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Abraços e muitas leituras,
Júlio
Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 20h25
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Morte e julgamento é fraco e previsível. Traz, porém, um mistério de difícil decifração (que você, leitor, saberá qual é no último parágrafo desse comentário) e repete a fórmula que Donna Leon emprega em seus outros livros: misturar os clichês básicos do policial com a idéia de grandes tramas que envolvem poderosos. A leitura é rápida e decepcionante, estimulada apenas pelas referências às ruas tortuosas de Veneza, onde a autora, americana, vive e dá aulas há décadas. Portanto, se você gosta de Veneza, leia. Se não tem grande interesse pela cidade, ignore. Eu, que sonho com Veneza pelo menos uma vez por mês, não perco um livro dela.
Curioso é que, embora Leon esteja lá há tanto tempo, vê a Itália com olhos de estrangeira e escreve sobre o país como se fosse turista – com fascínio, estranhamento e relativa incompreensão. Lembra o famoso comentário de Borges sobre a suposta ausência de camelos no Alcorão: diz ele que não há menção a camelos no livro sagrado (o que é mentira, mas isso é outra história) porque foi escrito por um árabe que não podia saber que camelos eram especialmente árabes. Ao contrário, prossegue, se o autor fosse um falsário, um turista ou um nacionalista árabe, prodigaria em camelos, caravanas de camelos a cada página. Só que Maomé, Borges conclui, estava tranqüilo: sabia que podia ser árabe sem camelos. Donna Leon não sabe que pode ser italiana sem prodigar em termos grafados em italiano e em itálico. Por isso, a cada página, sapeca um “sì” ou um “cara”. Mais que isso: sua estranheza é notável na forma distante como fala dos italianos em geral, e dos venezianos em particular. Pior é que não é apenas a boca onisciente do narrador que revela a distância. O próprio comissário Brunetti age, às vezes, como se viesse de outro país ou planeta e fosse incapaz de penetrar na especificidade local. O resultado é que o relato fica artificial, perde verossimilhança e, pior, ritmo, dado o excesso de intervenções explicativas e de digressões sugestivas da comicidade de algumas atitudes dos “nativos”.
Fora isso, temos o feijão-com-arroz do policial: um detetive incorruptível, um mistério ligeiramente rocambolesco, alguns ambientes sórdidos (e aqui Leon mostra, novamente, de que tradição veio: as marcas do policial duro americano se manifestam o tempo todo e prevalecem sobre o policial analítico), o desfecho revelador. E a marca registrada de Leon: a sensação de que há uma conspiração grandiosa, que imobiliza e leva a justiça a um impasse. Nesse romance, a barra pesa: pedofilia, tráfico de mulheres, drogas, corrupção dos altos escalões do governo. Tem até uma prostituta brasileira e – outra idéia clássica de americano – os criminosos acham (sei lá por quê) que o Brasil é o melhor lugar para se esconder da justiça. Talvez o livro seja uma metáfora dos anos Berlusconi (a edição original é de 1995), que tanto impacto tiveram na ficção italiana recente (aparentemente sem muita influência na consciência da sociedade, tanto que o homem está voltando), com sua combinação de mau gosto, vulgaridade e atmosfera de suspeição. Talvez seja apenas a maquinaria da imaginação de Leon, que mostra ao leitor o fracasso da verdade e a força do crime organizado. Talvez sejam as duas coisas: a primeira como desabafo, a segunda para simplificar a resolução do mistério.
Porque Brunetti, entre uma taça de prosecco e outra (olha aí o camelo veneziano de novo), elucida tudo, mas sua ação não tem efeito prático. Só ele, a mulher e o leitor ficam sabendo a verdade. Um único mistério persiste – e esse nem Brunetti soluciona: por que o livro se chama Morte e julgamento? Morte tem de monte: só nas três primeiras páginas, morrem umas dez pessoas. Mas julgamento não tem nenhum, literal ou metafórico. Por que será? Deve ser coisa de italiano, que Donna Leon não entendeu bem e nós, que nem vivemos em Veneza, tampouco.
Escrito por Júlio Pimentel Pinto às 10h01
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