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paisagens da crítica


Homem comum é um livro sobre a velhice. A velhice e a memória. A velhice e a solidão. A velhice e o remorso. A velhice e o sexo. A velhice e a vida. A velhice e a morte. São poucas páginas, 131, de uma narrativa sucinta, precisa e contundente, que só fala o essencial. Não há palavras ou frases a mais, não há inversão desnecessária na sintaxe, não há qualquer concessão.

 

O “homem comum” é um personagem habitual de Philip Roth. Ultimamente, ele envelheceu. Mas o narrador que o segue não perde seu tom cáustico, o humor sombrio e a ironia, algo judaica, diante da mediocridade de sua trajetória. Tudo nele é pequeno, esperado, óbvio. Seus casamentos. Suas mentiras. Seus divórcios. Sua bem sucedida carreira na publicidade. Seus medos da vida inteira, principalmente o da solidão. Sua adoração pelos pais e pela filha, expressas em cenas tocantes que só ampliam nossa percepção de seu mundo limitado. Seu individualismo. Sua angústia existencial, jamais tratada diretamente, mas onipresente. Seu pavor depois dos atentados do Onze de Setembro. Sua saúde precária. Seu medo paralisante da morte. Sua auto-piedade. Também quem o cerca é comum: os pais simpáticos, as ex-mulheres, os filhos do primeiro casamento que não lhe perdoam a primeira separação, o vigoroso e atencioso irmão, o ex-genro que se exime de toda responsabilidade em nome de uma suposta liberdade, o choro de todos, os antigos colegas de agência, a atração pelas mulheres que vê e a que não resiste, os velhos com quem convive após a aposentadoria, a bondade infinita da filha. Tudo aquilo que queríamos para nós em nossos sonhos comuns e que revela nossa mediocridade de homem comum, de qualquer homem – everyman, no título original.

 

Comum, sobretudo, mas nem por isso menos terrível, é o pavor diante da morte, movido pela percepção de que o corpo se desligou da cabeça, que não faz mais como pensa, que o declínio é gradual, acelerado e irreversível. Porque a velhice chega e destrói. Nada, para um narrador de Roth, pode ser adocicado: afinal, “a velhice não é um combate, a velhice é um massacre”. No fabuloso diálogo telefônico com a recém viúva do ex-chefe, recheado de clichês e de aflições – verdadeiros e verdadeiras -, o homem comum dá os pêsames e, em seguida, eles recriam histórias passadas para esconjurar o presente. Ao final, ela reconhece: está bem, mas só enquanto recebe algum afeto; depois, virá a solidão. Para o homem comum, que vê as pessoas à volta desaparecerem e enxerga a ausência, resta apenas visitar os mortos – da doença avassaladora à concretude de um sepultamento (“apenas ossos, ossos dentro de uma caixa”), do gosto da terra na boca do cadáver ao abandono do cemitério em que estão enterrados os pais e onde, logo na primeira cena do livro, ele é sepultado. Nesse mesmo cemitério, o único consolo: um impressionante e carinhoso diálogo com o coveiro. Mas na presença de um morto, já disse Borges, quase só conseguimos ver a face da morte e ela gasta nosso rosto. O do homem comum, previamente gasto, vê a morte sem qualquer complacência. A narração de Roth jamais engendraria um personagem como o ancião pacificado que protagonizou o último livro de García Márquez. Aqui tudo é concreto e, por isso, muito mais vertiginoso. O leitor não é chamado a se apiedar do homem comum. Pode até se identificar a ele e isso desconforta, mas nunca sente clemência – algo que não pode existir na aridez do “aniquilamento” da velhice.

 

Octavio Paz escreveu certa vez que a morte, se intransferível, resume-se a ossos limpos e um esgar terrível. É essa a dupla face que o homem comum enxerga. É também a que nós, leitores, encontramos no livro de Roth e que liqüida: é impossível descansar em paz.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 18h28
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