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paisagens da crítica


A pista de areia é uma nova aventura do Comissário Salvo Montalbano, o mais interessante dos detetives literários vivos. Paisagens da Crítica comentou as duas anteriores – O calor de agosto e As asas da esfinge – e espera comentar muitas outras. Porque o autor do blog reconhece: é fã de Andrea Camilleri e procura ler seus livros logo que saem, o que (por favor, reconheçam) não é tarefa fácil. Só em 2007 Camilleri já publicou seis livros – quatro romances (fora este, três históricos), uma antologia comentada de Luigi Pirandello e um ensaio sobre a Máfia.

 

La pista di sabbia – título original – é o décimo-segundo livro de Montalbano. E, se confiássemos nas declarações que Camilleri deu durante anos, seria o último. Mais de uma vez, em entrevistas, disse que escreveria doze romances com Montalbano. Mas mudou de idéia: não sabe mais quantos serão. Para impedir que seu detetive fique um dia à deriva, já escreveu os dois últimos e os consignou ao editor para, após sua morte, publicá-los. São Il campo del vasaio (O campo do oleiro) e Riccardino. Enquanto isso, segue inventando histórias. No início de 2008 lançará mais uma. Ou seja, Montalbano ainda trabalhará muito, mesmo sob a angústia que o aflige já há uns anos.

 

Porque desde O cheiro da noite (de 2001), Montalbano não se conforma com os rumos da Itália (então berlusconiana). E desde Il giro di boa (no Brasil, sabe-se lá por quê, Guinada na vida), de 2003, Montalbano se vê às voltas com o fantasma do envelhecimento e com o desconsolo de um mundo cada vez pior, em que o humanismo se tornou letra morta. Em A pista de areia, a questão política aparece pouco: ecos do fim da era Berlusconi. Mesmo assim, há referências aos extra-comunitários e aos preconceitos de que são vítimas. Mas Montalbano está perdido sobretudo no plano íntimo. Seus sonhos são estranhos e aflitivos. Seu desconforto com o mundo de aparências fica cada vez maior. Sua relação com a eterna namorada – a genovesa Lívia – prossegue em banho-maria, mas a água (já resfriada em Le ali della sfinge) está gélida: eles não conseguem mais se comunicar, numa evidente metáfora do afastamento gradativo de Montalbano do mundo que o cerca. Restam-lhe os colegas do comissariado e a amizade da sueca Ingrid, personagem desde o primeiro livro, que ganhou importância nos últimos dois ou três romances.

 

A pista de areia é uma história repleta de cavalos: cavalos mortos, cavalos correndo, cavalos em sonho. Há também imoralidade galopante: pedofilia, jogatina ilegal, assassinato, chantagem. E uma moça arrasadora, Rachele, que aflige os dias e as noites de Montalbano. Camilleri recorre ainda a um procedimento antigo e comum, mas sempre eficaz: a casa como metáfora do eu. E a casa de Montalbano, nesse livro, é invadida três vezes: o comissário está emparedado. Por isso, recorre ao passado, que ressurge no sabor de um linguado preparado pelo tio. Por isso, mesmo quando o sonho é incômodo, prefere não acordar para assistir à violência. Por isso, atravessa noites lendo. Tudo é melhor que o mundo atual e as tragédias quotidianas – algumas delas tão banais que nem nos damos conta de sua intensidade.

 

Mas o que há de sombrio nas recentes histórias de Montalbano é compensado pelo humor contínuo, pelo acompanhamento da linguagem peculiar que Camilleri associa à Sicília: uma mescla de italiano, dialeto local e marcas da oralidade, expressa num vozerio cru e bruto, que às vezes faz o leitor esquecer da trama e prestar mais atenção à gramática difusa dos diálogos. Não, leitor, Camilleri não é um autor de primeira. Não será nunca colocado ao lado de Pirandello, de Vittorini ou mesmo de Sciascia. Mas é impressionante que consiga, no ritmo intenso como publica, manter a atenção e a boa qualidade de seus livros. Por isso, é essencial.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 09h46
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Marley & eu é um achado. O livro está na lista dos mais vendidos há meses. Antes disso, liderou o rol de best-sellers norte-americano e em outros países. O autor, John Grogan, já escreveu outro livro sobre Marley, agora repleto de ilustrações e voltado às crianças. Também está vendendo feito água. Ou seja, o homem descobriu uma mina. Ele próprio reconhece, ao dizer que resolveu escrever o livro ao ver a quantidade de cartas que recebia quando contava pequenas histórias de Marley em sua coluna jornalística. Crônica de um sucesso anunciado. Mas ele provavelmente não estimou o tamanho da coisa.

