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paisagens da crítica


A Revista EntreLivros acabou. Nos próximos dias chega às bancas o número 32 – e último.

 

Fui leitor de EntreLivros desde o primeiro número, quase três anos atrás. Na época, tinha fome de uma revista literária brasileira. Lia a Magazine Littéraire, o New York Review of Books e lastimava a ausência de algo semelhante. Por isso, quando vi a primeira EntreLivros na banca, comprei logo e li rapidamente.

 

Depois, por uma dessas manias que nunca conseguimos explicar, não a comprava logo que saía. Adiava a compra, adiava quase até o lançamento do número seguinte. Talvez preferisse guardar para a última hora. Talvez infantilmente quisesse retardar o desvendamento do mistério – das reportagens, das resenhas, da crítica. A crítica – um tipo de crítica – que não havia no Brasil desde que a Cult perdeu a editoria lúcida de Manuel da Costa Pinto e trocou a literatura pelo entretenimento e pela filosofia. Desde – bem antes – quando os suplementos culturais perderam o rumo e elegeram o público acadêmico como interlocutor, ignorando um sujeito simples e existente: o leitor comum.

 

Foi assim até o número 14, de junho de 2006. Nesse número, pela primeira vez, escrevi para EntreLivros e virei colaborador, sem deixar de ser leitor. De lá para cá, colaborei quase todo mês. E mais do que antes, esmiuçava a revista texto a texto, linha a linha, para, em seguida, escrever à Josélia Aguiar, então sub-editora, palpitando sobre tudo, reclamando de uma coisa ou outra, discordando, elogiando. Era minha análise da análise, minha insistência em reiterar meu lugar de leitor, que outro melhor não há.

 

Quando Josélia assumiu a editoria, no começo de 2007, a revista ganhou vigor. Claro que o tinha sob o comando de Oscar Pillagalo, mas EntreLivros agora parecia mais vivaz, mais disposta a correr riscos. E os belos números se sucederam. E a coluna de Milton Hatoum – há quase vinte anos o melhor de nossos escritores – surpreendia com sua capacidade de girar a perspectiva da crítica para a ficção, para a crônica, para o memorial. E as resenhas assinadas por brasileiros eram melhores do que as reproduzidas do New York Times Review of Books. E o Brasil parecia um pouco mais letrado, um pouco mais interessado na palavra escrita.

 

Mas isso não bastou para que EntreLivros virasse mais um ano e emplacasse 2008. No país de Renan e de Lula, dos bacharéis e da auto-ajuda, da música sertaneja e do pagode, os leitores (muitos leitores, sempre lembra Hatoum) perderam EntreLivros. Por quê? Difícil dizer de fora, de longe. Concorrência? Obviamente não: não há outra revista literária. Falta de interesse? Parece improvável: tanta gente a lia! Problema de administração e do abstrato e pau-para-toda-obra mercado? Pode ser, mas a essa caixa preta os leitores nunca têm acesso.

 

Não sei. Sei que olhar o número 32 dá um pouco de tristeza. Corrói a ilusão de que é viável falar de livros. Impõe a verdade – amarga verdade, diria Danton – de que a leitura parece ser supérflua entre nós, um bem de luxo, abaixo do imprescindível celular (trocado anualmente), das duas horas diárias de televisão, da roupa de grife. Dá tristeza.

 

A derrota que o fim da revista representa é muito maior – e, por isso, mais preocupante – do que pode parecer. É a derrota do pensamento, da leitura. É um sintoma triste dos tempos sombrios que vivemos. É um indicativo da nossa miséria e da nossa aspereza.

 

Resta torcer para que, um dia, EntreLivros volte ou seja substituída por outra revista inteligente. Resta agradecer à Josélia, ao Milton e a todo o pessoal que viveu, talvez dura e prazerosamente, a aventura da edição. Resta a satisfação de ter sido, por 32 números, leitor.

Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 16h36
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As viúvas das quintas-feiras mostra mulheres à beira de um ataque de nervos, fechadas num condomínio de luxo, cercado por um cinturão de miséria. Elas são vazias, fúteis e vivem em meio a uma atmosfera sombria e algumas mortes. É um Desperate Housewives com pretensões literárias e preocupações sociais.

 

Claudia Piñeiro – que foi premiada pelo livro e recebeu críticas bastante elogiosas, inclusive no Brasil – traça um painel da alta burguesia de Buenos Aires durante a crise de 2001. Refugiadas num condomínio cercado de grades e com um impressionante sistema de segurança, as famílias se protegem do mundo lá fora, matriculam os filhos numa escola inglesa, jogam tênis e golfe, conversam e ostentam, consomem e se entediam. As amizades são falsas e a hierarquia interna é rapidamente estabelecida em função da riqueza de cada um.

 

A consciência da realidade é precária. Só o noticiário traz informações sobre a derrocada econômica da Argentina, a instabilidade política, os movimentos sociais. As donas de casa se preocupam com os pobres que vivem ao redor do condomínio e realizam bazares e eventos de assistência social – a sombra de Evita combinada com a das atuais ongs as espreita. Assim, sentem-se bem e diminuem os riscos de morar tão perto da pobreza e de recorrer aos serviços de quem vem desse outro mundo – desde que devidamente identificado pelos porteiros.

 

Mas é claro que, uma hora, a realidade pula o muro e os moradores se vêem às voltas com mortes. Impossível se isolar da crise, ensina o livro. E ele, de fato, é bem eficaz como denúncia do artificialismo e da inconsciência de muita gente que vive em Buenos Aires, no Rio, em São Paulo, em quase toda parte. Mais do que um diagnóstico da esquizofrenia social que nos assola, As viúvas das quintas-feiras traça uma caricatura competente, cruel e eficaz desses universos segregados.

 

No entanto, um livro não pode se resumir a uma denúncia. E, caso se disponha a isso, não deve se estender por duzentas e cinqüenta páginas, nem incorporar uma quantidade imensa de personagens. É por isso que As viúvas das quintas-feiras perde o fôlego depois dos primeiros capítulos. A narrativa se ressente desse prolongamento excessivo: a autora aos poucos abandona a criteriosa e geométrica variação de narradores e discursos do início. Deixa de oscilar entre a voz privilegiada de Virginia Guevara – misto de dona de casa e de corretora de imóveis – e outros narradores não identificados, deixa de passar do discurso direto ao indireto e ao indireto livre. Dessa forma, o cuidado literário sucumbe ao conteúdo e à intenção da denúncia.

 

Sem as amarras de uma narração bem feita, a entonação novelesca passa para o primeiro plano e se arrasta capítulo a capítulo apenas à espera de um desfecho capaz de articular os vários personagens, elucidar o motivo das mortes e, finalmente, deixar clara a impossibilidade do isolamento e da segurança. Até o clima de medo, construído com precisão no início, se desfaz no emaranhado de pequenas e fluidas histórias que parecem só pretender confirmar que o artificialismo do condomínio é correlato do artificialismo nas relações pessoais e sociais para ampliar a caricatura de que é impossível ser rico e viver protegido e feliz.

 

Derrotado pelo esforço de ideologização da narrativa, As viúvas das quintas-feiras perde a chance de ser um bom (e bem mais curto) livro, mas mostra uma autora, Claudia Piñeiro, que conhece o ofício e pode se tornar muito boa. Basta manter o rigor do início no resto do livro.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 12h21
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