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paisagens da crítica


Contemporâneo de mim é ótima releitura. Porque a leitura, primeira leitura, acontece desde 1996, quando a coluna Sinopse, de Daniel Piza, começou a ser publicada. Ao reunir os dez anos da coluna, Contemporâneo de mim permite que façamos uma sinopse da Sinopse, que vejamos o conjunto do que apareceu fragmentariamente, aos domingos, na Gazeta Mercantil e, depois, em O Estado de São Paulo.

 

Se a coluna pretende fazer um balanço do movimento político e cultural – agir como a “agulha do instante” de que falou Cabral –, o livro lança as análises numa dimensão cronológica mais ampla, submete-as à passagem do tempo e testa o barômetro crítico de Piza. O resultado é positivo. Em parte porque (infelizmente) o Brasil não mudou tanto assim de 1996 para cá, nem a produção cultural permitiu qualquer renovação significativa que desfizesse a atualidade da crítica de Sinopse. E em parte porque os textos, apesar de imediatos, não refletem opinião intempestivas. Ao contrário, revelam desenvolvimento crítico por meio da retomada sistemática de certos temas e autores. Machado e Guimarães Rosa estão sempre lá. A nova produção ficcional brasileira, também. A percepção dos desvãos da política e das artes plásticas, idem.

 

Por trás de Sinopse e Contemporâneo de mim, outros dois livros espreitam o leitor: Questão de gosto – de 2000, reuniu artigos originalmente publicados em jornais e revistas – e Machado de Assis, um gênio brasileiro, a biografia literária que Piza lançou em 2005. É no cruzamento dessas tantas leituras que podemos enxergar a trajetória crítica de Daniel Piza e a forma como traduziu a agulha do instante numa crítica organizada e contínua. Crítica cultural, em duas palavras – esse artigo raro nas prateleiras da imprensa brasileira de hoje, que tantas vezes prefere, nos cadernos culturais, o discurso hermético da academia ou a celebração fútil da indústria do entretenimento.

 

Claro que o leitor de Contemporâneo de mim pode fazer suas escolhas dentro do amplo repertório temático do livro. Pode lamentar o grande espaço dado à mesquinharia política do Brasil contemporâneo de nós. Ou passar o mais rapidamente possível por ele, para evitar enjôos, e chegar logo ao prato principal do livro, a discussão cultural – é na crítica das artes visuais e da literatura que Piza vai mais longe. E o leitor pode, ainda, discordar de alguma avaliação de Piza; felizmente, diga-se de passagem, porque é para isso que existem livros, colunas, jornais, mesmo que às vezes esqueçamos.

 

Inevitável, porém, é reconhecer que, num país em que os críticos e cronistas, com raras exceções, desapareceram, tragados pela tibieza cultural e política, ele oferece espaço de reflexão e de discussão, chance de polemizar com conseqüência e de tentar enxergar, para além de tanta neblina, rastros de vida inteligente.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 10h18
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Monstrerói

 

por Domingos Pellegrini

 

Desejo ou sonho faça enquanto moço
enquanto tens a graça de ignorar
falência do tesão ou falta de ar
ou a porosa corrosão dos ossos

Lança teu barco de aventura ao mar
pega o trem sem saber onde vai dar
o caminho que o coração mandar
e vai feliz entre a fé e os destroços

Grita sem eco por ecologia
cuida de quem depois te assaltará
investe teus tostões na utopia

Deixa a paixão mandar no teu percurso
e em recompensa um dia colherás
boas lembranças em vez de soluços



Eu não acreditava, acompanhava pelas jornais o cerco à guerrilha de Che Guevara na Bolívia e não acreditava. Não, meu herói daria um jeito, driblaria o cerco, inventaria artimanhas, afinal seria vitorioso e plantaria na Bolívia mais um farol, como Cuba, a iluminar o caminho para a revolução nas Américas.

