Na multidão é mais uma história – a sétima – de Espinosa, o detetive criado em 1996 por Luiz Alfredo Garcia-Roza e, desde então, o mais importante personagem do romance policial brasileiro.
Espinosa continua melancólico, continua empilhando livros em seu pequeno apartamento no bairro do Peixoto, continua caminhando pelas ruas de Copacabana, continua “policial filósofo”, continua seguindo seu método dedutivo que se caracteriza, sobretudo, pela falta de método: ele pensa por associação, abiscoita algumas lembranças involuntárias, deixa-se levar pela intuição e consegue decifrar os mistérios.
Em sua nova aventura, o mistério, mais do que nunca, relaciona-se a ele: a seu passado, às difusas memórias da infância, à sua experiência de leitor. Afinal, o título já indica a filiação poeana da história. Hugo Breno, quase amigo de infância de Espinosa, é quase suspeito de um quase crime. E é, também, um homem da multidão. Como o personagem de Poe, só se sente bem em meio à multidão, nas ruas agitadas pelo frenesi do final da tarde. Um homem comum, que mora em uma casa comum, tem um emprego comum e passa despercebido. “Um eremita na multidão”, que torna qualquer perseguição a ele uma tarefa ingrata e inócua – como também descobriu o narrador do famoso conto de Poe.
Além de Poe, outra face da ficção do XIX dá o ar da graça no livro de Garcia-Roza: aquela que fala dos duplos – médicos & monstros, criadores & criaturas – e de toda sorte de estranhamentos e espelhamentos. Vânia, mulher sedutora que atormenta Espinosa, se parece muito com Irene, sua namorada. Hugo Breno se olha no espelho de Espinosa e Espinosa teme olhar-se no espelho de seu passado: o que pode encontrar lá? O crime do presente se confunde com um acidente. Mas também se mistura com outro crime, no passado, que pareceu outro acidente. Entre tantas misturas, como isolar uma parte da outra ou do todo? Como individualizar aquele que se esconde – solitário entre tantos – na multidão? Espinosa não sabe muito bem, demora a decidir e, principalmente, se horroriza com o que os labirintos do presente e do passado guardam.
Na multidão não é um grande livro e o excesso de citações diretas ou cifradas pode cansar um pouco o leitor. Mas é muito bem construído, é bastante superior aos demais policiais brasileiros da atualidade, sua leitura é agradável e mostra que Garcia-Roza está em melhor forma do que sugeriram seus dois romances anteriores. E que Espinosa, mesmo cansado e melancólico, precisa continuar.
Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 17h18
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