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paisagens da crítica


Proust, a violência sutil do riso reage a certa visão hegemônica na crítica proustiana (há tempos transposta para o senso comum sobre o autor francês). Porque mais do que as leituras dos livros, às vezes é a leitura da crítica que se impõe à nossa interpretação de um autor, à tradução de suas referências para nosso mundo e para nossa biblioteca pessoal. Ainda mais quando se trata de uma obra clássica – que alguns lêem e relêem e outros já a conhecem sem jamais tê-la lido. É o caso de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust.

 

Na origem, o estudo foi uma tese de Leda Tenório da Mota, defendida na França sob orientação de Julia Kristeva. Mas o tempo, outras leituras e os sucessivos escritos de Leda Tenório da Motta sobre Proust refizeram algumas análises, ampliaram o eixo da discussão e resultaram no livro que agora é editado e passa a ocupar o centro da proustiana brasileira. Porque, em seu texto fluido, ele trata não apenas de Em busca do tempo perdido, mas dialoga com toda a tradição de estudos proustianos – inclusive no Brasil. Mais do que isso, considera as adaptações de Proust para outras linguagens – cinema, quadrinhos – e vê, nesse movimento de tradução e inevitável interpretação, um jogo que permite aproximações diferentes do leitor ao texto original.

 

Mas se a agilidade da escrita de Leda Tenório da Motta e sua capacidade de perceber a onipresença e as modulações da recepção de Proust são importantes, nem longinqüamente são os pontos principais do livro. Essencial é sua percepção de um humor proustiano que se funda na tradição judaica: irônico e auto-irônico, crítico e ocasionalmente cínico, profundamente racional. Essencial, também, é localizar algumas matrizes do humor de Proust em suas caricaturas precoces e na disposição de diagnosticar o ridículo de uma sociedade que obviamente o fascinava, sem, no entanto, levá-lo à mera celebração. É o mundo como farsa, notado em diálogos mais ou menos explícitos com autores como Molière e, principalmente, Baudelaire. É a refutação do realismo de Zola – que equivale a recusar, junto, todo um conjunto de certezas científicas, tão ao gosto da virada do XIX ao XX.

 

No lugar da ordem plena, Proust institui o completo esfacelamento, a divisão da consciência, a fragmentação do homem, cuja maior expressão é o narrador da obra, que percebe que a lógica do meio em que está – e que ele esmiúça – é imprecisa; que qualquer busca de nexos e de causas será sempre épica e, provavelmente, estéril; que prefere falar “sozinho, desfiando suas intermináveis suposições, e atingindo o coração mesmo da narração com essa sua sinfonia inacabada.” A tão propalada tagarelice do narrador, lembra Leda, é pura angústia. E a angústia se divisa com a melancolia, e a melancolia com o riso – riso peculiar, que – já disse Benjamin – tem o travo da lágrima e o sabor da morte.

 

Por isso Leda desafia a crítica proustiana e o senso comum sobre Proust; por isso recusa a propalada imagem de que a obra revela uma odisséia bem sucedida de recuperação do passado, com seus mecanismos supostamente reveladores e a capacidade fundadora da memória. Num exemplo: a célebre passagem da madalena molhada no chá de tília, capaz de evocar experiências e tempos até então soterrados, fazendo cidade e jardins brotarem subitamente, não traz apenas a felicidade do reencontro. Implica também “uma espécie de intoxicação, algo que vem de fora para dentro, daí ser tão difusa, fugidia, parcial.” Na contramão do Proust lido na perspectiva redentora do cristianismo, um Proust percebido na tensão interna do judaísmo: o Proust que defendeu Dreyfuss, que expressou seguidamente seu desassossego, mas não o fez na chave da autocomplacência, e sim na do riso. Porque o riso, em sua entonação ocasional de comédia e de burla, “faz tremerem os sensatos”; é um riso predador.

 

A reviravolta crítica que Proust: a violência sutil do riso provoca é maior do que no âmbito – nada pequeno – da proustiana. O que está em jogo nesse ensaio relativamente breve é um conjunto de questões que move (ou deveria mover) a crítica: os sentidos do romance – e dos romances que encerra –; o lugar do leitor que lida com os inúmeros intérpretes que o antecedem, numa cadeia que parte do autor e dos precursores que inventa e desemboca na miríade de exercícios críticos expressos nas páginas de jornais e revistas e na conversação literária; a perigosa e complexa relação entre ficção e história; a condição do crítico e sua capacidade de instigar o leitor a buscar a obra de que trata e enxergar o que ela oferece.

 

Afinal, quando a crítica é leitura – e resultado de leituras – ela provoca o leitor e o faz pensar; não se impõe a ele pela arrogância ou pelo conforto da posição superior que os críticos gostam, tantas vezes, de assumir. E Leda Tenório da Motta mostra, em Proust: a violência sutil do riso, que é crítica-leitora, multi-leitora: aquela que mostra caminhos e sugere, com erudição e delicadeza analítica, como o leitor pode trilhá-los.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 15h48
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