Quando saiu nas primeiras páginas a foto do cadáver, jurei vingança mas já começava a descrer da revolução. Repórter novato, sofria a censura no noticiário e me perguntava: na ditadura do proletariado, que leninamente vamos implantar com a revolução, também haverá censura... e apenas um jornal! E um só partido, pensei quando começamos a lutar contra a ditadura usando o MDB, único partido de oposição permitido mas era melhor que nenhum. Valeria a pena lutar contra uma ditadura para instalar outra?

Ah, sim, seria uma ditadura “do proletariado”, conforme a esperança de Marx, mas, conforme Eliot, entre a intenção e o gesto desce a sombra – e eu não via proletários nem operários em nossos partidinhos de esquerda, apenas jovens de classe média charmosamente revoltados, renegando a própria classe da boca para fora. E em nada me agradavam as notícias da ditadura e da pobreza social na URSS.

Então li com atenção o diário de Guevara na Bolívia, que revela sua ingenuidade militar, suas ilusões políticas e seu aguerrido romantismo. Era um romântico, a ler poesia para os guerrilheiros em redor da fogueira, mas também sem qualquer pudor de matar friamente em nome da utopia socialista.

Nós éramos assim: em nome da utopia, acreditávamos na força, na censura (desde que nossa), na ditadura, crentes na lenina máxima de que “os fins justificam os meios”. Depois, fui vendo que a gente se torna os meios que usa. Quem rouba para fazer revolução, acaba é virando ladrão... E assim vi companheiros se tornarem ladrões, vigaristas, puxa-sacos, ou traficantes desse tóxico que encanta mentes ingênuas, a ideologia revolucionária, que ensina a sonhar com mudar o mundo, mesmo que para isso transforme-se num monstro. Se os heróis de Cazuza morreram de overdose, os nossos ídolos revolucionários, de então, hoje circulam no noticiário pop (político-policial)...

Vivemos numa ditadura tributária-bancária, e aí estão os saguões dos bancos a oferecer espetaculares espaços para o protesto estudantil mas... cadê as lideranças? Estão invadindo reitorias para clamar por esquerdismos do século retrasado, enquanto a União Nacional do Estudantes, a nossa UNE “de tantas lutas”, como a gente dizia, tornou-se chapa-branca a mamar verbas e ajeitar cargos oficiais. A meta do líder estudantil de hoje não é fazer revolução, é tornar-se assessor de político.

Acredito que há um mundo novo a ser conquistado, sim, mas o caminho não passa por ideologia, e sim por cidadania, que é feita de prática e não de teoria ou retórica. Cuidar do próprio lixo. Fiscalizar os governos. Participar da comunidade. Propor alternativas, organizar mudanças, antes de tudo mudando a si mesmo. Dar exemplos em vez de fazer discursos. E cobrar fatos das autoridades em vez de aplaudir discursos. É muito mais difícil que posar de revolucionário com a cara do Che na camiseta e, no peito e na mente, os velhos hábitos consumistas e machistas junto com as velhas ilusões utopistas.

Não acredito mais apenas nos jovens para as mudanças, ao contrário, vejo idosos dando mais bons exemplos que os jovens. Hoje eu corrigiria meu soneto para Che no livro Gaiola Aberta, colocando que devemos lutar pelos nossos sonhos sempre, inclusive na velhice, como Gorbachev e Mandela.

Che foi uma mistura de herói e monstro, sim. Se precisarmos de heróis, que sejam limpos, claros, construtivos, heróis de ação já em vez de revolução lá, mestres do amor e não arautos do ódio.

Para mim, Che se foi, já não sou mais o poeta que escreveu este soneto, que aqui vai, como a gente dizia nas reuniões leninistas, “por autocrítica”, embora tenha versos em que ainda acredito, e outros em que aprendi a descrer. A vida muda, os mitos murcham, a não ser que continuemos parados no salão de ilusões das ideologias.

Este artigo fui publicado originalmente em A Gazeta do Povo (Curitiba, Paraná), em 4 de novembro de 2007, e na página de Domingos Pellegrini (www.sitioterravermelha.com.br), que autorizou a reprodução no blog.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 11h38
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