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paisagens da crítica


Dez dias de recesso:

a próxima publicação será no dia 22 de outubro.

Até lá!



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 11h06
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O ladrão no armário pode ser lido em uma hora. E esquecido em menos tempo ainda. Tudo é didaticamente exposto, num ritmo de seriado de televisão e com sabor de big mac. Tudo é excessivo e arbitrário. Uma tremenda enrolação. Mas quando você começa a ler não pára até chegar ao final.

 

A edição original de O ladrão no armário é de 1978. É a segunda aventura de Bernie Rhodenbarr, personagem de dez romances e muitos contos de Lawrence Block. No Brasil, já haviam sido publicadas três histórias de Rhodenbarr; esta é a quarta. Block é um dos mais conhecidos escritores norte-americanos de policiais na atualidade e, além de Rhodenbarr, tem outros personagens-detetives. Suas tramas são como receitas de narrativas policiais.

 

Ingredientes:

- um detetive espantosamente arguto e correto

- uma pitada de sexo

- duas pitadas de humor

- um policial corrupto e dois honestos

- uma mulher bonita (pode ser também inteligente, mas não é fundamental)

- quatro botecos sórdidos

- cinco colheres de acaso

- duas ou três acusações infundadas

- dez descrições de ambientes quaisquer

- dois bêbados convictos e um relutante

- cinco ou seis cenas de ação

- mortes e diálogos inteligentes a gosto.

 

Modo de fazer

Coloque o detetive numa situação de risco, com uma das mortes e uma colher de acaso. Acrescente uma acusação infundada (utilize as outras no decorrer do preparo). Misture-o com a mulher bonita e com os policiais honestos (se a mulher for inteligente, ela pode auxiliar o detetive; caso contrário, apenas acompanhará tudo, oferecendo-lhe um bom leito). Leve o detetive aos botecos e incorpore à mistura alguns bêbados, que espantosamente se lembrarão de detalhes fundamentais e, apesar de bem grogues, os exporão com clareza. Sacrifique algum deles se quiser engrossar o caldo. Reserve o bêbado relutante para que ele ajude o detetive no desfecho. Jogue o sexo sobre o molho da trama, mas não exagere para não perder o tom pudico (a opção mais segura, no caso, é fazer uma espuma com o sexo). Acrescente o policial corrupto, que pode extorquir ou ajudar o detetive, se contrapondo à sua proverbial honestidade. Durante todo o preparo, recheie as páginas com descrições de ambientes, detalhes ínfimos e sem nenhuma importância: isso ajudará a narrativa crescer. Salpique tudo com pitadas de humor e alguns diálogos inteligentes e improváveis. Leve à cena final por umas duzentas páginas. Tire e sirva a resolução do caso numa clássica cena que envolva os principais personagens. Rendimento: milhões de leitores e uma grossa conta bancária.

 

Pode, leitor, tentar repetir em casa. Não obterá um prato de chef, mas um competente produto de fast food. E entenderá o processo de escritura de Block, que ainda recorre a alguns procedimentos culinários inusitados. Seus detetives são quase sempre meio marginais; Rhodenbarr, por exemplo, é um ladrão. Sofisticado, é claro, porque alguma dose de glamour cai bem. Mas é homem correto – pelo menos no que se refere a assassinatos e mulheres. Seu auxiliar usual (e informal) é Ray, o policial corrupto. Essas variações são divertidas, mas é inevitável perceber que são meros jogos de cena para envolver o leitor, sem qualquer desdobramento na narrativa – que segue a receita à risca. E não deixa o cliente – digo, o leitor – se perder. Vira e mexe o narrador (que quase sempre é o próprio Rhodenbarr) alerta o leitor para que ele se lembre de algo que já falou, num didatismo que assegura que ninguém precise se concentrar muito na leitura. Tal e qual um seriado de TV. Você vai à cozinha, toma um copo de água e volta umas páginas depois; recupera rapidamente o que perdeu nesse tempinho e segue adiante. Só que, como um big mac, pode viciar. Você lê correndo e fica esperando o próximo livro de Block que, se a editora mantiver o ritmo, sairá daqui a uns cinco ou dez anos, e fora de ordem. Nem tudo é fast, afinal. Ainda bem. Enquanto espera, você pode ler algo bem melhor e ver que a narrativa policial não se resume a receitas e fórmulas.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 11h02
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Segunda-feira o Rabino viajou

de Harry Kemelman

por Giselda Gastaldi

 

Simples joalheira que sou, sinto-me pouco à vontade para escrever, mas já que adoro ler, sobretudo esses romances mais “leves” ou de entretenimento, dentre os quais os policiais, aqui vai uma dica para quem também procura, de vez em quando, espairecimento e diversão: Harry Kemelman.

 

Dessa vez li o seu Segunda-feira o Rabino viajou e, dos três que agora conheço desse autor, esse me soou o menos policial de todos. Explico. Os outros dois livros – Domingo o Rabino ficou em casa e Sexta-feira o Rabino acordou tarde – têm suas tramas girando em torno do templo de Barnard’s Crossing, onde algum crime acontecia e exigia os dotes dedutivos do Rabino. Agora, depois de seis anos à frente da comunidade e cansado dos problemas para se manter no cargo, ele resolve tirar uma licença de três meses para visitar a Terra Santa.

 

Harry Kemelman aproveita então para fazer críticas às posturas radicais (religiosas e/ou políticas) no Estado de Israel, ao mesmo tempo que enaltece e defende o judaísmo. E é nesse sentido que o romance carece de suspense, pois na ânsia de traçar um panorama amplo da cidade e dos conflitos que lhe são inerentes, o policial fica em completo segundo plano. A presença do Rabino e o seu envolvimento na trama, embora beirando a inverossimilhança, são explicados pelo próprio personagem: “neste país tão pequeno tanto em área quanto em população e porque judeus de todo mundo se sentem atraídos por ele, cedo ou tarde podem-se encontrar os mais inesperados judeus.” Há também uma profusão de personagens que os torna pouco elaborados, alguns são quase caricatos e até simplórios. É o caso do chefe do Serviço Secreto Israelense – a Shin Bet –, feito praticamente de bobo pelo Rabino.

 

Só espero não estar desestimulando a leitura de Harry, primeiro porque, por um lado, será que um romance policial tem que ser sempre tão policial e cheio de assassinatos? E, afinal, o Rabino é um personagem bem desenhado, feito para cativar: muito humano nos seus dilemas quanto a seguir com sua “carreira”; conservador na ortodoxia profissional e religiosa; charmoso na aparência despojada e não tão séria, privilegiando o uso de roupas claras, e não as escuras e nem a barba; íntegro na sua incapacidade de bajular quem quer que seja; honesto ao extremo a ponto de vacilar e oscilar nas decisões; gentil no trato com toda gente, sempre falando baixo e mansamente; lógico e arguto como cabe a um bom detetive, mas também a alguém treinado nas discussões éticas e nos altos estudos.

 

Não vale a pena?

 

De minha parte, quando conseguir o Sábado não vou deixar de ler.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 06h34
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