico Barbosa
  Daniel Piza
  Céu acima. Para um 'tombeau' de Haroldo de Campos
  Impressões de fevereiro
  Café D'Avó
  alhos, passas & maçãs
  EntreLivros
  Miguel Sanches Neto
  Cara a tapa
Votação
  Dê uma nota para meu blog