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paisagens da crítica


Espiral de Artilharia é um romance de Ignacio Padilla. Isso já basta para você, leitor, sair correndo para comprá-lo e lê-lo – se possível, antes do almoço. Padilla tem cerca de quarenta anos, é diplomata, bastante erudito e foi um dos signatários do “Manifesto Crack” (crack, de quebrar), que, em 1996, acompanhou o lançamento de livros de novos escritores mexicanos. Sim, Padilla é mexicano, embora dificilmente o leitor perceba isso em qualquer livro seu. Porque, na contramão da literatura hispano-americana dos anos 1960, empenhada em ostentar identidades, a ficção de Padilla reconhece o primado borgeano de que “nosso patrimônio é o universo”.

 

Na verdade, os participantes do Manifesto Crack já declaravam isso em alto e bom som, onze anos atrás: era hora de encerrar o longo predomínio do chamado realismo mágico na literatura hispano-americana, com tudo o que isso significava – compromissos políticos diretos, crença otimista na redenção social, busca de identidades e espelhos enterrados, de magias e de maravilhas, de explicações para os processos de formação nacional e para a modernização precária na América Latina. Padilla lembrou, em vários entrevistas, que grandes autores como Gabriel García Márquez ou Carlos Fuentes – e é indubitável que foram grandes – escreveram para seu tempo, para uma América empolgada com a revolução Cubana de 1959, e não para a América que vê Fidel de agasalho esportivo à frente da mais longeva ditadura do continente. Ou seja, o que era novo ficou velho, muito velho, e os anos 1960 finalmente acabaram. Não fazia sentido continuar repetindo a velha fórmula do realismo mágico.

 

A efetiva proposta literária de Padilla, porém, não veio em manifestos ou entrevistas; veio na ficção. Em 2000, publicou Amphitryon (a edição brasileira é de 2006), seu sexto livro, uma narrativa impressionante, polifônica, que privilegia o insólito e exacerba o subjetivismo peculiar, irônico e cínico de narradores cercados de traidores e impostores, itinerantes no tempo e no espaço. Três anos depois, lançou Espiral de artilharia – que agora chega ao Brasil – e confirmou sua posição central na ficção hispano-americana atual, ao lado do chileno Roberto Bolaño ou do argentino Ricardo Piglia.

 

Espiral de artilharia retoma o tema inicial de Amphitryon: a impostura e a precária identidade de todos nós. Só que confina seu ambíguo protagonista-narrador na prisão de uma ditadura – sem nome, tempo ou lugar. É um médico, viciado, que, da fortaleza, acompanha o desenrolar gradual de uma trama policial, à qual se sente pertencente, embora não entenda como. Confessa o que lhe pedem, mas desconhece se é verdade. Não se sabe culpado ou inocente e não entende bem o que pretendem dele tanto os pérfidos asseclas da ditadura quanto os suspeitos revolucionários que tentam derrubá-la. Isolado, revisita o passado. Aflito, passa da cela a um labirinto de memórias e de enganos. O suspense se acentua enquanto o passado emerge conflituoso, esquivo, impermeável. Nenhum tempo oferece segurança – descobre – muito menos a memória e seus jogos de espelhismos e de duplos, de lembranças confusas e não-lineares de todos aqueles que fomos. Essa, aliás, é uma constatação dura a que o médico chega: eu, que tantos fui, só não fui aquele que de fato queria ser. O eco de Borges é evidente: não há limites para as indagações filosóficas, mas elas se fazem no interior da ficção, submetidas ao rigor e à precisão da narrativa. Não há limites geográficos ou cronológicos, porque qualquer tempo ou espaço pode ser digerido no exercício de leitura que funda a escrita. Não há obrigação com a história porque a história ocupa todos os lugares, molda os sentidos e a percepção do mundo – ou seja, não é preciso mencioná-la porque ela está em todas as partes, move os homens, que por sua vez a alteram, mas sem um programa fixo e autoritário de ações e de resultados perfeitos a serem obtidos. Afinal, o heroísmo – outro tema constante de Padilla – pode equivaler à traição.

