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paisagens da crítica


Longe de Ramiro traz uma questão incômoda: para que serve a literatura, a leitura e antes delas – ou junto, emaranhada – a consciência? Provavelmente para nada, é a resposta que ocorre a maior parte das pessoas. Certamente para nada, na terra deserdada ocupada por homens ocos que, na paisagem espetacular – já alertaram os estudantes parisienses em maio de 1968 –, só enxergam as coisas e seu preço. Estranho é que, nesses tempos sombrios que vivemos, alguém busque, mesmo a contragosto, essa consciência, essa disposição de extrapolar o corpo, de irradiar, dele, um olhar sobre o mundo. Assim é Ramiro, personagem de Chico Mattoso em seu romance de estréia.

 

Chico Mattoso escreve uma espécie de prosa do desterro, de um personagem que se isola aos poucos, perde seu território, gasta seu rosto, anestesia seu tempo. Ao redor de Ramiro, o mundo – gentes, objetos, roupas e lugares – se dissolve, até que seu corpo também não lhe pertença mais e a consciência – aflita e desassossegada – se veja solta e, mesmo que a liberdade não se prolongue, aproveita a chance rara de rir. Entre tantas perdas e outros abandonos, Ramiro fala pouco ou nada: descarta a voz, renuncia à comunicação; resta ao narrador contar sua trajetória presente e passada numa alternância de tempos e capítulos que agita a memória. Mas o passado é visto em negativo e não há, na busca, qualquer chance de recuperação. A angústia de Ramiro é o presente – mesmo se fundada no antigo, na casa gigantesca da avó, na relação errática e banal com o irmão, na incômoda distância da namorada Tati, na morte do amigo Nestor, na previsibilidade das atitudes de outros amigos. O passado está perdido; ele é frio, é seco e, ao ser evocado, mesmo que procrie, parece um cadáver insepulto. O texto acompanha esse reconhecimento da morte por meio do distanciamento do narrador onisciente em relação a Ramiro, com seu humor sombrio e corrosivo, com a tensão que a pontuação ritmada dá à narrativa, pelas metáforas ácidas e surpreendentes, pela indistinção entre vivos e mortos.

 

No restrito e fundo universo de Ramiro, os objetos reais e irreais não se diferenciam: tudo já foi deslocado de sua função de origem – tal qual Ramiro, o desterrado. Ele já descobriu, aturdido, que “as árvores não são só árvores” e as venezianas deixaram de ser apenas venezianas; que há um código secreto e de decifração difícil; que o mundo é um espetáculo a ser visto. E Ramiro o contempla e brinca com seus absurdos, suas repetições e obviedades. Um play ground inumano e material, por onde desfilam pessoas que Ramiro arranja e rearranja, a quem atribui funções e lugares desviados. Só que tudo é ambigüidade: para escapar furtivamente do mundo, ele se confinou num quarto de hotel. A consciência – um mundo na cabeça – o aturde a ponto de ansiar pelos breves momentos de esvaziamento, por uma volta ao estado primal em que vivem aqueles homens ocos a que assiste. Afinal, Ramiro se apropria do mundo e torna-o plástico para recriá-lo em sua ficção íntima. Para representá-lo. E nenhum trabalho de criação ou representação é frio ou isento.

 

Essa talvez seja a maior tensão que Chico Mattoso mostra nos vários planos narrativos a que recorre, no jogo de amarelinha do presente com o passado, na duplicidade de histórias que compõem o romance, na experiência final de Ramiro. E a secura e a precisão de seu texto, a criteriosa e econômica escolha das palavras – correlatas do esforço detalhista e construtivo do personagem – auxiliam o leitor a percorrer com alguma aflição o itinerário simultaneamente (auto)libertador e (auto)destruidor de Ramiro. Porque o desassossego de Ramiro – esse estar em si como se estivesse fora e o estranhamento de si mesmo – é também nosso. E do mundo além do quarto de hotel de Ramiro, mundo à nossa volta, que prefere diluir sua consciência enquanto faz as contas finais para saber se a leitura e a literatura servem para alguma coisa.



Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 22h13
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