 

É quase desnecessário esclarecer do que trata o livro. Em todo caso, se algum leitor desse blog passou longe de livrarias, jornais e revistas nos últimos dois anos, aviso: é um livro sobre um cachorro; Marley é um labrador. E, mais, é um livro sobre a amizade de humanos com um cão doido de pedra. Daí o subtítulo – “A vida e o amor ao lado do pior cão do mundo” – que não deixa dúvida quanto às pitadas melodramáticas do livro. É também uma espécie de manual de instruções para donos de cachorros malucos: au-auto-ajuda, em bom português.

 

Porque o relato do que Marley faz é engraçado só para quem está longe dele e não tem nada parecido com ele dentro de casa. Marley destrói tudo: de sofás a paredes, de roupas e sapatos à fiação elétrica. Pula em todos, em casa ou na rua. É de uma desobediência terrível e, o dono descobre um dia, tem deficiência cerebral – o que leva alguns especialistas a recomendarem o sacrifício. Só que o afeto dos donos (um casal e seus dois filhos) salva Marley, assim como o afeto de Marley ajuda muito a família. Quem tem cachorro sabe que, por mais piegas que possa parecer, esse é um clichê real.

 

Fabuloso é que tanta gente se interesse pela vida da família Grogan e seu cão. Surpreendente é que Marley & eu tenha aberto um filão editorial de livros sobre cães, hoje só comparável ao interesse de leitores por aventuras em países sem água potável ou em guerra. Basta ir a uma livraria e você encontrará, entre os destaques, uns dez livros desse tipo: tem livro sobre cachorro brasileiro, mexicano, francês; livro sobre o Afeganistão, o Iraque, o Paquistão. E até tem um – taí um sujeito com raro tino comercial e evidente senso de oportunidade – sobre um cachorro em Bagdá. Talvez o ponto comum seja mesmo o princípio de auto-ajuda, ainda que disfarçado. Aprende-se o afeto e a dor, com a chancela (e a aura de autenticidade) do relato supostamente verídico, e sem a dificuldade de atravessar as longas e refinadas páginas de, por exemplo, Crime e castigo. Sem contar que o final é quase sempre bom. Tanto que o autor sobreviveu para contar: não foi morto na guerra nem de ataque cardíaco provocado por algo que seu cão aprontou.

 

Mais incrível ainda é perceber que Marley & eu, embora divertido, é um livro ruim. É mal escrito (por incrível que pareça; afinal, seu autor é um jornalista bem conceituado) e pior traduzido e editado. Talvez a pressa justifique ambas as coisas. Na redação: repetição de trechos e caráter relativamente errático da narrativa, excesso de comentários diletantes, alheios ao objeto da obra. Na tradução e na edição: inúmeras escolhas equívocas de vocabulário, erros gráficos, frases sem sentido, pontuação atrapalhada, carência de revisão. E mesmo assim o livro segue, impávido, sua carreira de sucesso comercial. E isso também nos fala do público, que parece pouco interessado na qualidade do que lê. Valores, caro leitor, valores.

 

De qualquer forma, seja pelas agradáveis risadas que damos ao lê-lo (e que, no meu caso, foram ainda mais agradáveis porque o li junto com minha filha, comentando as histórias), seja pelo fenômeno editorial (e, alguém diria, sociológico) que representa, Marley & eu não pode ser desconsiderado. Que o diga a Kitty, minha salsichinha, deitada a meu lado enquanto escrevo este comentário.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 19h56
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