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paisagens da crítica


O lançamento paulistano de

Rua do Ouvidor 110. Uma história da Livraria José Olympio,

de Lucila Soares,

será na próxima segunda-feira, dia 1º de outubro, às 19 horas,

na Livraria da Vila da Alameda Lorena (Lorena, 1731).

 

Paisagens da Crítica publicou comentário

sobre Rua do Ouvidor 110

em 18 de janeiro de 2007.

 

Quem puder ir, apareça.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 08h31
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O filho eterno é uma pancada na cabeça de qualquer pai, disse-me o amigo Miguel Sanches Neto – e ele tem razão. No livro de Cristovão Tezza, afinal, estão todos os nossos medos, as angústias e algumas das satisfações de ser pai. Está sobretudo a maior das expectativas: a do ideal de filho que projetamos e que às vezes demoramos a perceber que é apenas ficção – a realidade passa ao largo.

 

O filho eterno me levou de volta oito anos e meio atrás, quando soube, numa sala de ultrassonografia, que minha filha, no útero da mãe, tinha um problema e precisaria ser operada no dia em que nascesse. Faltavam quinze dias e neles sofremos quase tanto quanto nos oito dias depois do nascimento, tempos de Uti neonatal. Hoje só raramente lembramos disso. Lia está linda e é uma das crianças mais alegres que pode haver. Tudo deu certo. Tudo? Sim, e um pouco mais, ainda que tenha sido obviamente sofrido descobrir que minha menina não nascia perfeita.

 

A imperfeição de nossos filhos é uma obviedade – dirá qualquer pessoa, lucidamente, relembrando que não só os filhos são imperfeitos: também nós e todos os demais seres vivos que nos rodeiam. Assim é a vida, afinal. É, assim é a vida afinal, repleta de imperfeições. E alguém ainda poderia completar, com razão e clareza, que isso a torna mais bela, por mais imprevisível. Concordo. E o narrador-pai de O filho eterno – racional e preciso nos jogos de linguagem e no cerebralismo de seus livros anteriores – também endossaria com facilidade, recuperando sua trajetória pessoal, tempos de exterior, de vida sem emprego fixo, de insistência no projeto de virar escritor. No entanto, só quem nunca viu de frente a imperfeição expressa na carne do filho ou filha pode supor que a descoberta do óbvio seja indolor.

 

E essa dor, lancinante e renitente, faz o pai de Felipe, o filho eterno, descolar do mundo ao saber que seu filho nasceu com Síndrome de Down, num tempo em que o nome técnico era desconhecido e a expressão crua o chamava de mongolóide. Elidir a realidade, claro, é a saída mais à mão para esse pai em terceira pessoa, que é narrador e traduz, numa inevitável mediação narrativa, a aflição do autor. Logo depois, ao voltar do estupor ao mundo real, inventa, em seu novo escape, uma outra utopia: se a perfeição foi rompida com o nascimento do filho down, quem sabe a ordem se reponha com a morte breve da criança? Brutalidade paterna, diria o leitor ingênuo. Realidade, percebe qualquer um que não viva no mundo das fantasias. Mas a fantasia da morte do filho – amparada pela razão expressa nas estatísticas da mãe-ciência – não se cumpre e o aprendizado de um e de outro, pai e filho, é longo e difícil.

 

Porque O filho eterno é um romance de formação, de dupla formação: o filho aprende poucas coisas com muita dificuldade e o pai cresce, amadurece, é cozido pelo sofrimento e aprende as únicas coisas que de fato precisamos aprender, mas dificilmente aprendemos. Descobre que o tempo e o espaço são convenções e o uso de um e de outro pode variar. Descobre que a alegria é a prova dos nove e ela pode se manifestar na simplicidade de uma vitória do time de futebol ou na delicadeza do convívio quotidiano, dedicado às coisas concretas – território único do filho – e alheio às abstrações em que nos inventamos e, quase sempre, nos alienamos.

 

Lia, minha filha, traz a marca do que viveu nas primeiras horas de vida: uma cicatriz que corta seu ventre. Vez ou outra repara na cicatriz, olha para mim e pergunta: quer dizer, pai, que eu poderia ter morrido? A resposta, doída, é afirmativa e ganha apenas um breve comentário dela – puxa! – antes de partir para a próxima brincadeira com o riso de sempre. As marcas de nascença de Felipe são mais notáveis e intransponíveis. Mas aqui em São Paulo, lá em Curitiba – onde estão Tezza e Felipe – e em tantos lugares do mundo, com maior ou menor grau de sofrimento e com mais ou menos tempo, tem gente aprendendo que melhor que um doutorado do filho ou a conquista de um troféu esportivo, é o filho usar uma metáfora – vitória impagável que revela que dependemos deles mais do que eles de nós e que nenhuma angústia é maior do que essa felicidade. E a pancada na cabeça que o livro nos dá ajuda a lembrar um repertório imenso de alegrias - como as que lemos página a página no livro de Tezza, mesmo quando se narra a angústia.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 08h30
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