 

Na espiral alucinada do médico, só uma coisa não há: o esquecimento. Mas isso, que para tantos pode parecer salvação, é apenas um caminho rápido para a degradação e para a demência, para a diluição definitiva da fronteira que – gostamos de acreditar – separa a verdade da mentira, o bem do mal.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 06h20
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Maruzza Musumeci é uma fábula de sereias. Se é fábula tem que ter uma moral – explicou-me minha filha quando lhe falei do livro. Mas é difícil discernir a moral por trás dessa nova história de Andrea Camilleri.

 

Tudo – ou quase tudo – se passa na Sicília, onde Gnazio Manisco nasceu e para onde voltou em 1895, com quarenta e cinco anos de idade e após trinta de América. Gnazio comprou terra num lugar peculiar: uma língua sobre o mar do sul da ilha que, diziam, os antigos, flutuava sobre a água marinha. Logo Gnazio, a quem o mar afligia. Tanto que cuidou para que de sua casa, a poucos passos da praia, nem se visse o mar. Porta e janelas eram voltadas para a oliveira, em terra, que Gnazio contemplava. Sob a oliveira, também comia, às vezes dormia, e descansava nos momentos em que não trabalhava.

 

Um dia resolveu se casar e, com a ajuda de uma velha curandeira, achou a mulher ideal, Maruzza. Linda a ponto de levá-lo ao desmaio quando a contemplou nua, delicada, cuidadosa, maravilhosa cantora. Apenas um problema, detalhou a casamenteira: Maruzza se dizia sereia, e precisava do mar. Gnazio, arrebatado pela beleza, fez o que era necessário para que ela vivesse voltada para o mar e ele se mantivesse preso à terra. Casaram-se e do casamento nasceram dois filhos e duas filhas. O mais velho adorava as estrelas, a mais velha se identificava à mãe.

 

Passaram-se os anos como ondas, todos envelheceram, uns ficaram, outros partiram. Por quase cinqüenta anos viveram a alegria de uma família plena, em que os diferentes se aceitam e o afeto é partilhado sem limite. O mundo mudou ao redor e Gnazio, Maruzza e seus filhos tiveram de adequar-se – até ao estorvo dos bombardeios aliados e alemães sobre a ilha. O destino de todos estava dado e cada um cumpriu o seu sem que qualquer dos filhos ou dos pais se angustiasse por isso; afinal, para eles, a vida prosseguia bela na terra ou no mar.

 

Difícil discernir a moral. Mas fácil é perceber que a obra de Camilleri, cada vez mais variada, recusa qualquer definição ou julgamento apressado. Num recente livro de entrevistas e análises críticas, Gianni Bonina, um dos maiores estudiosos da obra do siciliano, baixa as armas e reconhece: o único que entende Camilleri é o leitor, porque a crítica não consegue ainda avaliar o peso do que escreveu. Nem é possível (ou devido) submetê-lo a esquematizações ou a divisões que separam o “entretenimento” da “literatura” em sua obra. Verdade é que Maruzza Musumeci mostra um Camilleri em plena forma em seu 46º livro (o 47º saiu junto com este, em outubro, e trata da Máfia, tema raro nos quarenta e seis anteriores). Um Camilleri que encanta e que maneja com incrível destreza a língua peculiar que criou, na mescla entre o italiano culto, os dialetos e a língua falada. Um Camilleri que escapa da realidade para, numa fábula, contar a história e os mitos da Sicília.

 

Essa, aliás, talvez seja a moral de Maruzza Musumeci: não é preciso fechar os olhos ao mundo para enxergá-lo, mas quando eles estão fechados por vezes se enxerga bem melhor. Não é preciso tentar mimetizar a realidade para acompanhar o tempo vivido; é na capacidade reveladora da narrativa ficcional que a experiência vivida ganha corpo e fôlego – de homem ou sereia.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 21h20
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